Como a esquerda latino-americana tenta se reorganizar

Grupo de Puebla prega reação contra o ‘avanço da direita conservadora’ na região e planeja ocupar mais espaços na arena pública

     

    O Grupo de Puebla é um coletivo informal de personalidades da esquerda latino-americana e europeia que se reuniu pela primeira vez entre os dias 12 e 14 de julho em Puebla, quarta maior cidade do México, localizada 130 quilômetros a sudeste da capital.

    O segundo encontro do grupo começou informalmente na sexta (8) e termina no domingo (10), em Buenos Aires, capital da Argentina. O coletivo espera reunir 32 personalidades políticas de 12 países.

    Esse segundo encontro tem início em um momento simbólico para a esquerda latino-americana. Ele ocorre após a soltura do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. O líder petista estava preso havia 19 meses em Curitiba após ter sido condenado no âmbito da Operação Lava Jato, pelo caso envolvendo o apartamento tríplex em Guarujá.

    Com efeito, na abertura informal do evento, no sábado (9), foi exibido um vídeo de gravado por Lula, no qual parabenizou o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, e sua vice, Cristina Kirchner, e se solidarizou com o mandatário boliviano Evo Morales, que enfrenta distúrbios após a sua quarta eleição.

    Líderes que fazem parte do Grupo de Puebla vinham fazendo campanha aberta pela libertação do ex-presidente brasileiro há meses. Para eles, a prisão do petista deu-se por razões políticas e seu julgamento deveria ser anulado.

    O argumento de perseguição política é o mesmo usado para questionar processos em curso contra outros ex-presidentes de esquerda que estão sendo processados por casos de corrupção na América Latina, como Cristina Kirchner na Argentina e Rafael Correa no Equador, ambos membros do grupo.

    No caso de Lula, a soltura, ocorrida na sexta-feira (8), tornou-se possível após a decisão tomada no dia anterior pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil a respeito das prisões em segunda instância.

    O tribunal decidiu por maioria que as penas de prisão só devem começar a ser cumpridas após esgotados todos os recursos possíveis. Como ainda cabem recursos a Lula no caso do triplex, por isso o ex-presidente saiu da cadeia.

    Valeu a pena a demanda de tantos”, festejou o presidente argentino pelo Twitter, após ter conhecimento da decisão do Supremo em Brasília. Fernández – que é anfitrião desse segundo encontro do Grupo de Puebla – disse que essa decisão “é a mesma que defendemos na Argentina há anos”, e que poderia beneficiar alguém como sua vice, Cristina.

    No dia em que foi eleito, Fernández publicou uma foto fazendo o gesto da campanha “Lula Livre”. Em resposta, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara – presidida por um dos filhos do presidente do Brasil, Eduardo Bolsonaro – aprovou uma moção de repúdio contra o novo presidente argentino por seus gestos e declarações.

    O episódio ilustra o tipo de tensão ideológica que o recém-criado Grupo de Puebla vem criando, ao reafirmar posições tradicionais da esquerda em contraposição a uma direita – e, no caso do Brasil, uma extrema direita – que adquire força renovada e inédita após o início da redemocratização.

    Quais as ideias do Grupo

    As ideias que guiam o coletivo foram publicadas desde o início num manifesto. O documento fala em conter “o avanço da direita conservadora” na América Latina por meio do desenvolvimento de um “programa de pensamento e ação” coordenada entre seus membros.

    O tom do manifesto é de rechaço à ideia de uma esquerda saudosista e derrotada. O grupo diz não querer ficar preso “a simples lembranças do passado”, mas trabalhar com “os desafios do presente”.

    O grupo identifica “retrocesso em importantes conquistas adquiridas na primeira década do século”. O período corresponde aos governos de esquerda que estiveram à frente de Venezuela, Bolívia, Equador, Peru, Chile, Uruguai, Argentina, Paraguai e Brasil na virada do século 20 para o século 21.

    Quem faz parte do Grupo de Puebla

    Entre os membros do Grupo de Puebla, há presidentes em exercício, ex-presidentes, candidatos e ex-candidatos, além de ministros, ex-ministros, parlamentares e ex-parlamentares, numa mistura entre políticos experientes e aspirantes a cargos públicos.

    Lula, por exemplo, faz parte do grupo, assim como a ex-presidente Dilma Rousseff, que o sucedeu em 2011 e deixou a Presidência em 2016, após sofrer um processo de impeachment.

     

    Ainda entre os brasileiros, estão o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, candidato derrotado à Presidência em 2018; e o ex-ministro, ex-deputado e ex-senador petista Aloizio Mercadante.

