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Como os audiolivros se popularizam no Brasil e no mundo

Pela primeira vez, formato ganhou um espaço próprio na Feira de Frankfurt, evento importante no mercado editorial. Narrativas em áudio hoje incluem efeitos sonoros e atraem celebridades

     

    Os audiolivros, ou audiobooks, são adaptações fonográficas de livros que podem ser baixadas em dispositivos móveis e escutadas em qualquer lugar.

    O formato tradicional traz uma narração profissional do que foi escrito pelo autor. Alguns audiolivros também incluem efeitos sonoros, vozes diferentes para os personagens e outros recursos de áudio.

    A oferta e a demanda de audiobooks está em ascensão ao redor do mundo e desponta como tendência no mercado editorial. Em outubro, a edição 2019 da Feira de Frankfurt, na Alemanha, o principal evento do mercado literário mundial, incluiu pela primeira vez um espaço de 600 m² dedicado inteiramente a discussões sobre audiobooks e podcasts.

    A origem dos audiobooks

    O surgimento dos audiolivros está diretamente relacionado ao surgimento do fonógrafo, o primeiro aparelho a ser capaz de gravar e reproduzir sons, inventado por Thomas Edison em 1877.

    No livro “Audiobooks, literature and sound studies”, Matthew Rubery, professor de literatura moderna na Universidade Queen Mary, de Londres, aponta que, logo depois do surgimento do fonógrafo, pequenos poemas começaram a ser gravados e reproduzidos nos locais onde o aparelho se fazia presente.

    As limitações tecnológicas da época, contudo, tornavam a gravação de livros inteiros algo impraticável. Os audiolivros num formato similar ao atual remontam à década de 1930.

    Nessa época, a Biblioteca do Congresso americana lançou uma iniciativa para gravar livros inteiros, como uma forma de permitir que pessoas com deficiência visual, em especial soldados veteranos da Primeira Guerra Mundial, pudessem ter acesso às publicações.

    Dentre os primeiros audiolivros produzidos pela Biblioteca do Congresso americana estavam a Bíblia, a Declaração de Independência dos Estados Unidos, peças de William Shakespeare e o clássico “As viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift.

    A iniciativa foi prolífica e fez com que iniciativas privadas também começassem a investir no formato. Foi só na década de 1970 que o mercado de audiobooks se desenvolveu de forma mais profissional.

    A popularização das fitas cassetes, criadas nos anos 60, foi essencial para aumentar o alcance das versões sonográficas dos livros. Nos anos 2000, os audiobooks passaram a se aproveitar das tecnologias digitais e da internet para atingir um público ainda maior e crescente.

    O mercado internacional

    Os EUA são o maior mercado produtor e consumidor de audiolivros. Em 2017, os audiobooks representaram cerca de 10% das vendas totais de livros no país, segundo dados divulgados pela Associação Americana das Editoras.

    O faturamento total do mercado de audiolivros nos EUA em 2018 foi de US$ 940 milhões, com 44.685 novos títulos lançados em um período de 12 meses. De acordo com a Associação Americana das Editoras, os livros de ficção foram mais populares do que os de não ficção, com os gêneros de mistério, suspense, fantasia e ficção científica sendo os preferidos entre os ouvintes.

    Os números de 2017 e de 2018 mostram uma tendência de crescimento no mercado americano que remonta ao começo dos anos 2010, com uma grande empresa capitaneando o mercado: a Amazon.

    Em 2008, a gigante do varejo eletrônico de Jeff Bezos comprou a Audible, uma empresa de distribuição de audiobooks fundada em 1995, por US$ 300 milhões. Fez a marca crescer e passou a apostar na produção de histórias originais, exclusivas para a plataforma.

    Hoje a Audible é a maior empresa do ramo nos EUA. De acordo com a revista Bloomberg, a plataforma obteve 41% das vendas totais de audiobooks em 2016.

    No Reino Unido, o mercado de audiolivros arrecadou, no primeiro semestre de 2019, 119 milhões de libras, de acordo com dados da empresa de pesquisa de mercado Ibis World que incluem 125 empresas do setor. Entre 2014 e 2019, o segmento cresceu 10,9% ao ano.

    De acordo com dados publicados em abril de 2019 pela Associação dos Publishers de Áudio, a China tem observado uma ascensão no mercado de audiolivros. O país asiático produziu 7.000 novos títulos títulos em 2018, com uma arrecadação total de US$ 470 milhões, um crescimento de 22% em comparação ao ano de 2017.

    As celebridades e os audiobooks

    Dentro do mercado, há um nicho que também vem crescendo: as produtoras que contratam celebridades para fazer a narração dos audiobooks.

    As atrizes Jane Fonda, Scarlett Johannson e Meryl Streep, e os atores Armie Hammer, Wil Wheaton e Lin-Manuel Miranda já fizeram narrações para audiobooks, produzidos por diversas empresas. A ex-primeira-dama dos EUA Michelle Obama narrou a versão em áudio da sua autobiografia, “Minha História”.

    Não há dados públicos que demonstrem que essa estratégia se reverte em aumento nas vendas, mas a variedade crescente de títulos com celebridades narradoras demonstra que esse é um mercado financeiramente interessante para as produtoras.

    As iniciativas no Brasil

    No Brasil, há algumas iniciativas recentes de plataformas que produzem e distribuem audiobooks em português.

    Criada em 2014, a brasileira Ubook é a maior delas, com cerca de 6,5 milhões de usuários cadastrados e mais de 10.000 títulos em seu catálogo, incluindo livros de ficção, de não ficção e revistas. O modelo de negócios da plataforma é similar ao adotado pela Netflix no streaming de séries e filmes: o usuário paga um valor fixo por mês e tem acesso a todo o acervo.

    A sueca Storytel começou a operar no Brasil em setembro de 2019, seguindo um modelo similar ao da Ubook. Somando os 18 países nos quais está presente, a Storytel conta com um catálogo de mais de 200 mil títulos.

    Os sites Autibooks e Tocalivros são outras iniciativas parecidas no mercado brasileiro. Já a Amazon estuda trazer a Audible para o Brasil desde 2017.

    Além de plataformas dedicadas, os audiobooks também são vendidos nas lojas de aplicativos da Apple e do Google.

    Por que o mercado está crescendo

    Segundo a Associação das Editoras dos EUA, o crescimento do mercado de audiobooks está diretamente relacionado à popularização dos podcasts: de acordo com o levantamento, 55% dos ouvintes de audiolivros são ouvintes frequentes de podcasts.

    “Nós acreditamos que os podcasts estão ajudando a popularizar o áudio no geral, incluindo os livros”, disse Stephen Lotinga, presidente da Associação das Editoras do Reino Unido, ao jornal The Guardian. “As editoras estão investindo bastante na construção de estúdios e contratando os melhores atores para narrar os livros. É uma grande oportunidade”, afirmou.

    Além disso, a consolidação dos dispositivos digitais móveis no uso cotidiano permite que os “leitores” escutem os livros durante a realização das mais diversas tarefas do dia a dia, da lavagem de louças ao deslocamento para o trabalho.

    Ainda ao jornal The Guardian, Rachel Mallender, diretora do departamento de áudio da editora HarperCollins, afirmou que os audiolivros ganham adeptos também pelas possibilidades narrativas que o formato fonográfico permite, como experimentações sonoras que criam mais imersão na história apresentada.

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