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Como a vitória na Umbria revigora a extrema direita na Itália

Três meses após deixar o governo nacional, partido de Matteo Salvini triunfa no centro do país pondo fim a 50 anos de governo de esquerda

     

    Donatella Tesei foi eleita no domingo (27) governadora da região da Umbria, no centro da Itália, com 57% dos votos. Tesei é membro da Liga, partido de extrema direita liderado pelo ex-vice-primeiro-ministro da Itália, Matteo Salvini.

    Essa vitória regional representa a primeira reação da extrema direita italiana desde que a Liga deixou a coalizão que governava o país, em 8 de agosto. À época, a saída de Salvini do governo levantou questões sobre o fôlego dessa corrente política na Itália e na Europa. Agora, a vitória de Tesei traz a resposta, pelo menos em parte.

    A Umbria era governada há 50 anos por políticos de esquerda. O resultado de domingo (27) reverteu essa tradição de meio século na região e mostrou que a Liga mantém-se como uma força eleitoral competitiva.

    O resultado em si

    Tesei é membro da Liga, o partido de Salvini. Ela foi eleita por uma coalizão mais ampla, que inclui o partido de extrema direita Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália) e o partido de direita Forza Italia (Força Itália), ao qual pertence o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que ocupou o cargo três vezes,  em mandatos intercalados entre 1994 e 2001.

    O segundo colocado na eleição regional, Vicenzo Bianconi, ficou quase 20 pontos percentuais atrás de Tesei, com 37,8% dos votos. Ele concorreu por uma coligação encabeçada pelo partido populista 5 Estrelas e pelo PD (Partido Democrático), de centro-esquerda.

    A disputa nacional em escala reduzida

    O pleito na Umbria reproduziu, em escala regional, a disputa que ocorreu em agosto em nível nacional na Itália. Os mesmos partidos estavam envolvidos, divididos nos mesmos campos opostos. A diferença está no certame – Salvini caiu num contexto pós-eleitoral – e no resultado – a extrema direita, que deixou o governo nacional em agosto, sai vitoriosa agora na Umbria.

    Não se trata de comparar integralmente os dois momentos, separados por três meses. A escala é diferente. A Umbria é apenas uma das 20 regiões da Itália, e o governo central do país é muito mais importante do que o governo de uma de suas regiões isoladamente.

    Apesar disso, o resultado foi tratado por Salvini, líder da Liga, como uma demonstração de que seu partido tem todas as condições para reproduzir esse sucesso em toda a Itália. “As eleições são tão assustadoras?”, provocou Salvini no Twitter após a divulgação dos resultados que davam vitória à Liga.

    Qual o poder da extrema direita

    Quando a Liga entrou pela primeira vez no governo nacional, em junho de 2018, o partido tinha o apoio de 17,4% da população da Itália. Ao deixar o governo, 14 meses depois, esse percentual havia crescido para 38%.

    Foi esse salto que levou Salvini a acreditar que poderia desfazer a aliança com o partido populista 5 Estrelas e, numa nova eleição parlamentar nacional, conquistar a maioria dos votos no Parlamento, o que daria a sua legenda o direito de governar sozinha, sem coalizões.

    O plano de Salvini, entretanto, foi frustrado. Os antigos parceiros do 5 Estrelas, ao serem abandonados pela Liga de Salvini, construíram uma nova maioria, desta vez em aliança com o partido tradicional de centro-esquerda PD. É essa nova maioria que governa hoje a Itália, depois de a Liga ter deixado a coalizão.

    O 5 Estrelas e o PD repetiram a coligação nacional na Umbria. Porém, agora o resultado foi negativo.

    A última governadora eleita na região foi Catiuscia Marini, do PD. Ela renunciou ao cargo em abril, em meio a uma investigação sobre fraudes em exames para a contratação de 30 médicos num hospital público da capital regional, Perugia. O fato foi explorado por Salvini, que também criticou as falhas do governo regional em responder às necessidades decorrentes do terremoto que atingiu a Umbria em 2016.

    Assim como a campanha nacional de 2018, esta campanha, na Umbria, também foi centrada na defesa de valores católicos e num discurso contra imigrantes, repetindo uma receita seguida em várias partes do mundo por partidos de extrema direita.

    Para onde vai a onda

    Resultados pontuais, como este, da Umbria, são insuficientes para determinar se a onda da extrema direita está crescendo ou diminuindo no mundo. Houve retrações recentes desse setor na disputa pelas prefeituras de Istambul, na Turquia, e de Budapeste, na Hungria, por exemplo. Porém, há crescimento em eleições locais na Alemanha.

    Um dos maiores estudiosos desse fenômeno no mundo, o escritor e cientista político chileno Cristóbal Rovira Kaltwasser, disse em entrevista ao Nexo em outubro que a onda da extrema direita sofre derrotas pontuais, mas que cresce no curso mais longo do seu desenvolvimento, que vem desde os anos 1980.

    “Se tomarmos o assunto a partir de uma perspectiva de longa temporalidade, voltando ao surgimento desse movimento nos anos 1980, passando pela consolidação dos anos 1990 e pela expansão pós-11 de Setembro, eu diria que essa é uma onda que vem se fortalecendo”, disse Kaltwasser.

    Ele citou exemplos: “Trump é presidente dos EUA. Bolsonaro é presidente do Brasil. Na Áustria, tivemos um governo formado por uma aliança de extrema direita e vamos ver agora o que acontece. A Liga chegou ao poder na Itália”.

    Para Kaltwasser, “há muitos exemplos a demonstrar como essa onda vem crescendo eleitoralmente e, em vários países, chegou até mesmo a controlar o Poder Executivo. Portanto, numa perspectiva de longo prazo, o que estamos testemunhando é o fortalecimento desse ciclo”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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