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Como 3 personagens explicam a relação de Bolsonaro com o PSL

As diferentes reações do presidente com relação a Gustavo Bebianno, Marcelo Álvaro Antônio e Luciano Bivar em meio à crise atual no partido

     

    O presidente Jair Bolsonaro vive uma guerra aberta no PSL, partido pequeno que ganhou projeção às suas custas nas eleições de 2018. A relação do presidente com a legenda nunca foi orgânica. Depois de passar por sete partidos, o então deputado federal buscou uma casa para disputar a presidência. Negociou com várias siglas e acabou naquela que ofereceu as melhores condições. Abaixo, o Nexo destaca três personagens que resumem a relação de Bolsonaro com o PSL e ajudam a explicar a crise atual.

    Bebianno: o presidente tampão defenestrado

    A aproximação de Gustavo Bebianno com Bolsonaro aconteceu em 2017. Admirador do então deputado, Bebianno se ofereceu para trabalhar de forma voluntária na campanha eleitoral, prestando auxílio jurídico, e aos poucos se tornou um dos principais articuladores na consolidação dos planos presidenciais de Bolsonaro. A filiação do político ao PSL, em março de 2018, é atribuída ao advogado.

    Um dos requisitos para que o futuro presidente entrasse na sigla foi o controle da máquina partidária. Por meio de um acordo com Luciano Bivar, Gustavo Bebianno assumiu interinamente a legenda durante o período eleitoral. O advogado passou a desempenhar papel central na campanha de Bolsonaro e com o tempo passou a negociar as candidaturas do PSL nos estados, tanto para a Câmara e Senado quanto para Assembleias Legislativas.

    Após a eleição, Bebianno assumiu a Secretaria-Geral da Presidência, um cargo próximo do Palácio do Planalto. Embates com Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador do Rio de Janeiro, comprometeram o relacionamento com o presidente. Bebianno e Carlos começaram a se desentender no fim de 2018, por questões relacionadas à estratégia de comunicação. A briga foi apontada como a razão para o filho de Bolsonaro deixar a equipe de transição do governo.

     

    Em fevereiro, uma série de reportagens publicada pelo jornal Folha de S.Paulo levantou a suspeita sobre o uso de candidaturas laranjas pelo PSL. As publicações mostraram que um grupo de candidatas mulheres do partido havia recebido uma quantia significativa do Fundo Eleitoral, incoerentes com seu desempenho irrisório nas urnas. A revelação levantou suspeitas de fraude.

    Bebianno passou a ser cobrado por ter assinado os repasses dessas verbas, já que era o presidente do partido na ocasião. Para negar a crise, o ministro declarou ter resolvido a situação numa conversa com Bolsonaro, mas foi chamado de mentiroso por Carlos no Twitter. A mensagem foi compartilhada pelo presidente no dia 13 de fevereiro. Bebianno foi demitido cinco dias depois e tornou-se a primeira baixa do governo. Um dia após a demissão, áudios entre Bebianno e Bolsonaro foram revelados pela revista Veja. 

    O advogado deixou o posto dizendo ter sido tratado injustamente. Ele comparou sua situação à reação diferente dispensada por Bolsonaro ao ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, também citado no caso dos laranjas e investigado por fraude eleitoral e mantido no cargo. Álvaro Antônio era o presidente do PSL em Minas Gerais durante a campanha.

    Em agosto, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Bebianno chamou Bolsonaro de autoritário e seus filhos de mimados, acusando-os de atrapalhar o governo.

    Álvaro Antônio: o ministro bancado por Bolsonaro

    Diferentemente de Bebianno, o ministro do Turismo, Álvaro Antônio, foi mantido no cargo por Bolsonaro. Além de dirigir o diretório do PSL em Minas Gerais, ele também foi candidato a deputado federal e foi eleito com o maior número de votos no estado.

    Na primeira reportagem sobre o esquema, empresas de pessoas vinculadas a Álvaro Antônio apareciam como destinatárias de dinheiro desviado do fundo eleitoral. Os recursos seriam parte do valor repassado a quatro candidatas do partido em Minas.

    No dia 4 de outubro, o Ministério Público de Minas Gerais denunciou o ministro por três crimes: associação criminosa, falsidade ideológica eleitoral (caixa dois) e apropriação indébita de recursos eleitorais. Outras dez pessoas, entre assessores e ex-assessores de Álvaro Antônio, também foram denunciadas.

