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Como o terror desponta na produção de cinema nacional

Filmes do gênero têm saído das margens e alcançado público mais amplo no país. O ‘Nexo’ falou com uma professora e um crítico sobre o atual momento do horror no Brasil

    Temas

    Três filmes brasileiros de terror chegaram às salas de cinema quase simultaneamente, em outubro de 2019. São eles “Morto não fala”, dirigido por Dennison Ramalho, “A noite amarela”, de Ramon Porto Mota e “O clube dos canibais”, de Guto Parente.

    O primeiro é ambientado entre a periferia de São Paulo e um necrotério, onde o protagonista mora e trabalha, respectivamente. Ele tem a habilidade de falar com os cadáveres e enfrenta problemas quando usa em causa própria revelações feitas pelos mortos. Já “A noite amarela” é um suspense centrado num grupo de adolescentes que chegam a uma ilha para comemorar o fim do ensino médio, mas são recebidos por estranhos fenômenos. Por último, o filme de Guto Parente trata de um casal da elite brasileira que participa do clube do título e tem como hobby matar e comer a carne de seus funcionários.

    Embora a coincidência das três estreias de horror seja um fenômeno quase inédito, as produções não são exceções no cenário nacional. Outros lançamentos do gênero ainda estão por vir em 2019, como o do filme “O Juízo”, de Andrucha Waddington, previsto para dezembro.

    “Nunca se viu tanto terror sendo produzido no Brasil, com tantos nomes famosos e orçamentos tão polpudos”, anunciava em 2018 uma reportagem publicada pelo portal Uol.

    Como o gênero chega ao público

    Ainda assim, o acesso aos lançamentos nacionais do gênero ainda não alcança o grande público, como acontece com o cinema brasileiro de forma geral, disse ao Nexo Laura Cánepa, professora do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi.

    Via de regra, os filmes ainda estreiam em poucas salas e não ficam muito tempo em cartaz. Mas têm sido exibidos em festivais nacionais e internacionais, tanto nos de nicho quanto nos que não se pautam por uma temática específica. É uma mudança com relação aos filmes brasileiros de terror lançados a partir da década de 1960, como os de José Mojica Marins – o Zé do Caixão – que eram voltados para o mercado interno.

    Cánepa aponta que, antes dessa tríade de lançamentos em outubro de 2019, um número significativo de filmes nacionais de horror já vinha chegando aos cinemas, numa média de pelo menos cinco ao ano.

    Tanto ela quanto o crítico de cinema Marcelo Miranda atribuem a projeção alcançada pelas produções recentes à emergência de uma geração de cineastas brasileiros influenciados pelo cinema internacional de horror das décadas de 1970 a 1990, acessível pela TV e locadoras. Marco Dutra, Juliana Rojas, Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão, Ramon Porto Mota, Dennison Ramalho, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles são apontados como alguns dos nomes que têm impulsionado o cinema nacional de horror.

    “Eu diria que principalmente desde 2011, com ‘Trabalhar Cansa’, de Marco Dutra e Juliana Rojas, um circuito mais amplo, tanto comercial quanto de festivais, tem se deparado mais frequentemente com uma produção brasileira com elementos sobrenaturais ou de horror”, disse Miranda, que é criador do podcast especializado em cinema de horror Saco de Ossos, ao Nexo.

    No cinema brasileiro contemporâneo, Cánepa destaca que nem sempre o gênero é “puro”. Muitos filmes não são anunciados como filmes de terror, mas apresentam referências e temas ligados a ele.

    Ela chama atenção ao fato de haver muitas cineastas mulheres importantes atuando nesse cenário. Além das diretoras já citadas há outras, como Anita Rocha da Silveira e Marina Meliande. “Isso também é um fenômeno mundial. À medida que mais mulheres entram no mercado [de cinema] como diretoras, aparecem mais filmes de horror dirigidos por elas. Isso é notório, internacionalmente há um interesse maior do público e da crítica por observar esses filmes feitos por mulheres, é uma característica que o Brasil acompanha com relação ao resto do mundo”, disse.

    O que une os 3 filmes

    Para o crítico de cinema Marcelo Miranda, os longas ilustram, cada um à sua maneira, um mal-estar e desconforto que acometem o país. “São filmes que perturbam, que atiçam, que furam as certezas. São incômodos e enigmáticos, todos eles sem muitas frestas por onde respirar”, disse ao Nexo.

    Ao mesmo tempo, segundo o crítico, eles traduzem um certo entorpecimento diante do que pode vir adiante.

    Miranda chama atenção para o fato de que todos terminam com personagens de alguma maneira resignados, “sem saber para onde serão conduzidos por essa máquina de moer que sempre foi o Brasil”.

    “Todo bom cinema de horror tem como particularidade uma relação muito forte com o imaginário de seu tempo e de seu espaço (geográfico e afetivo). Ele nunca será só um filme de horror pra ‘assustar’, e sim uma forma de expressão que, vinculada a códigos desse gênero, vai necessariamente falar do entorno”

    Marcelo Miranda

    Crítico de cinema

    As alegorias da conjuntura política e social não são exclusividade do horror feito no Brasil. Produções do gênero de diferentes épocas e países, de “O bebê de Rosemary” (1968) ao sul-coreano “O hospedeiro” (2007), fazem comentários a respeito de seu tempo.

    “O Brasil tem suas próprias questões estruturais e de imaginário, então é natural que os nossos filmes de horror reflitam esse contexto, afinal nascem dele. Isso se configura em ritmos, escolhas estéticas, imaginários monstruosos bem distintos ao dos cinemas de outros países”, disse.

    O presente e a história do gênero no Brasil

    O primeiro filme brasileiro de horror é de 1964: “À meia-noite levarei sua alma”, de José Mojica Marins. Embora tenha se tornado a maior referência do terror nacional no imaginário popular, o cinema brasileiro nunca deixou de ter filmes do gênero desde então.

    A produção alcançou um ápice numérico e de rentabilidade nos anos 1970, em meio à indústria da “Boca do Lixo” paulistana. São dessa época filmes como “O Anjo da Noite” (1974), de Walter Hugo Khouri, e “Excitação” (1977), dirigido por Jean Garret.

    Tanto os filmes do Zé do Caixão quanto os da “Boca” conseguiram números expressivos de bilheteria, não raro acima de 500 mil espectadores, e se pagaram com a venda de ingressos, segundo destaca a professora Laura Cánepa.

    Marcelo Miranda afirma que o cinema brasileiro de horror costumava circular à margem e, nos anos 90 e começo dos anos 2000, estava restrito a eventos segmentados. “Na última década, parece que algo mudou”, disse o crítico.

    Ainda assim, questões culturais e de recepção ainda fazem com que o tamanho da produção, orçamento e recursos técnicos dos filmes de horror brasileiros sejam incomparáveis em relação a países como Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos, mercados em que o gênero é particularmente forte.

    Para Miranda, o interesse por fazer cinema de horror no Brasil é permanente e tem ficado mais visível nos últimos anos. “Prefiro não tratar esse lançamento triplo como algum tipo de fenômeno, e sim como uma circunstância muito bem-vinda. Se em algum momento o cinema de horror for naturalizado como também um cinema possível na produção brasileira, não nos parecerá surpreendente que dois, três ou quatro filmes sejam lançados em pequenos intervalos de tempo”, disse.

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