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O movimento que aproxima os mangás do cinema francês

Corrente artística incorpora elementos da nouvelle vague aos quadrinhos japoneses, criando tramas intimistas e quebrando uma lógica de mercado

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    A nouvelle vague, ou “nova onda”, em tradução direta, foi uma corrente artística que começou no cinema francês no final dos anos 1950 e que se consagrou durante os anos 1960, com produções de cineastas como Jean-Luc Godard e François Truffaut.

    O nouvelle mangá é um movimento artístico que aproxima os quadrinhos japoneses das HQs do mercado franco-belga, incorporando também elementos dos filmes da nouvelle vague.

    Com uma mistura de influências e estilos, o movimento nouvelle mangá traz renovação para os quadrinhos japoneses.

    A origem do termo, a nova onda e os novos mangás

    O termo “nouvelle mangá” foi criado em 2001 pelo quadrinista francês Frédéric Boilet, que passou boa parte de sua carreira vivendo no Japão.

    Em seu site, Boilet publicou “o Manifesto do nouvelle mangá”, definindo esse tipo de quadrinho como mangás que contam histórias de pessoas comuns em seu cotidiano, com um enfoque mais intimista na condução da narrativa, tentando atingir um público adulto. O autor aponta que, desde os anos 1990, o grosso da produção de mangás foi direcionada à crianças e adolescentes, com histórias majoritariamente ambientadas em universos de fantasia e ficção científica.

    Para ele, esse tipo de narrativa intimista permitiria que os mangás alcançassem um público para além dos fãs dos mangás tradicionais.

    No texto, Boilet aponta que o Japão é um dos países que mais consomem filmes franceses. Por isso, mangás que incorporassem influências do cinema daquele país teriam potencial de atingir o público doméstico.

    Em seu manifesto, Boilet conclama os autores com estilo próximo ao seu a formarem um movimento e, então, trabalharem pela popularização do nouvelle mangá, dentro e fora do Japão.

    Encabeçada por Truffaut, Godard, Claude Chabrol e Agnès Varda, a nouvelle vague renegou o tom literário nas obras cinematográficas, algo comum à época em que o movimento surgiu, e trazia para a tela questões do dia a dia, em especial dilemas da juventude francesa da época.

    Em sua dissertação de mestrado, Tiago Canário, mestre em comunicação pela Universidade Federal da Bahia, afirma que o nouvelle mangá se aproxima da nouvelle vague não só pela aproximação temática e estética, mas também por quebrar a lógica de produção e de direcionamento vigente presente na indústria dos mangás.

    O mercado de mangás ainda se baseia em uma produção massiva, direcionada ao público infantil e adolescente. Em 2018, existiam cerca de 150 revistas publicadas mensalmente no Japão, com uma média de 18 enredos por edição. Um dos principais títulos é a revista Weekly Shonen Jump, que tem uma tiragem de cerca de 2 milhões de exemplares impressos semanalmente.

    Os autores do nouvelle mangá vão na contramão dessa tendência. A produção é artesanal, com mais tempo dedicado ao desenvolvimento do roteiro e da arte.

    Ned Beauman, crítico literário do The Guardian, também vê o nouvelle mangá se distanciando das práticas do mercado. Em um artigo publicado no jornal, Beauman chega a dizer que claramente os autores do movimento não têm interesse em tornar a produção desses quadrinhos suas ocupações principais.

    Os principais nomes do movimento

    Um dos principais nomes do movimento nouvelle mangá é o quadrinista Jiro Taniguchi.

    Taniguchi morreu em 2017, aos 69 anos. Duas obras dele foram publicadas no Brasil recentemente: “Guardiões do Louvre”, lançada no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim, traz uma trama de realismo fantástico ambientada no Museu do Louvre; e “O homem que passeia” (Devir) e que mostra oito passeios de um homem por sua cidade, no Japão, enquanto faz reflexões sobre a própria vida e sobre a vida daqueles que o cercam.

    Em 2011, Taniguchi recebeu a medalha da Ordem das Artes e das Letras, a maior condecoração dada pelo governo francês a artistas e figuras ligadas à cultura.

    Outro nome proeminente dentro do movimento do nouvelle mangá é a quadrinista Kan Takahama, que assinou a HQ “O último voo das borboletas”, publicada no Brasil também pela Pipoca & Nanquim, que conta a história de Kichou, uma prostituta de luxo no Japão do século 19 que vê sua vida mudar ao conhecer um cliente que tem uma grave doença.

    No manifesto do movimento, Boilet também cita nomes como Yoshiharu Tsuge, Naito Yamada e Kiriko Nananan como nomes importantes do movimento nouvelle mangá. Os três ainda são inéditos no Brasil.

    O próprio Boilet produziu um quadrinho que pode ser enquadrado dentro das características do movimento: “O espinafre de Yukiko” conta a história de amor de um quadrinista francês e de uma mulher japonesa. O título foi lançado no Brasil em 2005, pela editora Conrad, e venceu o prêmio Angoulême, um dos principais da indústria, em 2004.

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