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Qual a relevância da descoberta de um novo subtipo de HIV

Pela primeira vez em 19 anos, pesquisadores americanos identificaram o que afirmaram ser uma nova variente do vírus em amostras obtidas no Congo

 

Pesquisadores americanos anunciaram ter encontrado o que acreditam ser um novo subtipo de HIV, em um artigo acadêmico publicado na quarta-feira (6). É o primeiro subtipo de HIV descoberto em 19 anos.

No trabalho, disponível na revista acadêmica Journal of Acquired Immune Deficiency Syndrome, os pesquisadores afirmam que encontraram o vírus em uma amostra de sangue coletada em 2001 na República Democrática do Congo, como parte de um estudo sobre prevenção da transmissão do HIV de mães para filhos. A conclusão da análise só ocorreu agora porque, na época da retirada da amostra, não havia tecnologia suficiente para realizá-la.

A nova variante do vírus recebeu o nome de HIV-1, grupo M, subtipo L. Os pesquisadores são ligados à empresa de serviços de saúde Abbot, uma das principais fornecedoras de sistemas para testagem de HIV, usados inclusive para detectar o vírus em sangue de doações.

Quando não tratado, o HIV pode fazer com que o portador desenvolva a síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids), que prejudica o sistema imunológico e pode levar à morte.

O que a descoberta significa

Uma característica importante do HIV é sua grande variedade — ponto que dificulta os estudos para desenvolver uma vacina capaz de prevenir a infecção por essas diversas variantes. Cientistas dividem essas varientes em tipos, que são subdivididos em grupos, compostos por subtipos.

A professora do departamento de Moléstias Infecciosas da Universidade de São Paulo, Ester Sabino, explica ao Nexo que os tipos e grupos de HIV indicam os momentos em que o vírus se propagou de espécies de primatas para seres humanos. Isso pode ocorrer, por exemplo, comendo a carne desses animais.

Mas a mesma lógica não se aplica para os subtipos, que são variações que vêm surgindo desde os quase 100 anos em que o vírus foi transmitido de um chimpanzé para humanos. "É como a evolução de espécies. Só que mais rápido porque os vírus adquirem mais mutações a cada replicação”, diz Sabino.

Atualmente, são conhecidos dois tipos principais de HIV propagado entre humanos: o HIV-1, que veio do chimpanzé, e o HIV-2, que veio de uma espécie de macaco chamada Cercocebus atys. O mais propagado mundialmente é o HIV-1. O HIV-2 é comum na África ocidental e tem crescido na Índia. Eles são divididos da seguinte maneira:

  • HIV-1 é subdividido nos grupos M (que indica “main”, ou principal), O (“outlier”, ou atípico) e N (que inclui os demais que não se encaixam nos grupos anteriores)
  • HIV-2 é subdividido nos grupos A e B

O grupo M do HIV-1 é o mais frequente, e é dividido em 14 subtipos. O subtipo L, recém-descoberto pelos pesquisadores americanos, seria um 15º.

Uma mesma pessoa pode se infectar com diferentes subtipos de HIV. E, como o corpo não desenvolve resistência ao vírus, pode inclusive se infectar mais de uma vez com o mesmo subtipo de HIV.

O impacto da descoberta para tratamento e prevenção

Segundo Ester Sabino, a primeira transmissão do HIV para humanos ocorreu por volta de 1920. Depois disso, o vírus se espalhou por décadas pelo mundo antes de começar a ser estudado a fundo e combatido. “Quando se percebeu, tinha muita gente infectada”, disse. Estudar o vírus e detectar subtipos desconhecidos que estão circulando entre humanos pode contribuir para evitar que eles se espalhem.

Ao conhecer as variantes do vírus, é possível estudar se os medicamentos em uso são capazes de combatê-los adequadamente, inclusive prevenindo a infecção. A descoberta de um subtipo é menos preocupante do que a de um novo tipo ou grupo, mas pode ser relevante para o desenvolvimento de uma vacina, algo que vem sendo estudado por cientistas, afirma Sabino.

Atualmente, quem se trata com os medicamentos existentes é capaz de baixar a quantidade de HIV em seu sangue a um ponto em que o vírus deixa de ser detectável, ou mesmo transmissível.

A rede pública de saúde brasileira vem distribuindo em várias cidades do país a profilaxia pré-exposição (Prep). Quem adere ao tratamento preventivo toma um comprimido por dia, todos os dias, e fica protegido da contaminação pelo HIV. 

Não há estudos indicando se o novo subtipo de HIV é resistente aos tratamentos ou métodos de prevenção disponíveis. Mas Sabino ressalta que, por se tratar de um subtipo de um grupo já conhecido, não é de se esperara que o combate a ele requira tratamentos muito diferentes dos já disponíveis.

Além disso, até onde se sabe, o novo subtipo de HIV ainda é muito pouco propagado, restrito à África Central. “A epidemia demorou 60 anos para sair da África e chegar à Europa e aos Estados Unidos. Ainda demora para sair da República do Congo e chegar em áreas com acesso ao Prep”, avalia.

Em entrevista à revista de divulgação científica Scientific American, a pesquisadora Mary Rodgers, que chefiou o estudo, também afirmou que o novo subtipo é extremamente raro, e que o método de testagem fornecido pela Abbot é capaz de detectá-lo. A companhia afirma que é fornecedora de 60% dos métodos de testagem no mundo.

A maior relevância da descoberta é auxiliar os cientistas a entender melhor o vírus, o que pode ajudar na prevenção e tratamento, segundo os autores do estudo.

“Essa pesquisa nos lembra que, para acabar com a pandemia de HIV, devemos continuar a pensar à frente desse vírus que muda constantemente, e usar os últimos avanços na tecnologia e nos recursos para monitorar sua evolução”, afirmou uma das coautoras, Carole McArthur, à agência internacional de notícias AFP. Ela avaliou que “em um mundo crescentemente conectado, não podemos mais pensar em vírus contidos em uma única localidade”.

Já o chefe do departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade do Arizona, Michael Worobey, que não participou da pesquisa, relativizou a importância da descoberta. À Scientific American, avaliou que já era de se esperar que haveria variantes de HIV na África Central, onde o vírus se originou.

E, ao contrário dos autores do estudo, avaliou que detectá-los não é relevante porque o vírus é pouco propagado. Para ele, o único motivo que justificaria estabelecer uma nova classificação por subtipo, como o subtipo L, seria se o vírus se propagasse para além da África Central. Não há sinais de que isso tenha ocorrido.

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