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Como os fóruns digitais renovam as lendas urbanas

Com potencial de se tornarem virais, creepypastas usam da tecnologia para trazer para a contemporaneidade as histórias assombrosas que circulam há anos

     

    “A loira do banheiro“, “o homem do saco“ e “a mulher de branco“. Essas são algumas lendas urbanas conhecidas no Brasil e espalhadas por todo o país.

    O Dicionário Priberam de Língua Portuguesa define lenda urbana como “história, explicação ou fenômeno ficcional relatado e divulgado como verdadeiro, geralmente por alegadamente ter uma fonte ou origem vagamente relacionada com o relator“.

    As lendas urbanas são uma forma de folclore moderno, diferenciando-se das lendas tradicionais por surgirem dentro de um contexto urbano e terem uma origem relativamente recente.

    De acordo com o historiador americano Ronald M. James, professor de estudos do folclore e da mitologia na Universidade de Iowa, a natureza das lendas urbanas é muito similar ao folclore tradicional porque ambas as narrativas possuem algum tipo de alerta que é transmitido ao receptor das mensagens.

    “Como as histórias de antigamente, o folclore urbano oferece informações que podem salvar vidas. Nos diz quando devemos ser cautelosos“, afirmou James no livro “Introduction to folklore“ (Introdução ao folclore), publicado em 2014.

    O surgimento e o crescimento da internet e de novas formas tecnologias causaram uma renovação das lendas urbanas, criando histórias similares àquelas que eram transmitidas oralmente em um ambiente de comunicação de massa.

     

    Culturas diferentes, lendas semelhantes

    O espírito vingativo de uma jovem que aparece após ser invocada em banheiros. Essa premissa se encaixa na lenda da “Loira do banheiro“ brasileira, da “Bloody Mary“ americana e da “Toire no Hanako“, do Japão.

    As três lendas surgiram em países com culturas diferentes e, apesar de pequenas variações entre si, contam com uma estrutura central muito parecida.

    De acordo com Jéssica Reinaldo, historiadora que pesquisa e escreve sobre diversas manifestações do terror no site Fright Like a Girl, as lendas urbanas que se solidificam no inconsciente popular são aquelas que funcionam em qualquer lugar.

    “Você pega, por exemplo, a “Loira do Banheiro“, “Maria Algodão“ ou “Maria Sangrenta“. É uma lenda urbana que está em vários países, e a única coisa que se precisa é de um banheiro. As regras podem até mudar de lugar para lugar, mas as consequências são as mesmas“, afirmou ao Nexo.

    Segundo um especialista Mikel J. Koven, historiador especialista em folclore e professor na Universidade de Gales, as lendas urbanas evocam os medos de um determinado grupo social, em uma determinada época.

    "Se analisarmos o que está presente em cada história, temos uma ideia de quais são os medos de um determinado grupo dentro da sociedade“, afirmou ao site LiveScience.

    Na Antiguidade, o mar evocava medos nos povos mediterrâneos e, por isso, monstros marítimos faziam parte da mitologia. Nos EUA dos anos 60 e 70, o medo do ocultismo e da deterioração dos valores tradicionais fez com que o cinema da época produzisse filmes como “O exorcista“ e “O bebê de Rosemary“, que colocavam o demônio no meio de famílias de classe média, que levavam uma vida normal até então.

    O campo de estudos da mitologia comparada investiga a presença de histórias e lendas semelhantes em culturas diferentes.

    Um exemplo disso é o fato de que dezenas de sociedades diferentes possuíam um “mito do dilúvio“: para os hebreus, ele acontece na história de Noé e sua arca; para os povos da Mesopotâmia, Atrahasis é o protagonista de uma lenda que conta que o deus Enlil planejava destruir a humanidade com um dilúvio; por sua vez, os finlandeses possuem uma história na qual Väinämöinen, principal herói de seus mitos é ferido em um combate e seu sangue acaba inundando o planeta.

    Existem três hipóteses principais para explicar a presença de mitos semelhantes em culturas diferentes:

    1. Uma raiz genética e cultural em comum entre os dois povos estudados
    2. A difusão de temas e ideias similares por meio das religiões que se espalharam
    3. Condições de desenvolvimento semelhantes entre os povos estudados, que resultaram em questionamentos, indagações e preocupações semelhantes

    No caso das lendas urbanas modernas e contemporâneas, o surgimento de variantes de uma mesma história é facilitada ainda mais pelos meios de comunicação em massa.

     

    As creepypastas, lendas urbanas da internet

    O termo creepypastas designa as lendas urbanas que surgiram especificamente no ambiente da internet. A palavra surge como uma derivação de copypasta, uma gíria online usada para se referir a textos e histórias que foram copiadas por várias pessoas em sites diferentes.

    Essas criações do ambiente virtual surgem normalmente em fóruns como o Reddit e contam com uma variedade de temas, que podem ir desde criaturas, como o Slenderman, um monstro que raptava crianças, até segredos ocultos de desenhos animados populares, como a história que diz que Ash, o protagonista de Pokémon seria uma criança em estado de coma e toda a trama da animação seria uma alucinação de sua mente.

    As creepypastas nem sempre apresentam um aviso ou algum tipo de moral, e, diferentemente das lendas urbanas, costumam se apoiar em fotos, vídeos e áudios criados pelos usuários como uma forma de dar mais verossimilhança às histórias fictícias que estão sendo contadas.

    Tal verossimilhança já trouxe consequências: em 2014, as adolescentes americanas Anissa Weier e Morgan Geyser, à época com 12 anos, esfaquearam Payton Leutner, uma colega de classe, e alegaram que fizeram isso porque o Slenderman supostamente estaria atrás da família de ambas. Sacrificar Leutner seria uma forma de fazer cessar os desejos da criatura.

    Weier e Geyser confessaram o crime e foram condenadas. Geyser foi sentenciada a 40 anos de prisão, enquanto Weier passará 25 anos presa.

    No livro “Creepypasta and contemporary legends on the internet“ (Creepypasta e as lendas contemporâneas na internet), o folclorista Trevor J. Blank, professor da Universidade Estadual de Nova York, afirma que as creepypastas expandem significativamente o entendimento que se tinha do folclore e das lendas urbanas, já que elas costumam abraçar elementos de outras mídias em suas narrativas.

    “É imperativo que folcloristas entendam as influências dos filmes, da TV, das mídias sociais e de outras tecnologias digitais, que continuam a desafiar e expandir as noções longevas que tínhamos nesse campo“, afirmou.

    Esse tipo de história atrai a atenção de centenas de milhares de usuários online. No Reddit, a comunidade “NoSleep“, no qual os usuários relatam acontecimentos inexplicáveis como se fossem reais, conta com 13,5 milhões de seguidores.

    Jéssica Reinaldo avalia que as creepypastas têm tantos entusiastas e leitores assíduos porque, diferentemente de um filme de terror, elas ganham força dentro da subjetividade de quem está lendo.

    Segundo ela, a comunicação massiva também proporcionou o aumento dos entusiastas das creepypastas. “A facilidade dos fóruns online de espalhar histórias facilitou muito para que essas lendas urbanas ainda acabassem indo mais longe. Algumas creepypastas eram menos assustadoras, mas tinham um poder mesmo assim, principalmente no início, quando a internet ainda estava começando a ser presente nos lares“, afirmou a historiadora.

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