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O que diz a experiência francesa de ônibus gratuitos

A cinco meses das eleições municipais, cresce o número de prefeituras de cidades da França que ensaiam suprimir cobrança de passagem nos ônibus

     

    Pelo menos 29 cidades francesas vêm testando com êxito nos últimos anos a gratuidade nas viagens de ônibus urbanos. O experimento funciona sobretudo em cidades pequenas, de até 100 mil habitantes, mas os relatos positivos tendem a aumentar a adesão.

    A abolição da cobrança por viagem já consta em promessas de campanha de pelo menos 20 candidaturas às eleições municipais de março de 2020.

    Na França, as promessa de não cobrar passagem vêm sendo feitas tanto por políticos de perfil popularesco, preocupados em angariar votos e simpatia, quanto por candidatos ditos “verdes”, preocupados com causas ambientais. Membros de legendas de esquerda também alardeiam os benefícios para a classe trabalhadora, sobrecarregada com o preço da locomoção diária em sua rotina de deslocamentos.

    Os primeiros experimentos partem de uma gratuidade parcial – normalmente nos finais de semana, a título de teste. Em seguida, são ampliados paulatinamente, até cobrir todos os dias do ano e todas as linhas.

    Cidades que têm aderido ao experimento relatam sobretudo benefícios para o tráfego local, à medida que um número maior de munícipes passa a preferir andar de ônibus sem gastar nada, em vez de andar de carro pagando combustível e estacionamento, dentre outros custos.

    Estudiosos de mobilidade urbana dizem, entretanto, que a mudança não é tão simples. As cidades que optaram por aderir à iniciativa tiveram de repensar inúmeras questões, como itinerários e, principalmente, o próprio modelo de financiamento, já que o ônibus continua consumindo dinheiro público para circular.

    “Não existe gratuidade absoluta. O transporte público tem um custo, e o que nós chamamos de ‘gratuidade’ não passa de uma transferência de custos dos usuários para os contribuintes”

    Louis Nègre

    Prefeito de Cagnes-sur-mer e membro do Gart (Grupo de Autoridades Encarregadas dos Transportes), em entrevista ao jornal francês Le Monde, no dia 2 de outubro de 2019

    Para financiar a ideia, diferentes municípios encontraram diferentes soluções. Em alguns casos, como em Dunquerque, a população decidiu, por meio de consultas diretas, priorizar o financiamento público do transporte gratuito a financiar a construção de um estádio municipal. Em outros, como em Niort, no centro-oeste da França, empresários, que já arcavam com o custo do vale-transporte de seus empregados, aceitaram mudar o pagamento caso a caso por uma tributação permanente.

    O caso de Dunquerque

    A cidade litorânea de Dunquerque, no extremo norte da França, é o exemplo mais celebrado de gratuidade no transporte público. Lá, o sistema começou a ser implementado um ano atrás, e os resultados são descritos pela imprensa francesa como “espetaculares”.

    A constatação é baseada em números. O número de passageiros transportados cresceu 65% nos dias úteis, entre setembro de 2018 e agosto de 2019. Nos finais de semana, o crescimento foi de 125%.

    A prefeitura de Dunquerque fez um investimento de 65 milhões de euros (aproximadamente R$ 300 milhões) para implementar o projeto. O dinheiro seria colocado na construção de um ginásio esportivo e anfiteatro de espetáculos, mas a própria população optou por redirecionar o recurso para o experimento de gratuidade no transporte urbano.

    Preço da passagem como estopim de crises

    A experiência das pequenas cidades francesas contrasta com a realidade de grandes cidades mundo afora. Em 2013, um aumento de R$ 0,20 no preço da passagem desatou uma onda de protestos em São Paulo.

    Mais recentemente, em outubro, um aumento de 3,75% no preço do bilhete de metrô de Santiago levou o Chile à maior onda de manifestações de sua história democrática.

    Na França, os “coletes amarelos” prometem retomar as manifestações em novembro, em grande medida por causa do alto custo de vida em Paris e nas grandes cidades. Cada viagem individual de ônibus na capital francesa pode sair pelo equivalente a quase R$ 9.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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