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Por que os lucros dos bancos são tão altos no Brasil

Juntas, as principais instituições financeiras comerciais do país lucraram mais de R$ 20 bilhões no segundo trimestre de 2019

     

     

     

    Os quatro principais bancos comerciais do Brasil tiveram lucro combinado de R$ 20,4 bilhões no segundo trimestre de 2019, segundo estudo da empresa de informações financeiras Economatica. Foram considerados Bradesco, Banco do Brasil, Itaú Unibanco e Santander.

     

    O resultado é o maior lucro consolidado registrado desde o início da série histórica, em 2006. O crescimento em relação ao segundo trimestre de 2018 é de 21,3%.

     

    EM ALTA

     

     

     

    No segundo trimestre de 2019, os bancos registraram, individualmente, avanços consideráveis em seus lucros. O Itaú Unibanco, banco que responde por cerca de um terço (aproximadamente R$ 7 bilhões) do total dos lucros do grupo, teve crescimento de 10,2% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior – o menor entre os quatro considerados. O maior aumento ficou por conta do Banco do Brasil, cujos lucros foram elevados em 34,2% em relação ao segundo trimestre de 2018.

     

     

    TAXA DE CRESCIMENTO DO LUCRO

     

     

    O desempenho dos bancos no Brasil tem sido expressivo diante do ritmo lento da economia brasileira no mesmo período.

     

    21,3%

    foi o crescimento do lucro dos quatro maiores bancos no Brasil no segundo semestre de 2019 em relação ao mesmo trimestre de 2018

     

    1%

    foi o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no segundo semestre de 2019 em relação ao mesmo trimestre de 2018

     

     

    Mercado concentrado

     

    Uma das características do sistema bancário brasileiro é a concentração da maior parte dos depósitos, operações de créditos e ativos em poucos bancos – ou seja, poucas empresas dominam os valores que entram, saem e ficam nos bancos. Dados do Banco Central mostram que os cinco maiores bancos comerciais brasileiros dominam mais de 80% do mercado.

     

    ALTA CONCENTRAÇÃO

    Participação dos cinco maiores bancos comerciais em: ativos totais, depósitos totais e operações de crédito. Acima de 80% em todas as categorias.
     

     

    A concentração bancária não é uma exclusividade do Brasil. Países como Canadá, Austrália e França são alguns lugares onde os cinco maiores bancos concentram em torno de 80% do mercado.

     

    O Brasil se destaca, porém, por ter observado um aumento significativo na concentração bancária nos últimos anos.

     

     

    O alto spread bancário

     

    O spread bancário é a diferença entre o que os bancos pagam para captar dinheiro e o que eles cobram para emprestá-lo ao cliente. O spread das instituições brasileiras é alto em relação a outros países.

     

    O spread bancário brasileiro em 2018 foi o segundo maior do mundo, atrás apenas de Madagascar e à frente do terceiro colocado, República Democrática do Congo, por uma margem considerável.

     

    DIFERENÇA ALTA

    Os cinco maiores spreads bancários do mundo em 2018, em pontos percentuais. Em primeiro, Madagascar, com 42,6. Em segundo, Brasil com 32,2. Em terceiro, República Democrática do Congo com 19,9. Em quarto, Gâmbia com 19. Em quinto, Quirguistão com 17,1.
     

     

    Da virada de 2016 para 2017 até o final de 2019, o spread brasileiro teve uma redução considerável, caindo da faixa de 40 pontos percentuais para pouco acima dos 30 pontos. Apesar da redução, o patamar ainda é alto.

     

    EVOLUÇÃO DESDE 2011

     

     

    Três análises sobre o lucro dos bancos

    O Nexo conversou com três economistas sobre os altos lucros dos bancos no Brasil e a estrutura do sistema bancário brasileiro.

     

    • Fabio Gallo Garcia, professor da FGV EAESP
    • Fernanda Rodrigues, economista da Lafis Consultoria
    • Bujana Perolli, especialista sênior para o setor financeiro do Banco Mundial

     

    Que características do sistema financeiro brasileiro permitem que bancos alcancem lucros tão altos? De que forma a regulação restringe ou libera a atuação dos bancos?

