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Quem é a escritora italiana que influenciou Elena Ferrante

Elsa Morante foi uma das autoras mais importantes da Itália no século 20 e ressurge nas livrarias em meio a um interesse renovado pela literatura do pa��s

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    Foto: Wikimedia Commons
    Apesar de sua projeção na Itália, Morante esteve esquecida fora do país até ganhar novas edições recentes
     

    Nos anos que precedem a Segunda Guerra Mundial, um menino vive praticamente sozinho em um casarão decadente na ilha de Prócida, na baía de Nápoles, na Itália. Órfão de mãe, ele não frequenta a escola e passa os dias ao sabor das próprias vontades, perambulando ou lendo na companhia da cachorra Immacolatella. Sua principal atividade, verdadeiramente, é esperar pelo pai, que passa longos períodos viajando, e a quem ele idolatra.

    É esse o cenário apresentado ao leitor de “A Ilha de Arturo”, romance de 1957 da escritora italiana Elsa Morante (1912-1985), que ganhou uma nova edição brasileira em outubro de 2019 pela editora Carambaia.

    “Apesar de nossa abastança, vivíamos como selvagens. Uns dois meses depois que nasci, meu pai partira da ilha para uma ausência de quase seis meses: deixando-me nos braços de nosso primeiro ajudante, que era muito sério para a idade que tinha e que me criou com leite de cabra. Foi o mesmo ajudante que me ensinou a falar, a ler e a escrever; e eu, depois, ao ler os livros que encontrava na casa, eduquei-me. Meu pai nunca se preocupou em fazer com que eu frequentasse a escola: eu sempre estava de férias, e meus dias de vagabundo, sobretudo durante as longas ausências de meu pai, ignoravam qualquer norma ou horário. Somente a fome e o sono marcavam para mim a hora de voltar para casa”

    Elsa Morante

    Trecho de ‘A ilha de Arturo’

    Ao Nexo, a editora-chefe da Carambaia, Graziella Beting, destacou a atualidade do romance, a sensibilidade de Morante ao narrar a infância e adolescência de um menino e o brilhantismo de sua escrita, cujas descrições transportam o leitor a Prócida.

    A recepção fora da Itália e a redescoberta

    Embora tenha tido repercussão tímida fora da Itália, Morante se destacava entre os intelectuais italianos de sua época e foi uma das grandes escritoras do país no século 20.

    No Brasil, seu livro “A história” foi o primeiro a ser traduzido, logo após sua publicação na Itália, na década de 1970. Outros títulos da autora chegaram ao país, incluindo edições anteriores de “A ilha de Arturo", lançadas nos anos 2000. Até muito recentemente, porém, a maioria de seus livros se encontrava fora de catálogo no país. Lançado em 1948, seu primeiro romance, “Menzogna e sortilegio” (Mentira e sortilégio, em tradução livre), é ainda inédito no Brasil.

    O atual ressurgimento da autora não é estritamente brasileiro – ocorre há alguns anos nos Estados Unidos, onde obras e uma biografia da escritora foram publicadas nos anos 2000. Na esteira do sucesso da contemporânea Elena Ferrante, os EUA também ganharam em 2019  uma nova edição de “A ilha de Arturo” em inglês. Além de Morante, outras autoras, como sua contemporânea Natalia Ginzburg, também vem sendo recentemente redescobertas.

    Ferrante, que oculta sua identidade com o pseudônimo, se tornou um fenômeno literário mundial com a publicação de sua “Tetralogia napolitana”, série de quatro romances que narra a vida de duas amigas a partir do período do pós-guerra na Itália. Seu primeiro volume, “A amiga genial”, foi publicado na Itália em 2011.

    O que liga as autoras não é somente a nacionalidade, a língua ou um repertório cultural comum proveniente dessa origem. A obra de Ferrante, sobretudo a tetralogia, está repleta de referências a Morante, de quem a cultuada escritora é admiradora confessa. Especula-se que mesmo o pseudônimo de Ferrante, que possui ressonância com o da outra autora, tenha sido uma homenagem.

    Quem foi Morante

    Elsa Morante nasceu em Roma, em 1912, e começou a escrever ainda na juventude, quando publicou textos em suplementos infantis de jornais italianos de grande circulação. Saiu de casa aos 18 anos, e pouco depois já era capaz de se sustentar com essas publicações em jornais e revistas.

    Seu primeiro livro foi uma antologia de contos lançada em 1941. Nesse mesmo ano, Morante se casou com o escritor Alberto Moravia (1907-1990). Por terem ascendência judaica, ambos precisaram se esconder por quase um ano em uma região montanhosa do sul da Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, viveram em uma pequena cabana até o fim do conflito. Anterior a essa fuga, diz uma anedota lendária que Morante quase despejou uma panela de óleo fervente pela janela de seu apartamento em Roma no dia em que Hitler e Mussolini desfilariam de carro conversível pelas ruas da capital.

    Morante e Moravia ocuparam na intelectualidade italiana de meados do século 20 um lugar comparável ao de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre na França. A escritora era amiga da escritora e editora Natalia Ginzburg, do cineasta e poeta Pier Paolo Pasolini, do filósofo Giorgio Agamben e do romancista Italo Calvino, entre outros.

