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A corrida espacial dos bilionários que querem colonizar planetas

O mercado privado de exploração espacial cresceu na última década. Empresários como Elon Musk e Jeff Bezos veem a colonização e a mineração no espaço como próximo passo da humanidade

 

O fundador da Amazon, Jeff Bezos, anunciou em 22 de outubro uma parceria com a Nasa para construir um módulo lunar capaz de levar a primeira mulher e o próximo homem à Lua.

A companhia de Bezos dedicada à exploração espacial, Blue Origin, se juntará a outras três empresas da indústria sob o Programa Artemis, da agência espacial americana, que prevê levar astronautas à Lua em 2024.

Homem mais rico do mundo, com patrimônio líquido avaliado em US$ 114 bilhões, Bezos não é o único bilionário mirando as estrelas. Elon Musk, fundador da Tesla Motors, e Richard Branson, do Virgin Group, também têm projetos próprios para explorar o espaço.

Quem são os bilionários de olho no espaço

JEFF BEZOS

Fundada em 2000, a Blue Origin desenvolve “tecnologias que permitem o acesso humano ao espaço com menor custo e maior confiabilidade”, segundo as redes sociais da empresa. A companhia já desenvolveu um foguete suborbital reutilizável e montou instalações para construção, testes e lançamento de foguetes nos EUA. No Programa Artemis, além do módulo lunar, a Blue Origin contribuirá com o foguete que lançará a espaçonave ao cosmos. Já o seu Projeto Kuiper prevê lançar mais de 3.200 satélites em órbita baixa para oferecer internet a lugares remotos.

ELON MUSK

A SpaceX, empresa fundada em 2002, criou o primeiro foguete de combustível líquido a chegar à órbita da Terra com financiamento privado. Também foi a primeira empresa privada a transportar mantimentos para a Estação Espacial Internacional e a a reutilizar um foguete orbital. Por meio do Projeto Starlink, deseja enviar uma plataforma de satélites para estabelecer um novo sistema de comunicação de internet. A maior ambição de Musk, no entanto, é colonizar outros planetas, como Marte.

RICHARD BRANSON

A Virgin Galactic, fundada em 2004, é o braço aeroespacial do grupo Virgin dedicada ao turismo espacial. Em 2014, um acidente com um foguete deixou um morto e as viagens ficaram paralisadas até 2019, quando a empresa levou três passageiros com sucesso além da fronteira do espaço. Na segunda-feira (28), a companhia fez uma oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) e se tornou a primeira empresa de turismo espacial a negociar ações na bolsa de valores. Em 2017, Branson também fundou a Virgin Orbit, que envia satélites para o espaço.

O mercado espacial no mundo

O mercado de exploração comercial do espaço cresceu nas últimas décadas. Segundo a empresa de investimentos Space Angels, US$ 3,9 bilhões, a maior parte de origem americana, foram investidos em projetos espaciais de empresas privadas em 2017. A consultoria Bryce Space and Technology calculou que startups espaciais receberam US$ 7,6 bilhões entre 2012 e 2016, na comparação com US$ 1,1 bilhão entre 2000 e 2005.

Em parte, a corrida espacial comercial é impulsionada pelo temor americano de que a China alcance a colonização de outros planetas antes dos EUA. Em 2018, o governo de Donald Trump implementou mudanças na legislação para reduzir burocracias e facilitar a exploração comercial do espaço.

A China incentiva desde 2014 que empresas privadas desenvolvam tecnologia de infraestrutura espacial. Desde 2003, quando enviou seu primeiro astronauta ao espaço, o país se tornou o primeiro a pousar no lado oposto da Lua e a desenvolver o maior radiotelescópio do mundo. Em 2018, foi o país que mais enviou satélites ao espaço, com 38 lançamentos. Nos planos futuros, a China planeja conquistar Marte em 2020, enviar sondas para asteroides e planetas como Júpiter e Urano, além de construir uma estação de pesquisa na Lua e outra no espaço para bater de frente com a ISS (Estação Espacial Internacional, na sigla em inglês).

Outros países também entraram na corrida. A agência espacial britânica anunciou em 2018 que vai investir em quatro incubadoras de tecnologia espacial. Já a Arábia Saudita mantém um fundo de investimento público de aproximadamente US$ 1 bilhão para empresas espaciais como a Virgin Galactic.

Recursos e plano B: por que o espaço atrai bilionários

A exploração espacial é vista pelos empresários como uma forma de contribuição à humanidade. Jeff Bezos, da Blue Origin, vê a colonização espacial como uma continuidade da vida na Terra e uma forma de garantir recursos para a sobrevivência do planeta.

“Podemos coletar recursos em asteroides e em objetos que estão perto da Terra”, disse o bilionário durante um evento no Kennedy Space Center em 2017. Ele vê a Lua como o destino mais possível para o ser humano e visualiza a construção de assentamentos permanentes nos polos lunares. “Sabemos coisas da Lua que não conhecíamos nas décadas de 1960 e 70, e com foguetes reutilizáveis podemos aplicá-las de forma acessível.”