     

    Outra reportagem do jornal Folha de S.Paulo, publicada dois dias depois da denúncia, revelou que um assessor do ministro declarou à Polícia Federal que “achava” que parte do dinheiro do esquema teria sido usada para pagar material de campanha de Bolsonaro.

    O jornal citou uma planilha apreendida na investigação, que corre em sigilo. O material sugere repasses à campanha presidencial que configurariam a prática de caixa dois, movimentação de dinheiro eleitoral sem declaração à Justiça. Bolsonaro disse que o jornal desceu “às profundezas do esgoto” e afastou a hipótese de demitir o ministro pelas suspeitas.

    Licenciado do diretório mineiro, Álvaro Antônio prestou depoimento em uma audiência pública numa comissão do Senado na terça-feira (22) em que voltou a negar todas as acusações. Dos senadores que se manifestaram durante a audiência, a maioria foi solidária ao ministro e criticou a política de cotas eleitorais para mulheres.

    “Se houve irregularidades ou não, não tenho condições de falar antes da decisão da Justiça. Erros evidentes, não [vi]. A mim, pelo menos naquilo que me aprofundei, não reconheço nenhum erro [na campanha em Minas]”

    Marcelo Álvaro Antônio

    ministro do Turismo, em depoimento no Senado na terça-feira (22)

    No embate travado entre apoiadores de Bolsonaro e apoiadores de Luciano Bivar no PSL, o ex-líder da bancada do partido na Câmara, deputado Delegado Waldir, disse também na terça-feira (22) que o ministro será afastado definitivamente do diretório mineiro.

    Bivar: o antagonista pelo controle da máquina

    Desde que conseguiu sua oficialização, em 1998, o PSL é dirigido por Luciano Bivar. Empresário pernambucano, ele também foi o primeiro deputado federal eleito pela sigla e está no terceiro mandato na Câmara.

    Para atrair Bolsonaro para o partido, o dirigente prometeu ao deputado liberdade para negociações e para compor diretórios durante a campanha eleitoral. Com o capitão reformado, o partido disputou pela segunda vez as eleições presidenciais. A primeira foi em 2006, quando o próprio Bivar foi candidato, obtendo 0,06% (62.064) dos votos.

    Após as eleições de 2018, em meio a uma onda bolsonarista no país, o partido passou de três deputados federais para a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, saindo das urnas com 52 deputados, além de quatro senadores. Com isso, a parcela de recursos do fundo partidário, destinado à manutenção das siglas, e do fundo eleitoral, destinado a despesas de campanha, cresceram de forma significativa.

    Passadas as eleições, Bivar retomou o controle do partido e o núcleo de Bolsonaro passou a reivindicar apoio interno. Dois dos filhos do presidente, o senador Flávio (RJ) e o deputado Eduardo (SP), assumiram o controle dos diretórios do partido no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente.

     

    Bivar também foi atingido pelas denúncias sobre candidaturas laranjas publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo em fevereiro. Uma das reportagens aponta que o grupo do presidente da sigla estava associado a laranjas em Pernambuco, reduto do parlamentar. Bivar chegou a atribuir a responsabilidade pelo caso a Bebianno, mas depois mudou a versão dizendo que a atribuição era do diretório. Ele afirmou que as candidaturas não eram de fachada.

    Em junho, após o jornal paulista publicar que Bivar prestou contas de campanha à Câmara e ao Tribunal Superior Eleitoral por meio de notas fiscais emitidas por empresas suspeitas de fabricar esse tipo de documento, aliados de Bolsonaro começaram a articular uma forma de tirar o deputado do comando do partido, sob a alegação que ele prejudicava a imagem do presidente. 

    Com a volta das denúncias sobre candidaturas laranjas ao noticiário em outubro, e depois de Bolsonaro ter sido gravado num vídeo dizendo que Bivar estava “queimado pra caramba”, uma nova crise foi deflagrada.

    O presidente chegou a admitir que considera mudar de sigla, mas após, um embate travado entre os dois núcleos do partido por cargos da liderança no Congresso, adotou um tom ponderado. Disse que a situação da legenda, assim como uma ferida, vai cicatrizar naturalmente.

    Na terça-feira (22), o PSL pleiteou a suspensão de 19 deputados que apoiam Bolsonaro, mas os parlamentares conseguiram uma decisão provisória da Justiça do Distrito Federal para barrar o processo.

    Bivar não confirmou se irá de fato afastar os filhos de Bolsonaro dos diretórios estaduais, como acordado durante convenção extraordinária do partido, no dia 18 de outubro. Outra convenção para definir o novo presidente da sigla está prevista para novembro.

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