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Como protestos no Chile desidratam a liderança regional de Piñera

Presidente era interlocutor hábil numa região marcada por governos instáveis. Até que os protestos mudaram seus planos e ele teve que cancelar dois eventos com líderes globais no país

     

    A onda de protestos deflagrada no dia 7 de outubro no Chile fez desidratar a liderança que o presidente Sebastián Piñera havia assumido na América do Sul.

    Em menos de um mês, Piñera trocou de papéis: de interlocutor privilegiado das potências europeias, passou a ser mais um presidente sul-americano acuado pela própria população e protegido por uma polícia e um Exército agora suspeitos de cometer violações de direitos humanos.

    O Chile é um dos países mais estáveis da região: nenhum presidente teve o mandato abreviado desde a volta da democracia, em 1990, assim como não há presidentes ou ex-presidentes presos. Desde o fim da ditadura, presidentes socialistas e neoliberais alternaram-se pacificamente no cargo, sem contestações ou birras.

    A condição de país previsível numa zona instável facilitou que Piñera, quase na metade de seu segundo mandato (o primeiro foi entre 2010 e 2014), tomasse o centro da cena, enquanto os dois maiores países da região, Argentina e Brasil, passam por oscilações.

    Na Argentina, a política está num momento de transição do neoliberal Maurício Macri para o peronista Alberto Fernández e sua vice, Cristina Kirchner, num movimento de sucessão presidencial que faz o dólar disparar e, com ele, as dívidas de um governo pendurado numa linha de crédito de US$ 57 bilhões com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

    No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro inaugura um governo de extrema direita saudoso da ditadura e fascinado por antigos torturadores, exacerbando a polarização com uma esquerda que tem seu principal líder, Luiz Inácio Lula da Silva, na cadeia, clamando pela revisão de um processo judicial cada vez mais contestado.

    Equador, Peru e Bolívia vivem distúrbios políticos ainda mais graves, com aplicação recente de estado de exceção pelos equatorianos, dissolução do Congresso pelos peruanos e contestações de resultado eleitoral, com pelo menos seis mortes nas ruas, no caso boliviano.

    O protagonismo entre as potências

    O lance de maior protagonismo de Piñera até então havia sido a participação na cúpula do G7, realizada em Biarritz, na França, no final de agosto.

    O presidente chileno foi o único sul-americano convidado a participar do evento, que reúne líderes de Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido. O Chile não é parte do G7, mas o grupo de potências convida anualmente autoridades de outros países a unirem-se às conversas.

     

    O Brasil participou das cúpulas de 2003, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011, sob o governo Lula. Mas, no encontro mais recente, o país passou de convidado a desafeto do anfitrião. Bolsonaro e o presidente da França, Emmanuel Macron, trocaram declarações públicas ríspidas acerca da responsabilidade do governo brasileiro nas queimadas na Amazônia.

    Coube a Piñera assumir o papel de intermediário. Responsável por um território que sequer está entre os nove países amazônicos, o presidente chileno ficou responsável por negociar, em nome de seus vizinhos, uma linha de financiamento de US$ 20 milhões justamente para a floresta amazônica.

    Depois de deixar Paris, Piñera desembarcou diplomaticamente em Brasília, onde se reuniu com Bolsonaro, desafeto de Macron, assumindo um papel de conciliação entre duas partes cada vez mais distantes entre si.

    Um oásis para eventos

    A cartada de negociador em Biarritz só foi possível porque, antes disso, Piñera havia se disposto a receber em Santiago a cúpula do clima que Bolsonaro, então recém-eleito, tinha se recusado a receber.

    A COP25, como está batizada pelas Nações Unidas, estava programada para acontecer no Brasil em 2019, de acordo com negociações mantidas com o então presidente Michel Temer.

    Logo após a eleição de Bolsonaro, e ainda antes de ele assumir o cargo, tudo mudou. Embalado por um discurso que mistura austeridade, contenção de custos e combate à pauta ambientalista, Bolsonaro cancelou a realização da COP25 no Brasil.

    Os organizadores de um encontro internacional dessa magnitude se ressentiram da mudança súbita. E foi nessa hora que Piñera apresentou-se como o diplomata da região. Santiago foi então escolhida como sede do principal encontro sobre aquecimento global, marcado para ocorrer de 2 a 13 de dezembro. Mas, aí, vieram os protestos.

    Como tudo mudou de rumo

    No dia 6 de outubro, o governo chileno anunciou um aumento de 3,75% no preço da passagem do metrô de Santiago. No dia 7, um grupo de estudantes pulou as catracas de uma estação da capital, e teve início a maior onda de protestos do Chile desde a redemocratização.

    Em 10 dias, o número de detidos nessas evasões no metrô e em outros protestos ligados à causa já passava de cem. Pelo menos cinco estações tinham sido depredadas. Em 19 de outubro, com supermercados saqueados e incendiados, Piñera decretou estado de emergência.

     

    No dia seguinte, 20 de outubro, já com o Exército patrulhando as ruas e com toque de recolher, Piñera radicalizou o discurso e disse que o país estava “em guerra” contra um inimigo interno. A declaração levou ainda mais gente às ruas, e, no dia 25 de outubro, mais de 1 milhão de pessoas tomou o centro da capital – muitas delas pedindo a renúncia do presidente.

    Após pelo menos 19 mortes e centenas de prisões, o governo chileno anunciou na quarta-feira (30) o cancelamento não apenas da COP25, mas também do encontro dos 12 países-membros da Apec (sigla em inglês para Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), que estava programado para os dias 16 e 17 de novembro, na capital.

    “É uma decisão dura, afinal 73% de nossas exportações vão para a Apec. A COP também era fundamental para lutar contra mudanças climáticas. Elas não ocorrerão mais no Chile, mas nosso trabalho para ter uma economia mais aberta será mantido”, disse Piñera, em tom resignado.

    Após os protestos, a popularidade do presidente chileno chegou a seu nível mais baixo – apenas 14% dos chilenos têm uma percepção positiva sobre Piñera. Esse é o nível mais baixo já registrado por um presidente chileno desde a volta à democracia. Quando a onda de protestos começou a embalar, em 18 de outubro, o índice de aprovação a ele era de 29%.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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