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Quais os efeitos da cultura do cancelamento

Fenômeno nas redes sociais, ato de boicotar figuras públicas que agem de forma considerada ofensiva é muitas vezes menos efetivo do que gostariam seus adeptos e do que alardeiam seus críticos

    Além dos seus usos mais tradicionais – como deixar de assinar um serviço ou desmarcar um compromisso agendado –, o verbo “cancelar” tem sido empregado com frequência, recentemente, para pessoas. O ato de cancelar alguém costuma ser aplicado a figuras públicas que tenham feito ou dito algo considerado condenável, ofensivo ou preconceituoso.

    São inúmeros os exemplos de cancelados, e a lista aumenta a cada semana. O cancelamento é primeiramente decretado numa rede social, onde gera uma onda de críticas e comentários. Depois estampa manchetes e, normalmente, é seguido de uma retratação do cancelado, que pode ou não ser acatada por seus críticos.

    Em um caso recente, o funkeiro MC Gui foi cancelado após postar um vídeo no Instagram no qual ri de uma criança, gravado em uma viagem à Disney. No vídeo, que foi apagado, a menina está visivelmente incomodada. Acusado de bullying nas redes sociais, o artista teve contrato e shows (literalmente) cancelados e publicou um vídeo de desculpas. Em contrapartida, porém, ganhou milhares de seguidores durante a polêmica.

    “Há um aspecto performativo no cancelamento, pode-se argumentar que ele paradoxalmente amplifica aquilo que busca suprimir, mesmo que só naquele momento”, diz um artigo publicado pelo site do dicionário de língua inglesa Merriam-Webster em julho de 2019. 

    Cancelar alguém publicamente requer um anúncio, o que torna o alvo do cancelamento objeto de atenção. Isso seria um contrassenso, na visão do artigo, uma vez que “o objetivo por trás do cancelamento é muitas vezes negar essa atenção, para que a pessoa perca sua relevância cultural”.

    Para ser cancelado, não é preciso nem mesmo estar vivo: a internet brasileira proclamou no fim de outubro o cancelamento do músico Raul Seixas, após uma nova biografia levantar suspeitas de que ele tenha delatado o amigo Paulo Coelho a agentes da ditadura militar.

    O cantor americano Michael Jackson, que morreu em 2009, também foi alvo de um movimento semelhante após o lançamento do documentário “Deixando Neverland”, em março de 2019, que reavivou a discussão sobre as acusações de abuso infantil contra o músico.

    Quais as origens do fenômeno

    Internacionalmente, a ideia de cancelar celebridades é relacionada ao movimento #MeToo, série de denúncias de assédio sexual contra homens poderosos que se espalhou pelo mundo a partir de 2017, e que fez com que vários agressores fossem “genuinamente ostracizados em uma onda cultural de alta velocidade impulsionada pelas redes sociais”, segundo descreve o jornalista Osita Nwanevu em uma análise na revista americana New Republic.

    Em meados de 2018, uma reportagem publicada no jornal New York Times explicava o fenômeno ao declarar que todo mundo estava cancelado, citando Kanye West, Taylor Swift e Gwen Stefani, entre outras celebridades.

    Esse clamor pela responsabilização de pessoas públicas por seus atos e declarações tem pautado o comportamento delas nas redes e em  eventos públicos, assim como o de marcas e outras figuras.

    Ao Nexo a arquiteta, colunista da revista Marie Claire e feminista negra Stephanie Ribeiro disse que os cancelamentos não são propriamente uma novidade. “Há um ou dois anos atrás, a gente não falava em cancelamento, mas em linchamento virtual”, disse.

    Ela liga essas movimentações às redes sociais, “às possibilidades de interação e de resposta muito mais rápidas”, tanto no que diz respeito a reagir a algo que desagrada quanto a conectar pessoas que pensam da mesma maneira. 

    Para Ribeiro, os questionamentos feitos à conduta de figuras públicas estão relacionados à popularização das pautas raciais e feministas, que passaram a ocupar um espaço maior na fala do público geral. “Não é mais uma pauta só de acadêmicos ou especialistas. As pessoas falam muito mais sobre esses assuntos, então conseguem identificar e criticar também com maior facilidade as reproduções dessas lógicas”, disse.

    O fato de as redes possibilitarem um canal mais direto do público com artistas e autoridades também cria condições para a cultura do cancelamento, disse ao Nexo Leonardo Goldberg, psicólogo e doutor em psicologia, que estuda as subjetividades no campo digital e suas implicações para a clínica psicanalítica.

