Tragédia de Mariana, 4 anos: o relato de quem comandou o resgate

Ao ‘Nexo’ chefe de equipe de resgate que atuou em Bento Rodrigues diz que falta aos bombeiros preparo para lidar com a dor dos familiares das vítimas

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Maior desastre socioambiental do país, a tragédia de Mariana completa quatro anos na terça-feira (5). Em 2015, a ruptura de uma barragem de rejeitos de minério da Samarco, empresa da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, deixou 19 mortos e um rastro de destruição e lama pelo curso do rio Doce até o litoral do Espírito Santo.

Embora não tenha deixado tantas vítimas como em Brumadinho, com 252 mortos e 18 desaparecidos três anos depois, o desastre de Mariana afetou mais pessoas, devido ao número de desalojadas pela lama e dos que dependiam da água dos rios para abastecimento e pesca.

Nesses quatro anos, 225 famílias de Bento Rodrigues, 140 de Paracatu de Baixo e 37 de Gesteira, comunidades destruídas pelo vazamento de cerca de 32 bilhões de litros de rejeitos (material descartado da mineração) ainda não foram reassentadas. A Fundação Renova, criada para reparar os danos da tragédia, promete concluir as obras nos locais escolhidos para receberem os novos distritos até o fim de 2020. A Justiça estipulou prazo até 27 de agosto do próximo ano.

Muitas das indenizações também demoram para sair. Apenas no fim de outubro a Justiça do Trabalho determinou que a família de Edmirson José Pessoa, única vítima nunca encontrada, receba R$ 2,5 milhões.

A Renova diz ter gasto em indenizações e auxílios financeiros R$ 1,8 bilhão até agosto de 2019. Os valores foram pagos a 320 mil pessoas ao longo de todo o rio Doce, por diversos danos. Na época, a tragédia suspendeu, por exemplo, a distribuição de água em cidades como Governador Valadares (MG) e Colatina (ES). As mineradoras dizem ter gasto, ao todo, por meio da fundação, R$ 6,7 bilhões em ações de reparação e compensação desde o início da tragédia.

Nenhum punido

Os responsáveis pelas mortes e crimes ambientais nunca foram punidos. Em 2016, o Ministério Público Federal denunciou 21 pessoas, entre dirigentes da Samarco, da Vale e da BHP. Eles respondem por homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de matar), inundação, desabamento, lesões corporais graves e crimes ambientais.

Mas, em abril de 2019, desembargadores da 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região trancaram a ação penal para o crime de homicídio e lesão corporal. O processo foi mantido apenas para os crimes ambientais e de inundação. O desembargador Olindo Menezes afirmou que o Ministério Público Federal narrou crime de inundação sem apontar elementos para configurar homicídio. Isso significa que nenhum acusado de causar as 19 mortes em Mariana irá a júri popular.

Os dias da tragédia

Para relembrar o que significou, para os moradores e equipes de salvamento, o rompimento da barragem de Fundão em 5 de novembro de 2015, o Nexo conversou com o capitão dos bombeiros Leonard Farah, que atuou nas primeiras horas da tragédia comandando um grupo que resgatou 500 pessoas ilhadas pela lama. Especialista em gestão de tragédias, ele está lançando “Além da Lama” (Vestígio), livro em que relata o que viveu no local.

O chamado

“Eu estava no batalhão onde trabalho em Belo Horizonte quando a gente recebeu uma ligação, à tarde, da nossa central, dizendo que havia rompido uma barragem em Mariana. O nosso batalhão é o único especializado em respostas a desastres e atende todo o estado de Minas Gerais. Assim que o chamado entrou para os bombeiros de Ouro Preto, que chegaram antes, ele também entrou para a gente.

Eu sabia que a distância era muito grande [entre Belo Horizonte e Mariana, de cerca de 117 km] e estava no meio da tarde, então a gente decidiu ir de helicóptero, porque a gente sabia que tinha uma grande chance de não chegar lá de carro. Em cerca de 40 minutos, a gente já estava sobrevoando a região. Foram dois helicópteros com dois militares e dois bombeiros em cada um deles.”

A identificação do local

“Chegamos de dia, e dava pra ver tudo e ter noção do que tinha acontecido. A gente viu Bento Rodrigues todo destruído e decidiu não descer porque a lama estava descendo numa velocidade muito grande e podia atingir outras localidades. Seguimos o caminho da lama.

A gente desceu em Paracatu, que ainda não tinha sido atingida. Começamos a sobrevoar o local e vimos que as pessoas estavam acenando e sorrindo pra gente. Elas não tinham noção do que havia acontecido, que a barragem tinha rompido. Nem sabiam que tinha lama. Elas acenavam e sorriam como se estivessem vendo alguma coisa diferente. Ali, a gente decidiu descer, mesmo com o risco de ser atingido pela lama, que vinha destruindo tudo. Descemos e avisamos aquelas pessoas que estavam lá. Fizemos com que todas as pessoas fossem para o alto do cemitério.”  

O resgate em Bento Rodrigues

“Depois que evacuamos Paracatu, voltamos para Bento Rodrigues, o primeiro local atingido. E a gente havia recebido um alerta de que outra barragem [de Germano, colada à barragem de Fundão, que ruiu] poderia romper. Ela era dez vezes maior. Mas, mesmo com o alerta, a gente decidiu ficar para tirar as pessoas que estavam lá, porque elas não tinham para onde correr e fugir. A gente decidiu arrumar um trator para abrir uma estrada e tirar as pessoas de lá.

Tiramos duas mulheres de dentro da lama. Uma delas estava sendo arrastada com o neto. E uma outra já estava afastada do distrito.”

