A física por trás dos quadros de Jackson Pollock

Pesquisadores do Departamento de Engenharia da Universidade de Brown estudaram a mecânica de fluidos presente nas obras do artista americano

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    Jackson Pollock (1912-1956) foi um pintor americano e um dos principais nomes do expressionismo abstrato, movimento artístico surgido em Nova York na década de 1940, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial.

    Seus quadros eram produzidos a partir do gotejamento de tinta na tela, que ficava disposta em uma superfície horizontal. Pollock molhava o pincel na tinta e, usando seu corpo todo, se movimentava de forma a fazer com que a tinta caísse em cima da tela, como pode ser visto no vídeo abaixo:

     

    Pesquisadores da Universidade Brown, no estado de Rhode Island, decidiram investigar mais profundamente a física envolvida nas pinturas de Pollock.

    Pollock: um físico intencional (ou não)

    O estudo foi publicado em 30 de outubro de 2019. Ele foi feito por pesquisadores do Departamento de Engenharia da Universidade Brown, liderados por Roberto Zenit, doutor em engenharia mecânica e professor na instituição.

    O time quis entender a mecânica física por trás do gotejamento de tinta dos quadros de Pollock. Há, no campo da mecânica dos fluidos, uma instabilidade inerente aos fluidos viscosos que faz com que eles se acumulem e posteriormente se espalhem de forma irregular pela superfície.

    Imagine uma torrada. Se você despejar mel em um ponto dela, vai notar que o fluido vai se empilhando até certo ponto e posteriormente se espalha por toda a superfície do pão. Essa é uma demonstração desse tipo de instabilidade dos fluidos viscosos.

    Mas os quadros de Pollock, apesar de abstratos e de aparentemente aleatórios, não trazem marcas de que a tinta se espalhou pela superfície de um jeito que o artista não queria que se espalhasse.

    Para entender o que está por trás da técnica de Pollock, o time analisou dezenas de vídeos do artista, a fim de perceber como ele fazia os movimentos que despejavam a tinta.

    Posteriormente, os pesquisadores montaram uma estrutura com uma seringa cheia de tinta que era posicionada em diferentes alturas e que se movimentava de um lado para o outro em diferentes velocidades, tentando recriar a técnica que era usada por Pollock.

    O time concluiu que uma combinação da velocidade com a qual a tinta era despejada, da distância de Pollock em relação à tela e da própria viscosidade da tinta resultou nas obras que se tornaram ícones artísticos do século 20.

    “Descobrimos que ele mexia a mão em uma velocidade suficientemente grande, em uma distância suficientemente pequena para que a instabilidade não acontecesse”, afirmou Zenit no comunicado oficial do estudo. Segundo o time, Pollock parecia evitar a instabilidade de forma intencional, porém, eles não conseguiram determinar se o artista tinha consciência dos princípios físicos por trás dessa decisão.

    “É fascinante ver que pintores são especialistas na mecânica de fluidos, mesmo com o fato de que talvez eles não saibam disso”, disse Zenit.

    “Como vários pintores, Jackson Pollock passou por um longo processo de experimentação para aperfeiçoar sua técnica”, disse Zenit. “Queríamos entender a quais conclusões Pollock chegou para executar as pinturas do jeito que queria”, afirmou.

    Segundo o time, o estudo pode ajudar na autenticação de obras de Pollock. A partir dos dados produzidos na pesquisa, analistas podem notar caso uma falsificação apresente gotejamentos instáveis.

    Uma vida breve, mas intensa

    Jackson Pollock nasceu em Comy, no estado de Wyoming, no ano de 1912. O mais novo de cinco filhos, ele se mudou para Nova York em 1930 e estudou na Liga dos Estudantes de Arte de Nova York.

    Na segunda metade da década de 1940, Pollock começou a experimentar com a técnica do gotejamento e logo se tornou um dos artistas mais populares e aclamados dos EUA. Em 1949, a revista americana Life disse que Pollock poderia ser “o maior artista vivo dos Estados Unidos”.

    Pollock morreu aos 44 anos em 1956 em um acidente de carro. O alcoolismo marcou a vida adulta do artista, e na ocasião ele estava dirigindo sob efeito de álcool.

    Quatro meses depois de sua morte, o Museu de Arte Moderna de Nova York, um dos mais importantes do mundo, montou uma exposição focada nas obras de Pollock. Algumas obras do artista foram leiloadas a preços milionários, com uma dela sendo comprada por US$ 34 milhões.

     

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