Irã-Iraque: como os protestos em Bagdá reavivam antigas tensões

Jovens iraquianos se revoltam com interferência iraniana na política local, pedem destituição do governo e mudanças radicais na sociedade

     

    Dezenas de manifestantes iraquianos tentaram no domingo (2) pular os muros e incendiar a sede do Consulado do Irã na cidade de Carbala, localizada 85 km a sudoeste de Bagdá.

    O grupo lançou pedras contra o edifício e colocou fogo num monte de detritos junto ao muro que protege a construção. Bandeiras do Irã foram queimadas na rua, enquanto os manifestantes gritavam palavras de ordem contra o país vizinho.

    Foto: Thaler al-Sudani/Reuters - 24.03.2017
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    Manifestantes nas ruas de Bagdá
     

    O protesto em Carbala é parte de uma onda maior, iniciada no dia 1º de outubro. Essa onda teve início com reclamações populares contra a corrupção, o alto custo de vida e a má qualidade dos serviços públicos do Iraque, além da insatisfação com o parlamentarismo que vigor no país. Aos poucos, no entanto, transformou-se numa onda de rechaço à influência crescente que o Irã exerce na vida política do Iraque.

    Um dia antes do protesto em Carbala, manifestantes reunidos numa praça da região central da capital, Bagdá, exibiram grandes cartazes contra presidente do Irã, Ali Khamenei, enquanto gritavam “fora, Irã”.

    A violência que marcou o início dessa onda de protestos arrefeceu com o tempo. Na primeira semana de outubro, mais de cem manifestantes foram mortos pela polícia e pelas Forças Armadas do Iraque. Com a persistência dos protestos, que já duram agora mais de um mês, o governo iraquiano resolveu recuar, reconheceu o “uso excessivo da força” e prometeu responsabilizar os responsáveis pelos disparos.

    O sinal de internet, que havia sido cortado em outubro, voltou a cair no início de novembro, algo que é interpretado pelos manifestantes como uma tentativa do governo de dificultar a organização de novos protestos, que se alastram principalmente pelas cidades do sul do país.

    Qual o papel do Irã no Iraque

    O Irã é uma potência regional que busca projetar ao máximo sua zona de influência política e militar no Oriente Médio. O país arma, treina e financia grupos armados que agem atualmente no Iraque, na Síria e no Líbano.

    Especificamente no Iraque, esse papel é exercido desde 2014, quando o Irã agiu para expulsar membros do Estado Islâmico do país. Desde então, as milícias iranianas envolvidas nesse combate permanecem presentes no Iraque, onde havia, de parte do governo e da população, um sentimento predominante de gratidão.

     

    125.000

    É o número estimado de membros de milícias apoiadas pelo Irã dentro do Iraque

     

     

    Politicamente, o Irã também agiu para que candidatos simpáticos a si conquistassem postos políticos importantes no Iraque nos últimos anos. O atual primeiro-ministro, Adil Abdul-Mahdi, que ocupa o cargo executivo mais importante do país, é uma dessas figuras. Além dele, os ministros do Trabalho, das Comunicações e da Assistência Social também são próximos do Irã.

    Esses postos são chaves para que os iranianos controlem o fluxo de informação no Iraque, assim como os contratos do poder público com empresas privadas, incluindo serviços de assistência social, o que aumenta a influência sobre o país vizinho e sua população.

    O peso do sunismo e do xiismo

    A tensão política nesse contexto acompanha uma antiga linha de fratura em muitas sociedade islâmicas, marcada pela divisão entre xiitas e sunitas.

    Essa divisão data do século 7 e diz respeito a quem deveria levar adiante a religião após a morte do fundador do Islã, o profeta Maomé – se seus parentes diretos ou seus seguidores mais próximos.

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    A questão original que levou a essa divisão não tem grande importância  hoje, mas acabou trazendo consigo importantes divisões políticas.

     

    O Irã tornou-se a maior potência xiita do mundo. Desde 1979, a política e a religião são intimamente ligadas no país, com os clérigos xiitas dando a última palavra em todos os setores da sociedade.

