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O turismo que mostra as partes difíceis da história das cidades

Guia feito por alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP apresenta São Paulo a partir de seus desafios, traumas e lutas

     

    Conhecer uma cidade apenas por suas belezas, atratividades e monumentos mais tradicionais – como sugerem, em geral, os guias turísticos – proporciona uma visão incompleta da complexidade daquele território.

    Alunos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo), criaram o “Guia dos lugares difíceis de São Paulo”, que propõe uma abordagem alternativa ao turismo pelos lugares mais tradicionais e “fáceis” da cidade.

    Destacando pontos como a vala clandestina de Perus, usada para ocultar corpos das vítimas da repressão política assassinadas pela ditadura militar, e a Cracolândia, área de circulação e moradia de usuários e traficantes de crack, o guia “apresenta o território como um conjunto de problemas em aberto” e “busca escavar a superfície para revelar feridas ou reabrir cicatrizes”, segundo escreve o professor Renato Cymbalista, coordenador do projeto, na apresentação da obra. 

    O foco são espaços que favorecem a reflexão sobre desigualdades, violações de direitos, abusos do Estado, mobilizações e conquistas sociais. O levantamento feito pelos alunos identifica e dá mais visibilidade às marcas deixadas no território por essas tensões sociais e políticas.

    Alguns dos espaços destacados pelo guia e que antes passavam despercebidos devem, em breve, ser sinalizados por placas, como parte de um projeto iniciado em 2019 pelo Departamento do Patrimônio Histórico.

    O livro será lançado no dia 9 de novembro de 2019, na Casa do Povo, em São Paulo.

    Algumas categorias de lugares difíceis colocadas pelo guia

    Segregações

    Locais que “mostram como a cidade foi sempre construída mais para uns do que para outros”. Entre eles, há o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, antigo Hospital de Isolamento, que isolava os portadores de doenças contagiosas, as Penitenciárias Femininas em Santana, que expressa desigualdades de classe, raça e gênero na população e o Portão 1 da USP, que isola o campus da cidade.

    Invisibilidades

    Locais destruídos ou nunca construídos, ocultando histórias que precisam ser lembradas. É o caso dos rios da cidade que foram tampados e canalizados ou do Cine Comodoro, inaugurado com pompa em 1959 na Cinelândia paulista e destruído por um incêndio em 2000.

    Resistências

    Lugares que remetem à luta de grupos que precisaram e ainda precisam “lutar pelo direito de se expressar, de amar, de crer”. Nessa seção, há a Igreja do Rosário da Penha, construída em 1802 por e para fiéis negros. Ela permanece até hoje, ainda que quase todas as igrejas do Rosário dos Homens Pretos tenham sido demolidas no Brasil. É destacado também o Cefam Diadema, primeira escola pública ocupada pelo movimento secundarista em 2015.

    Morte

    Lugares ligados a tragédias sociais ou naturais que tenham deixado vítimas fatais. Constam nessa parte do guia, por exemplo, o Largo da Forca, localizado na atual Praça da Liberdade, local onde em 1821 foi instalada uma forca para executar os condenados à morte, e as Ghost Bikes, bicicletas colocadas em locais da cidade onde ciclistas foram atropelados.

    Moradia

    Espaços relacionados a violações ao direito de moradia, remoções forçadas e lutas sociais por habitação e pelo direito à cidade. Nesse capítulo há o bairro de Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, que simboliza as periferias afastadas produzidas pelo poder público, e as ocupações que ocorrem desde a década de 1990, no centro, por movimentos de moradia.

    Urbanismos difíceis

    Locais onde o investimento e a intervenção do poder público teve efeitos negativos ou mesmo desastrosos. São incluídos nessa categoria o Largo da Batata, área que já foi ocupada por povos indígenas, comércios populares e camelôs – estes últimos foram removidos pela expansão da Faria Lima, novo centro de negócios da cidade. Há ainda o Minhocão, obra de infraestrutura viária inaugurada em 1971 que é considerada uma “cicatriz urbana”.

    A construção dos lugares de memória

    A ideia de lugares difíceis, cunhada pelo projeto, dialoga com o conceito de lugar de memória, que foi formulado pelo historiador Pierre Nora, na década de 1980. Na época, dizia respeito à relação dos cidadãos com a história dos Estados nacionais, em um contexto político global em que nações ameaçavam se desagregar.

    “Para ele, as mensagens de humanismo e laicidade do Estado nacional francês eram narrativas importantes a serem preservadas, com as quais o povo francês estava deixando de ter conexões automáticas”, disse ao Nexo o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Renato Cymbalista.

    Na falta de uma identidade automática dos cidadãos com a história, segundo Nora, restavam os lugares de memória, repositórios históricos dessa narrativa espalhados pelas cidades.

    A ideia do lugar de memória tem sido apropriada de outra forma nas últimas décadas, segundo Cymbalista. “Ela vem sendo reoperada não tanto na afirmação desse Estado nacional da liberdade, da democracia, mas para denunciar lugares onde o próprio Estado violou direitos”, diz.

    Isso ocorreu nos processos de redemocratização de países como Portugal e Espanha, na América Latina e na África do Sul pós-Apartheid. São países, segundo Cymbalista, em que “os Estados nacionais foram forçados ou induzidos a fazer um mea culpa, dizendo ‘é verdade, nós violamos direitos, nós cometemos crimes contra a humanidade, nós torturamos e nós não queremos mais fazer isso’”.

    Nas cidades, foram eleitos lugares importantes para essa reflexão. Mas Cymbalista destaca que esse não foi um trabalho exclusivo do Estado. “Ao contrário, [o Estado] fez isso com muita pressão da opinião pública, de sobreviventes da ditadura, de movimentos sociais, em um processo que ainda é absolutamente incompleto: existem muitos lugares que poderiam ser ocupados com esses significados”.

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