    Fabio Gallo Garcia Podemos destacar, entre alguns motivos que podem ser admitidos como causadores da atual situação, a concentração bancária e os spreads bancários elevados.

     

    Além disso, como consta em estudo do Banco Central, o grande volume de fusões bancárias, entre 2005 e 2007, afetaram os municípios que tinham ao menos uma agência de cada banco que foi adquirido. Houve aumento de custo e redução do volume de crédito. Nesses municípios o volume de crédito ficou entre 2% a 14% menor , ao passo que os spreads subiram 1,2 pontos percentuais em um ano e 5,1 pontos em cinco anos.

     

    Por fim, atualmente, cerca de 85% do crédito é concedido por somente cinco bancos – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Santander e Caixa Econômica Federal.

     

    Fernanda Rodrigues Há uma elevada concentração no sistema bancário nacional, ainda que representantes do setor não considerem essa concentração maior do que em economias mais desenvolvidas. Apesar de alta, essa concentração ainda permite uma atuação competitiva dos bancos no país. O setor é caracterizado também por uma elevada capilaridade e a presença em diversos canais (físicos e digitais), o que permite ampliar o acesso aos consumidores refletindo em ganhos de escala e favorecendo o desempenho do setor.

     

    Ao impor altos custos operacionais, que dependam de mudanças na legislação e decisões judiciais, o Sistema Financeiro Nacional acaba restringindo a atuação dos bancos no país. Dentre esses custos estão a insegurança jurídica das operações eletrônicas, por exemplo, e os processos trabalhistas. Além disso, o setor também encontra limitação na restrição de acesso a informações mais detalhadas e importantes para o gerenciamento de risco, como renda, faturamento, e empregos disponíveis em bancos de dados públicos.

     

    Por outro lado, os órgãos regulatórios do setor movimentam-se para proporcionar um funcionamento mais eficiente do Sistema Financeiro Nacional, tendo a aprovação do cadastro positivo como seu exemplo mais atual. Neste caso, a redução na assimetria de informações ampliará a cobertura de crédito para a população economicamente ativa ao viabilizar uma maior taxa na aprovação de crédito.

     

    Bujana Perolli A pergunta insinua que há evidências de que os spreads altos no Brasil são impulsionados por lucros. Baseada em uma análise de margens de juros líquidas [net interest margins, em inglês], a extensão em que a lucratividade contribui para a receita líquida de juros [net interest income, em inglês] não é forte no Brasil. Por exemplo, ela é particularmente forte em países como Malásia, Argentina, Turquia e Peru. A análise indica que, após impostos, os lucros de bancos brasileiros ficam abaixo de outras comparações.

     

    Dito isso, se compararmos o setor bancário no Brasil com outras indústrias no país e outros países emergentes, vemos que a lucratividade da indústria bancária brasileira está alguns pontos percentuais acima de outras indústrias. Além disso, por conta da alta integração vertical de bancos brasileiros com outras empresas, suas lucratividades podem não estar completamente refletidas nas finanças apenas bancárias, já que parte dos lucros pode se acumular em outras firmas do mesmo grupo.

     

    Por fim, a estrutura do setor bancário brasileiro é de fato concentrada; mas concentração não é um indicativo de falta de competição.

     

    Por que o spread bancário é tão alto no Brasil?

    Fabio Gallo Garcia O Brasil está em segundo lugar no mundo em termos de spread bancário elevado. Os bancos alegam que os spreads bancários são altos por conta da inadimplência, tributos, depósito compulsório, custos burocráticos, legislação que protege o devedor, etc.

     

    Segundo dados do Banco Mundial, no Brasil, de cada R$1,00 emprestado, apenas R$0,13 são recuperados. A média mundial é de R$0,34 em cada R$1,00.

     

    Embora sejam argumentos fortes, temos que considerar que o depósito bancário tem sido reduzido e os custos de operação têm sido diminuídos, entre outras ações que o Banco Central tem tomado para tentar reduzir o spread bancário.