     

    Em 1980, o ambiente tumultuado que se seguiu à revolução iraniana deu ao então presidente iraquiano, Saddam Hussein, uma oportunidade de tentar tirar proveito do país vizinho. A investida de Saddam deu início à guerra Irã-Iraque, que se estenderia até 1988, sem que nenhum dos dois lados obtivesse vantagem territorial significativa sobre o outro. 

     

    Assim como no Irã, no Iraque, a maior parte da população também é xiita. Entretanto, uma mudança geracional tem levado muitos jovens – mesmo sendo membros da comunidade xiita local – a rechaçar o papel interventor que o Irã desempenha no país.

     

    Essa resistência é menor entre os mais velhos, sobretudo aqueles que de alguma maneira se beneficiaram do arranjo de forças ocorrido após a última invasão americana (2003-2009). A atual classe política, por exemplo – formada por um arranjo informal de divisão de poderes entre xiitas, sunitas e curdos – vive protegida dentro da Zona Verde de Bagdá, espécie de bairro nobre e resguardado, deixado como herança pelos militares e funcionários do governo americano que construíram esse oásis a partir de 2003.

     

    “Os protestos contra este governo, liderado por xiitas, parte das regiões central e sul do Iraque, que tradicionalmente davam suporte à influência iraniana no país”

    Ghassan al-Attiyah

    Cientista político iraquiano em entrevista à Al-Jazeera, na segunda-feira (4)

    “A revolução não é contra os EUA, ela é contra o Irã e contra a religião – contra a política religiosa, não contra a religião em si”

    Saad Eskander

    Ex-diretor do Arquivo Nacional do Iraque, em entrevista à correspondente do jornal americano The New York Times em Bagdá

    No fim de outubro, numa das festas mais importantes do calendário xiita, que marca o aniversário da morte de Imam Hussein, neto de Maomé, o Irã forneceu milhares de tendas, banheiros e outras facilidades para que o governo iraquiano pudesse receber, em seu território, os peregrinos que viajavam a Carbala para participar das cerimônias.

     

    A oferta foi bem aceita, mas tornou-se um exemplo de interferência indevida depois que o governo iraniano quis também enviar homens armados, sob seu comando, para garantir a segurança do evento. 

     

    O episódio demonstra a que ponto vai a penetração política e militar do Irã no vizinho Iraque. Em zonas mais afastadas da capital, cidadãos iraquianos relatam episódios de roubo e de extorsão cometidos por milicianos ligados ao Irã.

     

    Já nas ruas da capital, jovens expressam um misto de revolta contra a influência iraniana e os descalabros de uma classe política apartada do povo que a elegeu.

     

    “Nós temos internet. Nós viajamos. Nós vimos como é o mundo e nós queremos uma vida diferente. Queremos ser como os outros países, queremos nossos direitos”, disse Mohammed al-Amim, estudante do segundo ano do curso de medicina, entrevistado pela correspondente do jornal americano The New York Times nas ruas de Bagdá.

     

    Respostas insatisfatórias

     

    Pressionado pela onda de protestos que já dura mais de um mês, o governo do Iraque tem oferecido respostas em ritmo muito mais lento do que o exigido pelas ruas.

     

    O presidente Barham Saleh prometeu mudar o atual sistema de voto em lista de candidatos para um sistema de voto nominal. Não parece ser suficiente, entretanto, para os manifestantes, que saem às ruas para pedir a troca do regime de governo, do parlamentarismo para o o  presidencialista.

     

    Muitos especialistas acreditam que o atual governo iraquiano não tenha outra saída que não seja propor um gabinete de transição negociada, que destitua uma classe política vista hoje como corrupta e apartada do povo, e abra caminho para uma nova eleição. Seria uma alternativa para evitar que o atual levante popular converta-se em um cenário mais grave de conflitos civis, como aquele que, em 2011, levou a vizinha Síria ao atual conflito armado.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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