A rotina das equipes

“Eu fiquei oito dias direto e depois retornei para casa. As equipes começaram a fazer rodízios para melhorar o processo. E então, depois de sete dias em casa, voltei para a operação. A gente passou a ficar sete dias lá em Mariana e sete em casa, quando tentava descansar, mas a cabeça estava na operação.   

Na primeira semana, a gente ficou em Bento Rodrigues, praticamente não dormiu durante três dias, porque ficamos o tempo todo fazendo buscas por pessoas. Comíamos quando dava e fazíamos muitos sobrevoos para tentar encontrar as pessoas com vida. Depois de um mês, começamos a entrar numa rotina em que a gente trabalhava durante o período de luz, e à noite ficava numa parte da empresa, dormia em colchões no chão, para melhorar a qualidade das buscas.”  

O despreparo para lidar com a dor

“O mais difícil é lidar com a dor dos familiares. Realmente mexe muito com a gente, que tenta dar um alívio. O convívio com os familiares é intenso e muito difícil. A gente faz treinamento para salvamento e buscas, mas não é treinado para lidar com essa dor das pessoas. Quando a gente encontra um corpo ou parente vivo, isso mexe muito com a equipe.”

A identificação das vítimas

“No primeiro momento, a gente tinha o nome de 54 pessoas desaparecidas e trabalhava com esse número. A medida que a gente foi afunilando, pessoas que não estavam em Bento foram sendo encontradas, e a gente chegou num total de 19 pessoas.

O pai do garoto Thiago acompanhava as buscas todos os dias, e a gente encontrou a casa onde o menino estava. A gente foi fazendo as escavações, encontrou o troféu de futebol, a bicicleta dele, os objetos dele, mas a gente não encontrava ele. Isso mexeu muito com a equipe. A gente queria encontrar o corpo dele, mas não conseguia, apesar de encontrar todos os objetos. No quarto ou quinto dia, a gente o encontrou. O pai não estava próximo, encontramos o corpo em outro local.”       

Um corpo nunca encontrado

“Esse é um peso que a gente carrega muito. A gente encontrou 18 corpos, mas não ele [Edmirson José Pessoa, que trabalhava na barragem]. Apesar de a gente imaginar onde ele poderia estar, as escavações perto da barragem eram muito próximas e poderiam estabilizar a outra estrutura. A gente não conseguiu cumprir a missão. Ele já estava próximo da barragem, no pé, quando houve o rompimento. É uma imensidão pensar que a lama chegou ao Espírito Santo e que tínhamos um caminho muito grande para percorrer e fazer as buscas.”

Luta contra o tempo

“Fica mais complicado encontrar com o passar do tempo, porque o corpo naturalmente vai se decompondo, é difícil a gente encontrar. Em Brumadinho a gente continua trabalhando.”

Apoio psicológico

“A gente tem um acompanhamento médico e psicológico, mas lidar com essa morte, com a perda, é muito pesado. Os médicos e psicólogos acompanham todas as equipes, todos os dias em Brumadinho até hoje.

A gente o tempo todo lembra do que viu, porque faz parte da preparação. Reviver esses momentos é importante para que a gente melhore as nossas técnicas, consiga aprimorar para saber dar uma resposta caso um acidente novo venha a acontecer.

Eu imaginava que poderiam ter outros após Mariana, mas não da proporção de Brumadinho. Mas a sociedade está aprendendo a evitar, para que não haja tantos danos, fazendo simulados, retirando população abaixo da barragem. Esses acidentes têm mostrado a importância de fazer a prevenção.”

O fim da barragens

“Eu vejo que é impossível acabar com as barragens. A gente quer ter carro, quer ter celular, a gente depende da mineração. Mas tem que ser uma mineração com responsabilidade. Eu tive a oportunidade de ir para o Japão fazer um curso, e lá eles tem barragens e trabalham com prevenção. Existem barragens de amortecimento, barragens de contenção, paredes que desviam o caminho de um possível rompimento. A gente tem que aprender com esses exemplos e saber conviver com elas. É a mesma coisa de querer acabar com os carros porque tem acidente de carro. Não faz sentido.”

O aperfeiçoamento das buscas

“A gente conseguiu comprar muitos materiais, e está no mesmo nível de Israel [país que ofereceu ajuda no resgate em Brumadinho] após o segundo acidente. Só que eles têm uma experiência muito grande em desastres, não em danos, mas em gerenciamento. Essa experiência deles ajuda muito na gestão. Grande parte do fato de termos encontrado 95% dos corpos é devido a experiência que trouxeram pra gente. Em termos de equipamentos, estamos equiparados.

O pessoal de Israel trouxe um radar de detecção de sinal de celular que a gente não tinha. Hoje a gente tem um radar de detecção de vítimas. Numa estrutura colapsada, se a vítima não estiver respondendo, só pelo batimento cardíaco a gente consegue detectar que tem uma vida lá. Isso funciona até 20 metros de profundidade.”

A ideia para o livro

“Quando a gente terminou os trabalhos em Mariana e foi anunciar para o nosso comandante, ele falou: faz um relatório sobre isso. Eu comecei a ver que o relatório não cabia em uma, duas, três, dez páginas. Era um relato emocionante, e aí surgiu a ideia de fazer um livro, e a gente levou mais ou menos um ano para concluí-lo. Tem capítulos de cada vivência de cada um que trabalhou lá. O trabalho dos bombeiros é esse, não é uma pessoa só ou a história do capitão Farah. É a de vários homens que naqueles dias fizeram coisas extraordinárias.”

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