    Goldberg aponta que, com isso, o usuário pode participar ativamente dos perfis, das contas e das carreiras dos artistas. “Acho que a cultura do cancelamento é uma consequência desse usuário ativo, que consegue, de modo engajado, social, político e coletivo dizer se está ou não gostando” das condutas daqueles que acompanha pelas redes. 

    Outros dizem que, embora de fato não seja um fenômeno totalmente novo, a cultura do cancelamento tem ganhado escala.

    O jornalista Osita Nwanevu, em sua análise para a New Republic, defende que a novidade não está tanto na força do cancelamento, mas em quem está fazendo as críticas: “jovens progressistas, muitas minorias, mulheres” que, em grande parte devido às redes sociais “conseguiram um lugar à mesa onde questões de justiça ou de etiqueta estão sendo debatidas e estão fazendo barulho para recuperar o tempo perdido”.

    Os impactos: positivos, negativos e nulos

    Muitos daqueles que foram alvo de cancelamentos, ou que se solidarizam com pessoas que tenham sido criticadas dessa forma, se queixam de uma perseguição inquisitorial que cercearia o discurso e as ações de comediantes, artistas, políticos e youtubers.

    Críticos apontam ainda que as reações muitas vezes alcançam dimensões desproporcionais ou se dão sem base em fatos.

    “Não existe qualquer zona cinzenta a partir da lógica do espetáculo”, pondera o doutor em psicologia Leonardo Goldberg. “E a cultura do cancelamento entra nessa esteira de modo completamente arbitrário, porque [faz parte] da lógica da não contradição, tão presente na internet. Não existe conversa ou escuta”.

    “Acho que o [aspecto] negativo é a forma como a gente lida numa certa cultura do ‘hater’, do ódio, esquecendo que precisa fazer críticas mais embasadas e ter mais consciência coletiva da nossa responsabilidade”, disse ao Nexo a colunista e feminista Stephanie Ribeiro.

    Os efeitos da cultura do cancelamento, no entanto, são em geral menos efetivos do que os “canceladores” poderiam desejar e do que os “cancelados” costumam alardear. 

    “Às vezes, é uma forma até meio rasa de lidar com questões que são estruturalmente muito complexas”, afirma Ribeiro. “Não vejo impactos muito reais em relação a manifestações virtuais que confrontam comportamentos ou falas”.

    Ela cita o caso do jornalista William Waack, que foi demitido da Rede Globo após o vazamento de um vídeo no qual fazia comentários racistas, e teve sua contratação recentemente anunciada por uma nova emissora.

    Ela afirma que a duração e o impacto do cancelamento têm “muito a ver com o lugar social que cada qual desses atingidos ocupa e o peso que a sociedade dá ou não para o que está sendo apontado”, lembrando do caso do músico Wilson Simonal, um homem negro, “cancelado” pela classe artística e intelectual na época da ditadura militar por ser visto como informante do regime.

    O autor do artigo da New Republic, Osita Nwanevu, vai ao encontro desses questionamentos sobre o verdadeiro impacto da cultura do cancelamento, sugerindo um entendimento mundano da questão: enxergá-la como expressões públicas e corriqueiras de desagrado, manifestadas por pessoas comuns em novas plataformas.

    “Se nos vemos passando vertiginosamente de ultraje em ultraje a cada semana, devemos considerar que isso nunca custou tão pouco ou resultou em provocadores e ‘contrariadores profissionais’ ganhando tanto”, escreveu.

    Embora critique a ausência de diálogo que impede “qualquer operação simbólica que possa fazer aquela pessoa mudar de opinião, porque ela é simplesmente cancelada”, Goldberg vê de maneira positiva que as críticas transformam os discursos públicos “em algo atravessado por uma política daquilo que concerne a população, ao bem maior. Todos aqueles que passam a emitir discursos públicos vão ter que se haver com aquilo que dizem”.

    Além de mostrar que temas como o feminismo e o combate ao racismo estão mais difundidos, o efeito sobre discursos preconceituosos de figuras públicas também é o aspecto da cultura do cancelamento que Stephanie Ribeiro identifica como positivo.

    “Hoje uma pessoa não pode dar uma entrevista e falar algo racialmente absurdo, porque alguém vai dizer 'não, isso está errado'.  E aí isso vira uma chuva de comentários e de tuítes, de falas, ações, respostas, vídeos. É muito positivo perceber que as pessoas estão identificando mais facilmente determinadas condutas”, disse.

     

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