Ir direto ao conteúdo

De Delegado Waldir a Eduardo Bolsonaro: a virada na liderança do PSL

Embate entre bolsonaristas e apoiadores de Luciano Bivar tem novo capítulo em meio a manobras e xingamentos. O ‘Nexo’ traz duas análises sobre a relevância da disputa aberta no partido do presidente

     

    A disputa no PSL entre apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro, e apoiadores do presidente nacional do partido, Luciano Bivar, ganhou uma nova reviravolta na segunda-feira (21). O deputado Delegado Waldir (GO), aliado de Bivar, deixou a liderança da legenda na Câmara, posto que passou a ser ocupado pelo terceiro filho de Bolsonaro, Eduardo (SP).

    Em viagem à Ásia, o presidente da República, chamado de “vagabundo” dias antes por Delegado Waldir, admitiu o bate-boca “exacerbado” no partido, mas negou que exista uma crise política. “As coisas acontecem. É igual uma ferida, cicatriza naturalmente”, afirmou Bolsonaro, no Japão. Os deputados bivaristas, porém, se dizem traídos e estão mobilizados para retomar o cargo de liderança da Câmara.

    Os movimentos anteriores

    A disputa iniciada na quarta-feira (16) em torno da liderança do PSL teve áudios vazados - incluindo uma fala do presidente da República -, além de manobras e xingamentos.

    Bolsonaro estava atuando diretamente para emplacar seu filho Eduardo como líder do PSL. Após ver inicialmente seu plano frustrado, retirou a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) do posto de líder do governo no Congresso. Ela tinha assinado a lista favorável à manutenção de Delegado Waldir como líder do partido na Camara. Hasselmann foi substituída pelo senador Eduardo Gomes (MDB-TO).

    Na sexta-feira (17), durante a convenção extraordinária do partido, a direção do PSL anunciou a suspensão de cinco deputados da ala bolsonarista e confirmou a troca do comando dos diretórios do partido em São Paulo e no Rio de Janeiro, que eram comandados até então por Eduardo e pelo senador Flávio Bolsonaro, primogênito do presidente. A deputada Bia Kicis (PSL-DF), da ala bolsonarista, também foi retirada da presidência da sigla no Distrito Federal.

    O contexto da disputa

    O embate na sigla se intensificou no início de outubro, após Bolsonaro sinalizar descontentamento com o partido e com Bivar, em meio às suspeita do uso de candidaturas laranjas em diretórios de Minas Gerais e Pernambuco durante as eleições de 2018.

    Partido pequeno até então, o PSL ampliou sua presença no Congresso e se tornou a segunda maior bancada da Câmara na onda de extrema direita liderada por Bolsonaro em 2018. Como consequência, a legenda ampliou sua parcela de recursos dos fundos partidário e eleitoral

    O interesse público da disputa em análise

    A guerra aberta do PSL chama atenção pela virulência de ataques entre as alas. Um dos filhos de Bolsonaro, o vereador Carlos, por exemplo, vem trocando xingamentos no Twitter com Joice Hasselmann. Para além dos palavrões, o Nexo ouviu duas cientistas políticas sobre o interesse público dessa disputa.

     

    ‘Disputa vai afetar tanto o comportamento do parlamento quanto as eleições de 2020’

    Lara Mesquita

    cientista política e pesquisadora do Cepesp da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

    “A disputa que está acontecendo no partido vai influenciar a disputa eleitoral de 2020. Luciano Bivar, à frente do partido, tenta tirar o controle dos filhos do presidente dos diretórios de São Paulo e do Rio. Essa mudança influencia diretamente a escolha dos candidatos nas eleições municipais. Por outro lado, há interesse do público porque a decisão de quem é o líder do partido na Câmara influencia a forma como o governo vai atuar. Um líder partidário tem uma série de prerrogativas, como indicar os membros que vão participar das comissões, indicação de voto, negociação da pauta com outros líderes partidários junto ao presidente da Câmara. É do nosso interesse porque vai afetar tanto o comportamento do parlamento quanto as opções de candidatos que esse partido vai nos oferecer nas eleições do ano que vem.

    Conhecer a vida interna dos partidos é algo importante para o funcionamento da democracia não só no caso do PSL, mas de qualquer partido. Normalmente a gente se interessa mais sobre a vida partidária dos partidos pelos quais você tem mais simpatia, mais interesse ou está mais propenso a votar.

