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O áudio de Queiroz sobre indicações para o Congresso

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro no Rio apareceu conversando sobre cargos em Brasília. O ‘Nexo’ falou com dois cientistas políticos sobre os possíveis efeitos para o senador

     

    Uma mensagem de áudio revelada pelo jornal O Globo na quinta-feira (24) mostra o ex-assessor legislativo de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), Fabrício Queiroz, falando sobre indicações de cargos no Congresso Nacional para um interlocutor desconhecido.

    “Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara e no Senado. Pode indicar para qualquer comissão, alguma coisa, sem vincular a eles [Bolsonaros] em nada. Vinte continho pra gente caía bem”

    Fabrício Queiroz

    Ex-policial e ex-assessor legislativo de Flávio Bolsonaro

     

    O diálogo ocorrido em junho revela o capital político de Queiroz junto a congressistas. Segundo o jornal do Rio, não há registros de contato direto com o senador Flávio, mas de uma articulação com integrantes do PSL.

    Flávio Bolsonaro gravou um vídeo nas redes sociais em que afirma que não tem contato com Queiroz há quase um ano e que a última notícia que teve dele foi pela imprensa, sobre o tratamento de um câncer em São Paulo.

    Para o parlamentar, o áudio deixa claro que ele não tem qualquer acesso a seu gabinete. “Tanto é que ele está ali fazendo uma reclamação de que não tem acesso a nenhum cargo, a nenhum tipo de espaço”, afirmou.  As mesmas informações foram dadas ao jornal O Globo pelo advogado do senador, Frederick Wassef, que defendeu que o áudio fosse submetido a uma perícia da Polícia Federal para garantir sua autenticidade.

    Na China, o presidente Jair Bolsonaro, que não tinha ouvido o áudio, ameaçou encerrar a entrevista com jornalistas ao ser questionado sobre o assunto. “O Queiroz cuida da vida dele e eu cuido da minha”, disse.

    A defesa de Queiroz disse ao Globo, por meio de nota, que é natural que o ex-assessor tenha capital político e que a indicação de eventuais assessores não configura qualquer ato criminoso.

    Quem é Fabrício Queiroz

    Próximo à família Bolsonaro desde os anos 1980, Queiroz é policial militar aposentado e trabalhou no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, entre 2007 e outubro de 2018, como motorista e coordenador da segurança do então deputado.

    Desde meados de 2018, ele e quase uma centena de pessoas, entre deputados estaduais e funcionários de gabinete, são alvos de procedimentos que apuram a existência de um esquema de contratação irregular de servidores na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

    A principal suspeita é a prática conhecida como “rachadinha”: o deputado paga o funcionário do gabinete, mas pega de volta parte do salário. Queiroz é suspeito de fazer o recolhimento dos salários do gabinete de Flávio, que foi deputado estadual entre 2003 e 2018.

    Por indicação de Queiroz, o então deputado teria empregado em seu gabinete a mãe e a esposa do ex-capitão da Polícia Militar Adriano da Nóbrega, suspeito de chefiar uma milícia na região de Rio das Pedras, zona oeste do Rio.

    A investigação sobre movimentações suspeitas

    O conteúdo revelado pelo jornal O Globo na quinta-feira (24) não tem relação com a investigação sobre movimentações atípicas na conta do ex-assessor, que chegaram a R$ 1,2 milhão no período de janeiro de 2016 a janeiro de 2017, segundo relatório do antigo Coaf (Conselho de Controle Atividades Financeiras). Revelado em dezembro de 2018 pelo jornal O Estado de S. Paulo, o caso tornou Queiroz conhecido nacionalmente.

    Naquele mês, Queiroz não compareceu ao Ministério Público do Rio para prestar depoimento alegando questões de saúde. Em uma entrevista ao SBT, ele disse que o dinheiro movimentado era de negócios de compra e revenda de carros.

    Ao se manifestar por escrito ao Ministério Público, em março, Queiroz disse que, além dos negócios, gerenciava os salários recebidos pelas filhas e esposa, que também era funcionária do gabinete de Flávio e fazia “gerenciamento financeiro” dos salários dos demais funcionários do gabinete. Esse dinheiro era usado para ampliar a rede de colaboradores eleitorais do parlamentar, prática que chamou de “desconcentração de remuneração”.

    Em abril, Flávio, Queiroz e outras 84 pessoas de nove empresas relacionadas ao senador tiveram a quebra dos sigilos fiscal e bancário autorizados pela Justiça, por ver indícios de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. No documento em que faz o pedido das quebras de sigilo, o Ministério Público argumentou que identificou nos esclarecimentos prestados por Queiroz a tentativa de assumir toda a culpa por eventuais desvios do esquema.