    A obra de Morante divergiu do neorrealismo que era predominante na literatura e no cinema da época. “Em vez de dar destaque às estruturas objetivas da realidade, Morante cria uma narrativa muito mais próxima ao mundo dos mitos e das fábulas”, afirma o professor de língua e literatura italiana na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Davi Pessoa, em seu posfácio à edição da Carambaia de “A ilha de Arturo”. 

    A autora foi reconhecida pelas principais premiações da literatura italiana: ganhou o Prêmio Viareggio com “Mentira e sortilégio”, seu primeiro romance, em 1948, e o Prêmio Strega em 1957 por “A ilha de Arturo”.

    Em 1974, publicou “A história”, considerado o auge de sua produção literária. O extenso romance é ambientado durante a Segunda Guerra Mundial e narra a história de uma jovem professora que vive em Roma e é estuprada por um soldado alemão. Ele morre pouco depois e ela dá a luz a um filho, fruto da violência sexual que sofreu. O livro foi um sucesso na Itália: vendeu 800 mil cópias em um ano. Mas desagradou parte da esquerda italiana, que o considerou excessivamente pessimista.

    Em 1982, Morante publicou seu último romance “Aracoeli”. Já reclusa, tentou o suicídio em 1983 e morreu em 1985 de um ataque cardíaco.

    As relações entre Morante e Ferrante

    “Quando era muito jovem, eu almejava escrever exibindo um pulso viril. Eu achava que todos os escritores de alto nível eram do sexo masculino e que, portanto, era necessário escrever como um homem de verdade. Em seguida, comecei a ler com muita atenção a literatura das mulheres e abracei a tese de que cada pequeno fragmento em que fosse reconhecível uma especificidade literária feminina devia ser estudado e usado. No entanto, faz algum tempo que me livrei de preocupações teóricas e leituras e passei a escrever sem me perguntar mais o que eu deveria ser: masculino, feminino, de gênero neutro. (...) Tenho uma lista razoável e os chamo de livros de encorajamento: ‘Adele’, de Federigo Tozzi; ‘Dalla parte di lei’, de Alba de Céspedes; ‘Lettera all'editore’, de Gianna Manzini; 'Menzogna e sortilegio' e 'A ilha de Arturo', de Elsa Morante”

    Elena Ferrante

    Em entrevista publicada no jornal L’Unità em 2002

    Em cartas e entrevistas, Elena Ferrante já fez diversas menções à obra de Elsa Morante como referência central para seu próprio trabalho.

    “Falemos agora de Elsa Morante. Não a conheci, nunca fui capaz de conhecer as pessoas que me causavam emoções muito intensas. Se isso tivesse acontecido, eu teria ficado paralisada, me tornaria tão tola a ponto de não conseguir estabelecer um contato que tivesse qualquer densidade. O senhor me questiona sobre filiação, uma pergunta que me lisonjeia tanto que, francamente, eu seria capaz até de mentira para consolidar sua hipótese”

    Elena Ferrante

    Em carta de 1995 ao crítico Goffredo Fofi, não enviada e posteriormente publicada no livro ‘Frantumaglia - os caminhos de uma escritora’

    Ao Nexo o professor da Universidade de São Paulo e tradutor da “Tetralogia napolitana” para o português, Maurício Santana Dias, apontou alguns paralelos possíveis entre as duas autoras:

    • Tomando especificamente “A ilha de Arturo”, de Morante, e o segundo volume da tetralogia de Ferrante, “A história do novo sobrenome”, as tramas são ambientadas em lugares geograficamente muito próximos. A ilha de Ischia, onde as personagens Lenù e Lila vivenciam experiências marcantes de sua juventude, é vizinha a Prócida, terra natal de Arturo
    • O encantamento da infância, colocada praticamente em um plano mítico pelas autoras, é fundamental em sua literatura, assim como a dissolução desse mundo mágico à medida em que se entra na idade adulta
    • Um substrato comum ligado à literatura épica e às fábulas: ambas têm um gosto pela mescla entre narrativas arcaicas e as experiências modernas e contemporâneas

    “O fato de termos uma autora com a projeção da Ferrante dá uma perspectiva mais favorável à afirmação de uma literatura escrita por mulheres. Uma série de outras escritoras italianas importantes vão sendo revisitadas, relidas e vão abrindo caminho para as novas escritoras da geração atual”, afirmou Santana Dias.

    Em 1992, o livro “Um amor incômodo”, de Ferrante, foi agraciado com o prêmio Procida - Isola di Arturo - Elsa Morante. Ela escreveu a sua editora se dizendo “muito agitada”, menos pelo prêmio em si do que pelo fato de carregar o nome de Morante. Como de praxe, Ferrante não compareceu à entrega, mas enviou por intermédio de sua editora uma carta, por meio da qual quis homenagear Morante.

    “Caro presidente, caros jurados, De Elsa Morante, cujos livros tanto amo, tenho muitas palavras em mente”

    Elena Ferrante

    Em carta lida durante a cerimônia de premiação

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