    Outros ex-presidentes presentes no grupo são o equatoriano Rafael Correa, que governou de 2007 a 2017; o paraguaio Fernando Lugo, que assumiu em 2008 e sofreu processo de impeachment em 2012; o colombiano Ernesto Samper, que governou de 1994 a 1998; e o dominicano Leonel Fernández, presidente de 2004 a 2012.

    Entre os candidatos ou ex-candidatos à presidência estão Daniel Martínez, que disputa o segundo turno das eleições uruguaias pela Frente Ampla em 24 de novembro; e o chileno Marco Enriquez-Ominami, que concorreu à presidência de seu país em 2009, quando nem passou ao segundo turno.

    Além de todos esses, há ainda os ex-chanceleres do Brasil, Celso Amorim; da Argentina, Jorge Taiana; e do Chile, José Miguel Insulza. A mistura tende mais ao passado do que ao futuro. Os participantes têm perfil experiente, e a maioria não parece estar hoje em condições de ocupar postos eletivos importantes.

    A composição indica que o grupo é mais um clube de troca de ideias e tomadas de posições públicas conjuntas do que uma plataforma de nomes capazes de liderar o porvir eleitoral de uma nova esquerda no curto prazo.

    Entre uma pauta antiga e nova

    Os novos movimentos jovens de esquerda estão cada vez mais ligados à defesa de pautas identitárias, como a questão LGBTI. Além disso, o feminismo assumiu o topo da agenda de esquerda nos últimos anos, e a mudança climática parece monopolizar a atenção de uma geração ainda mais nova, que ingressa apenas recentemente na política.

    Esses temas não aparecem mencionados no manifesto fundacional do Grupo de Puebla, salvo uma breve citação ao “protagonismo da mulher em exponencial crescimento”. No mais, o documento reflete a linguagem e os temas caros justamente à geração dos membros do próprio coletivo – em sua maioria políticos profissionais, homens brancos, com mais de 40 anos.

     

    Temas como democracia direta e uso de novas tecnologias para favorecer e fortalecer a participação popular nos processos de tomada de decisão política também não são mencionados.

    O documento critica o atual “ecossistema midiático” – que em vários países da região tem a participação predominante de grandes conglomerados privados de comunicação e de empresas familiares que detêm propriedades cruzadas de meios, controlando jornais impressos, rádios e TVs numa mesma localidade. Como resposta, o grupo saúda o “surgimento de inovadores meios de comunicação alternativos que horizontalizam as relações e quebram velhas hegemonias comunicacionais”.

    O grupo não menciona, entretanto, o peso das redes sociais e dos aplicativos de trocas de mensagens, que se mostraram determinantes em processos eleitorais recentes, incluindo a vitória de Jair Bolsonaro, candidato de extrema direita no Brasil, nas eleições de 2018.

    Em alguns aspectos, a linguagem do coletivo ecoa o léxico dos anos 1990 e dos anos 2000, ao recuperar os elogios às “organizações de trabalhadores” e criticar a “globalização financeira” – termo claro da luta anti-globalização, substituída hoje, com sinais ideológicos trocados, pelos que criticam o “globalismo”.

    Posicionamentos caso a caso

    Também é possível ver como o Grupo de Puebla pensa a partir de posicionamentos recentes sobre casos concretos, como o da eleição na Bolívia, e os protestos no Chile e no Equador.

    Na Bolívia, por exemplo, o grupo tomou partido do presidente Evo Morales após a contestada apuração de votos da eleição presidencial de 20 de outubro. Seus membros pediram “a ratificação e legitimação do processo eleitoral”, apesar da contestação apresentada pelo rival de Evo, Carlos Mesa.

     

    No Chile, onde uma onda de manifestações pede, entre outras coisas, a renúncia do presidente Sebastián Piñera, de direita, o grupo publicou comunicado em apoio aos manifestantes e contra a “repressão militar” ordenada pelo governo, que decretou toque de recolher e colocou o Exército nas ruas.

    No Equador, onde o presidente Lenín Moreno também decretou estado de exceção, no dia 3 de outubro, e chegou a mudar a capital de Quito para Guayaquil por casa de uma onda de violentas manifestações, o grupo criticou o “clima de perseguição política” contra opositores.

    Na Venezuela, o grupo faz contraponto às pressões mais radicais para demover o presidente Nicolás Maduro do poder à força. Em nota, seus membros dizem rechaçar “qualquer tentativa de uso da força que quebre o princípio de solução pacífica de controvérsias e possibilite uma intervenção militar na Venezuela por parte de forças estrangeiras”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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