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O que está na pauta da viagem de Bolsonaro à China

Presidente e aliados criticaram o país asiático durante a campanha e primeiros meses de governo. Postura mudou, e os dois países tentam se aproximar comercialmente

 

Depois de visitar o Japão para assistir à entronização do imperador Naruhito, Jair Bolsonaro chegou à China na manhã desta quinta-feira (24). A visita do presidente ao país asiático tem como objetivo ampliar as relações comerciais entre as duas nações.

Em reunião com empresários da indústria chinesa no mesmo dia, Bolsonaro anunciou que vai isentar chineses do visto para entrar no Brasil em viagens de turismo e negócios. A princípio, a China não fará o mesmo para brasileiros que viajam ao país. Presidentes de empresas como o grupo de e-commerce Alibaba e a empresa de soja HeRun Group estavam presentes no encontro, organizado pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), Paulo Skaf.

Na passagem pela China, Bolsonaro também vai se encontrar com Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista, Li Keqiang, primeiro-ministro chinês, e Li Zhanshu, presidente da Assembleia Nacional Popular.

Nas reuniões, o presidente brasileiro vai tratar de possíveis investimentos em estatais que serão privatizadas, como a Eletrobras, os Correios e setores da Petrobras. Temas como investimento em agronegócio, infraestrutura e inovação também serão discutidos.

Bolsonaro afastou a possibilidade de discutir temas relacionados ao 5G durante a viagem. A Huawei, gigante chinesa de telecomunicações, é um dos principais players globais dessa tecnologia, até 20 vezes mais rápida e estável do que as conexões atuais no Brasil. Ela tem sido tratada como ponto importante na geopolítica global, um dos eixos centrais da guerra comercial entre EUA e China.

No Brasil, a licitação para a implantação desse serviço deverá ocorrer em 2020. Bolsonaro, no entanto, declarou que a pauta “não está no radar”.

Há também uma aproximação entre as duas nações no campo cultural. O ministro Osmar Terra se reuniu com autoridades chinesas para a criação de dois serviços de streaming. Um deles conteria apenas produções dos países do Brics (Brasil, Índia, China, África do Sul e Rússia) e outro traria apenas produções chinesas e brasileiras, visando a atrair capital chinês para o cinema brasileiro.

A comitiva que acompanha Bolsonaro conta com a presença de Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores; Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil; Tereza Cristina, ministra da Agricultura; Osmar Terra, ministro da Cidadania; Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia; e Augusto Heleno Ribeiro, do Gabinete de Segurança Institucional. 

Além de Japão e China, a viagem oficial do presidente pela Ásia tem como destino o Oriente Médio, onde ele visitará Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita.

Mudança de tom

No momento em que desembarcou na China, Bolsonaro afirmou estar “em um país capitalista”. A fala do presidente representa uma mudança de tom em relação ao que ele e figuras do seu entorno disseram durante a campanha eleitoral e nos primeiros meses do governo.

Em 2018, Bolsonaro afirmou que as relações comerciais do Brasil com o país asiático seriam uma demonstração de que a China não estaria “comprando no Brasil, e sim comprando o Brasil” e que, caso eleito, ele não poderia permitir isso.

O presidente também disse, quando era candidato, que daria “um pé no traseiro do socialismo, do comunismo” e que não permitiria que tais ideologias se aproximassem do Brasil. No começo de outubro, a China comemorou os 70 anos da revolução comunista de 1949, liderada por Mao Tsé-Tung.

Em janeiro de 2019, no primeiro mês do governo Bolsonaro, parlamentares do PSL, partido do presidente, foram à China para conhecer uma tecnologia de reconhecimento facial da Huawei, com a intenção de trazer o sistema para iniciativas de segurança pública no Brasil.

A viagem gerou críticas por pessoas próximas a Bolsonaro. A mais vocal partiu do escritor Olavo de Carvalho, figura influente no governo. O autor chamou os membros da comitiva de “semianalfabetos” que estariam “fazendo uma loucura”, afirmando que a instalação da tecnologia “entregaria dados de todos os brasileiros ao governo chinês”.

Após as críticas, o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), que participou da comitiva e foi um atuante representante da bancada bolsonarista na crise interna do PSL, gravou um vídeo tentando blindar os deputados dos ataques ao afirmar que a China teria um governo socialista, um regime “mais light” do que países como Venezuela e Coreia do Norte.

Em março, no terceiro mês do governo Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo afirmou que “não venderia a alma” para exportar soja e minério de ferro para a China. “Querem reduzir nossa política externa simplesmente a uma questão comercial, isso não vai acontecer”, disse, durante um discurso.

Em setembro, Araújo disse, ao confirmar a atual viagem, que, além de trazer investimentos para o país, o governo tinha interesse em trazer mais turistas chineses ao Brasil, tendo a emissão mais rápida de vistos como uma estratégia para concretizar isso.

No começo do governo, o vice-presidente Hamilton Mourão foi protagonista na relação entre os dois países. Ele visitou a China em maio, um mês depois de ter dito à Folha de S.Paulo que o país asiático não deveria ser encarado como ameaça, e sim como parceiro estratégico.

A postura ativa de Mourão nas relações exteriores do país foi um dos pontos de divergência entre o presidente e seu vice nos primeiros meses após a posse, com atritos que envolveram figuras como Carlos Bolsonaro, vereador e filho do presidente, e o deputado Marco Feliciano (Pode-SP).

O Brasil aos olhos da China

Há uma década, a China se mantém como o principal parceiro comercial do Brasil. Três dias após o segundo turno das eleições, o jornal China Daily, que serve como uma espécie de porta-voz do governo chinês, publicou um editorial no qual reforçava a ideia de que as relações entre Brasil e China contribuíram para o crescimento de ambas as nações e que um impacto econômico forte seria sentido se Bolsonaro decidisse se afastar do país asiático.

Apesar do texto, a China também mudou o tom em relação ao Brasil. Em março de 2019, Bolsonaro se reuniu com Yang Wanming, embaixador da China no Brasil. Na ocasião, o presidente sinalizou que queria se aproximar do país asiático, e Wanming afirmou que o encontro tinha sido satisfatório e produtivo.

Em agosto, durante o auge da crise das queimadas na Amazônia, a China se posicionou ao lado do governo Bolsonaro. Na ocasião, Qu Yuhui, ministro-conselheiro da China, afirmou que acreditava que parte da crise tinha sido fabricada por críticos do atual presidente e disse que o Brasil é consistente e rigoroso em suas políticas de preservação ambiental.

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