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Como uma rua construída por Pôncio Pilatos foi descoberta

Novo estudo de arqueólogos da Universidade de Tel Aviv traz revelações sobre a autoria da construção de cerca de 2.000 anos em Jerusalém

     

    O arqueólogo britânico Charles Warren encontrou, em 1884, indícios de uma grande rua que se estendia do Reservatório de Siloé até o Monte do Templo, em Jerusalém. Escavações na região, pouco tempo depois, acharam uma via totalmente revestida de pedra no local, com cerca de 600 metros de comprimento e 8 metros de largura.

    Já no século 20, a rua começou a ser escavada. As maiores porções das ruínas foram encontradas nas décadas de 60 e 80. Durante todo esse período, o consenso entre os arqueólogos foi de que a rua havia sido construída na época do reinado de Herodes, o Grande, entre os anos 37 a.C. e 4 d.C, antes da presença romana na região.

    Novas pesquisas, publicadas em outubro de 2019, revelaram que a origem da rua está, na verdade, ligada a Pôncio Pilatos, governador romano que comandou a província da Judeia entre 26 e 36 d.C. e que é citado na Bíblia como responsável pela condenação de Jesus. 

    As novas descobertas

    As novas descobertas foram feitas por arqueólogos da Universidade de Tel Aviv, em Israel.

    Os pesquisadores realizavam escavações na rua, hoje parcialmente subterrânea, desde 2013, e analisaram primariamente moedas encontradas ao longo dos 220 metros estudados. Ao todo, cerca de 100 moedas foram achadas.

    A análise desses objetos concluiu que eles datavam de 17 a 31 d.C., o que engloba principalmente o período em que Pilatos ficou no poder. “Estimar datas usando moedas é uma ciência exata”, afirmou o arqueólogo Donald T. Ariel em comunicado oficial.

    Segundo o estudo, este também foi o período de construção da rua. Os anos coincidem com o período em que, na religião cristã, Jesus teria curado a cegueira de um homem pedindo que ele se banhasse nas águas do Reservatório de Siloé.

    Além de estimar o período em que a rua foi construída, os arqueólogos encontraram indícios de que pelo menos 10 mil toneladas de calcário foram necessárias para se pavimentar a via.

    Com as escavações, os arqueólogos elaboraram a hipótese de que a rua era usada como uma rota de peregrinação, já que ligava o Reservatório de Siloé ao Monte do Templo, dois importantes pontos do judaísmo, religião mais adotada na região antes da ascensão do cristianismo.

    Por que a rua foi construída

    Os arqueólogos levantaram algumas hipóteses para explicar por que a rua foi construída.

    Uma delas supõe que a rua tenha sido encomendada por Pilatos porque ele desejava fazer algo grandioso durante seu período como governador da Judeia.

    Os pesquisadores apontam que Pilatos, conhecido por seu estilo duro de liderança, poderia querer encaixar Jerusalém de maneira gloriosa na sociedade ocidental, copiando ideias para construções grandiosas do Império Romano.

    Outra possibilidade sugere que a rua foi construída para que Pilatos fosse bem visto pela população judaica em uma época na qual a presença romana na região já criava tensões.

    Os pesquisadores afirmam que há lastro histórico para as três afirmações e que é provável que um misto desses fatores tenha influenciado a decisão de se construir a via. “Não é mais possível se referir à Rua Pavimentada como uma rua herodiana. E não é mais possível ver esse primeiro período da governança direta de Roma na Judeia como sendo exclusivamente um período marcado por interesses pessoais e corrupção”, conclui o artigo.

    Quem foi Pôncio Pilatos

    Não há registros de quando Pôncio Pilatos nasceu, e poucas são as fontes que falam sobre seu reinado. As principais são os quatro evangelhos incluídos na Bíblia cristã.

    O relato mais icônico acerca de Pilatos acontece no Evangelho de Mateus na Bíblia Cristã, quando é relatado que o governador romano teria sido o responsável por condenar Jesus à crucificação.

    Pilatos foi o quinto governador da província da Judeia, título que lhe foi dado pelo imperador Tibério. Nas escrituras cristãs do Ocidente, Pilates costuma ser retratado de forma vilanizada, principalmente pela condenação de Jesus. Já em textos do Império Bizantino, o político é retratado de maneira positiva, com alguns afirmando que ele teria se tornado um mártir cristão após a crucificação.

    Segundo historiadores, Pilatos tinha um relacionamento tenso com o povo judaico. Pesquisas apontam que o governador romano manteve uma grande disputa com Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande, e rei das regiões da Galileia e da Pereia.

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