    No Brasil há uma parcela pequena da população que declara ter simpatia por algum partido, e talvez isso indique que a população brasileira acompanha pouco o funcionamento interno dos partidos e sobretudo como os partidos são financiados. Por se tratar de recursos públicos,  é ainda mais importante a transparência da situação partidária, mas também a fiscalização ativa da sociedade civil.

    Essa disputa joga luz a essa questão do quanto a sociedade tem interesse e acompanha a atividade partidária e quanto os partidos se organizam de forma transparente e não como uma caixa preta. A gente pode dizer que há uma melhora recente em relação a isso, porque agora a prestação de contas dos partidos é feita no sistema eletrônico e eles ficam disponíveis no site da Justiça Eleitoral. Mas ainda é muito difícil trabalhar com esses dados, porque a Justiça Eleitoral não fornece resumos ou ferramentas de visualização.

    A transparência e uma atuação ativa da sociedade civil, no sentido de acompanhar e fiscalizar o que os partidos fazem, também é importante. É essa consciência de que a democracia não pressupõe só você ir às urnas e escolher um candidato, mas é mais do que isso.”

     

    ‘Presidente e seu grupo têm noção de partidos como máquinas de interesses privados’

    Rachel Meneguello

    Professora de ciência política da Unicamp (Universidade de Campinas)

     

    “Embora pareça que essa disputa interna do PSL seja apenas uma “briga de grupos”, ela tem causas e consequências que afetam o interesse mais amplo da nação. Primeiro, as causas. Há um movimento pela expansão do poder familiar do presidente da República. O controle das seções do partido no Rio de Janeiro e em São Paulo, a disputa pela liderança na Câmara, a destituição dos líderes estabelecidos mostra que o presidente e seu grupo de seguidores têm uma noção de partidos como máquinas políticas de interesses privados, que podem se sobrepor ao assento das lideranças do partido quando desejam.

    Há décadas partidos não funcionam dessa forma, nem em outros países, nem aqui. Compare com PT e PSDB, que assumiram o governo federal nas gestões anteriores, e possuíam estrutura, organização interna, uma dinâmica de composição de forças internas representativa dos grupos e interesses presentes no partido, além obviamente de uma trajetória e história de consistência que passam a uma distância estelar do PSL. O retrocesso aqui é histórico, poderíamos procurar na Primeira República algum parâmetro de comparação. Ou antes, até. Uma das maiores democracias constituídas a duras penas não pode retroceder a interesses de um poder familiar e patrimonialista, sem limites entre o público e o privado.

    A disputa por recursos públicos partidários começa agora a afetar mais seriamente a acomodação dos grupos no partido. O PSL nunca se aproximou de uma cifra de recursos como essa a que tem direito como grande bancada. Foi apenas quando as urnas foram abertas em 2018 que esses recursos políticos foram colocados à sua frente. Um partido sem estrutura, sem história, sem noção de articulação interna, sem lealdades constituídas, fica a mercê da disputa interna, pois recursos do fundo partidário implicam, sobretudo, na incorporação de pessoal e na utilização para a campanha eleitoral que, nas eleições do próximo ano, verão a possibilidade de expansão do partido no nível local. O fundo partidário significa o financiamento da democracia representativa pelo estado. O interesse público começa aqui.

    Agora, sobre as consequências. O governo não sabe o que é governar em uma democracia partidária, não entende a necessidade do Legislativo, não incorpora a ideia de que a gestão pública precisa da relação harmônica entre Executivo e Legislativo. Se a bancada do PSL cindir por conta da atual disputa, a dificuldade de governar será grande. Vejo com dificuldade que a legislação atual mostre uma saída legal para que os parlamentares seguidores de Bolsonaro formem outra legenda sem perder o mandato. Assim, se o governo quiser manter um patamar mínimo de facilidade para governar vai se esforçar para encontrar um rearranjo de forças internas no partido; ainda há pouco mais de 3 anos de mandato pela frente, e o governo não tem bases nem competência para organizar outro tipo de coalizão de interesses para realizar o governo. O interesse público está nesse ponto, as potenciais dificuldades aumentadas do governo  para governar. A população já está afetada pelas dificuldades presentes, será afetada ainda mais.

    As consequências para o funcionamento da democracia partidária brasileira não são poucas, mas cabe ainda falar do comprometimento do voto do eleitor, que construiu a significativa bancada do PSL no Congresso e que terá sua vontade certamente afetada. A legitimidade do nosso sistema democrático está sendo constantemente colocada em risco. A disputa interna do PSL não é só uma briga de alguns, esse é o partido do presidente.”

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!