     

    Fernanda Rodrigues Porque o nível de inadimplência no país é alto, representando mais de um terço do spread bancário. De acordo com o último Relatório de Economia Bancária do Banco Central, a inadimplência representou, na média entre os anos de 2016 e 2018, 37,2% do spread do Indicador de Custo de Crédito (ICC).

     

    Somado a isso, tem-se o baixo nível de recuperação de crédito no Brasil e os custos regulatórios e operacionais do setor, justificando a manutenção dos juros bancários no país em um patamar elevado em relação ao resto do mundo, ainda que diante da redução da taxa básica de juros da economia. Dentre as taxas mais altas estão os juros do cheque especial e do cartão de crédito rotativo, ambas na modalidade para pessoa física. Também contribui para este cenário a assimetria de informações no Sistema Financeiro Nacional, o que dificulta um melhor gerenciamento de risco.

     

    Bujana Perolli O Brasil é, de fato um ponto fora curva no cenário internacional, com spreads muito altos de cerca de 30%. Ademais, margens de juros líquidas [net interest margins, em inglês] de bancos brasileiros, que são as receitas líquidas de juros divididas pelos ativos, são maiores do que em muitos países semelhantes [peers]. Uma análise do Banco Mundial indica que custos indiretos e o provisionamento de perdas com empréstimos no setor bancário são os mais importantes componentes das margens de juros líquidas no Brasil.

     

    Spreads altos, altas margens de juros líquidas e um setor financeiro concentrado levantam a questão sobre se a concorrência é adequada para apoiar resultados eficientes. Esses indicadores, por si só, não dão uma resposta.

     

    As razões para spreads altos são múltiplas, incluindo, entre outras coisas, o impacto de intervenções de crédito direcionado em spreads do mercado livre, e algumas deficiências na infraestrutura financeira que aumentam os riscos para o setor bancário, como o sistema de relatório de crédito, estrutura de insolvência e execução de garantias.

     

    O crescimento de instituições financeiras digitais – as chamadas fintechs – poderá impactar o lucro dos principais bancos brasileiros?

     

    Fabio Gallo Garcia As fintechs irão ajudar no processo, mas a agenda de transformação do segmento terá que ser mais ampla para termos melhores condições de crédito. O Banco Central lançou em maio passado a Agenda BC, que busca aliar inovação tecnológica a reformas microeconômicas, suportada em quatro dimensões: inclusão, competitividade, transparência e educação financeira.

     

    Além dessas ações do Banco Central, teremos que alterar legislação, diminuir burocracia, estimular cada vez mais o uso da tecnologia, provocar a redução da concentração bancária. Tudo isso juntamente com as reformas do Estado brasileiro. O país precisa ser destravado para que todas essas ações tragam resultados e nós possamos voltar a crescer.

     

    Fernanda Rodrigues Sim, mas não de forma a ameaçar sua posição de líderes de mercado no curto prazo. Apesar disso, fica claro que a ascensão das fintechs acendeu um sinal de alerta para os bancos tradicionais, tendo em vista o crescimento no volume de pleitos recebidos e em análise pelo Banco Central para a abertura de novos bancos digitais no país. Há também o crescente interesse de clientes e investidores em fintechs, devido a suas estruturas menos onerosas e à capacidade de incorporar novas tecnologias.

     

    Nesse sentido, observa-se uma movimentação dos bancos tradicionais para adaptar sua estrutura física ao processo de digitalização das operações, com o fechamento de agências e programas de demissão voluntária, direcionando recursos para o desenvolvimento interno de tecnologias e serviços que sejam competitivos frente aos oferecidos pelas fintechs.

     

    Bujana Perolli A indústria fintech pode utilizar a tecnologia para elevar a concorrência no mercado. Novos canais de distribuição, conduzidos por tecnologia móvel, devem derrubar barreiras de entrada criadas por agências bancárias, assim como contribuir para reduzir os altos custos de operação dos bancos.

     

    Diante de competição, os bancos também devem investir em produtos similares e plataformas digitais.

     

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