Os planos de colonização espacial são em parte motivados pela perspectiva de que a Terra um dia se torne inabitável. Isso aparece na visão apocalíptica do dono da SpaceX, Elon Musk, por exemplo. Ele vê a exploração espacial como rota de fuga para quando uma “nova Idade das Trevas” assolar o mundo. Durante um painel no festival South by Southwest em 2018, ele disse que “se houver uma Terceira Guerra Mundial, precisamos garantir que existam seres humanos suficientes em outro lugar para que a civilização se reconstitua”.

 

Os riscos e as críticas à corrida espacial dos magnatas

Para economistas como a italiana Mariana Mazzucato, professora da Universidade College de Londres, o maior problema de deixar a exploração espacial nas mãos de empresas privadas é que elas estariam usando décadas de investimento público em infraestrutura espacial sem que os lucros com o turismo ou a mineração no espaço retornassem aos cofres públicos.

“Estamos privatizando e comercializando áreas como a Estação Espacial Internacional, mas o ingresso que os cidadãos estão pagando está ficando inteiramente com as empresas privadas envolvidas nessa comercialização”, disse a economista em seu canal no YouTube.

Outras questões mais práticas também são levantadas por especialistas como consequência da corrida espacial comercial.

O que fazer com todo o lixo espacial

Há mais de 500 mil dejetos de lixo espacial na órbita terrestre, parte deles com origem em satélites e restos de foguetes, segundo levantamento da Nasa de 2013. O material é monitorado pela agência espacial, que também apontou 4.000 satélites inutilizados. Eles foram deixados ou impulsionados a uma espécie de “órbita cemitério”.

Só em 2017, foram mais de 400 novos satélites colocados em órbita, número quatro vezes maior que a média anual do período entre os anos 2000 e 2010. São equipamentos de empresas comerciais, departamentos militares e civis, além de satélites amadores.

Se os planos de lançamento de satélites de empresas como a SpaceX e a Blue Origin se concretizarem, o número de satélites colocado em órbita por eles chegará a centenas de milhares e se aproximará do total enviado pela humanidade ao espaço até hoje. Pesquisadores estão estudando maneiras de garantir que o lixo espacial gerado pelo aumento de satélites em órbita seja gerido de forma segura.

A exploração de outros planetas

Parte da colonização espacial pressupõe se aproveitar dos recursos que outros planetas oferecem. Elon Musk, por exemplo, é favorável a detonar ogivas termonucleares sobre os polos de Marte. Segundo ele, isso tornaria possível produzir uma atmosfera suficientemente fina que simulasse a do planeta Terra. Depois, voltou atrás e sugeriu encher Marte de refletores solares que esquentariam e tornariam o planeta habitável.

Já a Lua serviria de parada para reabastecimento antes de uma segunda viagem a Marte. “O homem na Lua vai se tornar um atendente de posto de gasolina”, afirmou o secretário do comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, ao defender a flexibilização da regulação para empresas privadas que querem explorar o espaço. “O plano é quebrar o gelo lunar em hidrogênio e oxigênio e usá-los para queimar o combustível.”

Alterar o ecossistema desses planetas pode ser prejudicial para possíveis formas de vida em desenvolvimento neles, e o contato humano pode causar contaminação com efeitos pouco previsíveis. Em 2018, quando Musk enviou um carro Tesla a bordo de uma aeronave, cientistas descreveram o lançamento como a “maior carga de bactérias terrestres que já entrou no espaço”. Segundo eles, a chegada de humanos para se fixar em planetas como Marte levaria trilhões de micróbios terrestres que poderiam afetar a formação desses ambientes.

A colonização de outros planetas também levanta questões legais, como afirma o presidente do think tank Instituto de Análise e Pesquisa de Políticas de Zurique, Marko Kovic. Para ele, antes da chegada a esses lugares será preciso estabelecer um arcabouço legal para reger os assentamentos. Ele destaca pontos como se o dia a dia das colônias seria regido por leis próprias e qual exatamente seria o envolvimento das nações no processo.

Exclusividade para ricos

Viajar para fora da Terra não será barato. Em 2023, Richard Branson espera levar um grupo ao espaço a cada 32 horas, cobrando US$ 250 mil por lugar. Mais de 600 pessoas já compraram as passagens para os primeiros lançamentos, entre elas artistas como Ashton Kutcher e Tom Hanks. De acordo com o site de turismo espacial Parabolic Arc, a Virgin Galactic estima que suas receitas subam dos US$ 31 milhões, em 2020, para US$ 570 milhões, em 2023, com a realização de cerca de 270 viagens ao ano.

 

O plano de Elon Musk de colonizar Marte vai exigir um investimento estimado de US$ 500 milhões. Se uma “Terceira Guerra Mundial” realmente eclodir na Terra, como espera Musk, é natural que surja o questionamento de quem poderá fazer parte das viagens espaciais a outros planetas – e se elas não se tornariam uma rota de fuga para os super-ricos como Musk.

O americano contra-argumenta destacando os riscos da missão. “Será como o anúncio de Shackleton para exploradores que queriam viajar à Antártida: ‘difícil, perigoso, uma boa chance de você morrer, empolgação para aqueles que sobreviverem’”, disse.

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