    Em julho, o presidente e ministro do Supremo, Dias Toffoli, determinou a suspensão de todas as investigações e processos em curso no Brasil que tenham como base informações sigilosas coletadas por órgãos de controle sem autorização judicial prévia. Em novembro, os ministros do STF devem julgar o uso desses dados.

    O senador sempre negou irregularidades e afirmou que as investigações contra ele eram uma forma de atingir o governo do pai.

    Os cargos no Congresso e a influência dos Bolsonaro

    Na Câmara e no Senado, os cargos são divididos em:

    • Cargos efetivos - ocupados por meio de Concurso Público
    • Cargos comissionados - ocupados por indicação dos parlamentares

    De acordo com um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) têm direito a nomear 113 pessoas no Congresso Nacional.

    As funções exercidas pelos Bolsonaro

    Flávio Bolsonaro

    É o terceiro secretário do Senado e tem gabinetes em Brasília e Rio de Janeiro. Preenche 29 cargos, com salários de R$27 mil a R$ 2 mil

    Eduardo Bolsonaro

    Presidente da Comissão de Relações Exteriores desde março, tem 84 funcionários, dos quais 15 recebem acima de R$ 20 mil. Ao assumir a liderança do PSL na Câmara, passou a ter o direito de preencher mais 71 cargos, mas manteve os funcionários indicados pelo deputado Delegado Waldir (PSL-GO), antigo líder

    Para entender o papel de Flávio Bolsonaro para o governo e o impacto do áudio de Queiroz, o Nexo conversou com dois especialistas:

    • Paulo Baía - Cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro
    • Adriano Oliveira - Cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco

    Qual é a importância de Flávio Bolsonaro hoje para o governo?

    Paulo Baía O Flávio Bolsonaro tem uma posição muito importante. Ele é um senador diretamente ligado à Presidência da República e aquilo que o Flávio Bolsonaro faz reflete diretamente na imagem de Bolsonaro, assim como Carlos e Eduardo.

    O Flávio Bolsonaro tem tido um papel importante na articulação política para teses do governo no Senado Federal. É bom interlocutor com o presidente de casa, Davi Alcolumbre. Tem se revelado um bom articulador e na reforma da Previdência ele foi muito atuante. Ele se torna uma peça importante para a eficiência do governo em sua relação como parlamento.

    Adriano Oliveira  O primeiro aspecto é que o Flávio é filho do Bolsonaro. O segundo é de que, segundo informações informais, dos três filhos ele é o que tem mais capacidade de fazer articulação política e avaliação de conjuntura.

    Isso é bom para o governo Bolsonaro no sentido de que se ele tem sabedoria política, ele pode se contrapor ao pai ou convencê-lo. Pode se contrapor ou convencer os dois irmãos, que são extremamente ideológicos e, consequentemente, trazer mais pragmatismo para a agenda do governo, para as relações políticas e diplomáticas do governo e para enfraquecer consideravelmente a pauta ideológica. Porque é isso que tem atrapalhado o governo, que se afasta da racionalidade e do pragmatismo.

    Quais podem ser os efeitos do áudio sobre a relação entre Flávio e o governo?

    Paulo Baía  O áudio vem reforçar algo desde o surgimento dessa notícia da rachadinha e mostra, de maneira assustadora, que a proposta da rachadinha sairia da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para o Congresso Nacional, para a Câmara dos Deputados e para o Senado. Pode ser que seja uma fanfarronice do Queiroz, mas ele administrava essa rachadinha no Rio e a proposta do áudio é fazer a mesma coisa em Brasília.

    Adriano Oliveira  Será que o Ministério Público vai ter interesse em conduzir uma investigação sobre isso? Se for investigar, será que vão aparecer mais provas? Esse é o ponto mais importante, porque você pode ter a possibilidade de outros alvos aparecerem e alvos mais diretos, comprometendo o próprio Flávio.

    Desde a primeiro escândalo do Queiroz, o Flávio mergulhou [saiu de cena] para se afastar de qualquer tipo de ação investigatória e da própria ação da mídia. Acredito que ele vai continuar mergulhado, porque quando um político aparece com muito foco de poder ele atrai o contra-poder do Estado, que é ação do Ministério Público e da Polícia Federal. Mas eles têm interesse em investigar Flávio Bolsonaro? Por que o Ministério Público não insiste no depoimento do Fabrício de Queiroz?

    Se fosse um deputado falando de cargos, é legítimo, porque ele está negociando em prol do governo, mas uma pessoa que é estranha ao governo, aparentemente, por que ela oferece cargos e ainda fala da possibilidade de ganhar um bom salário? No áudio ele sugere que tem influência não só junto ao Flávio Bolsonaro, mas junto a própria bancada fluminense.

     

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