Por que o Facebook virou alvo da esquerda e da direita nos EUA

Fundador da rede social, Mark Zuckerberg tem se esforçado para agradar conservadores, em um momento em que a empresa recebe críticas de todos os lados da política

     

    Segundo uma reportagem do site americano Politico, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg realizou uma série de encontros com figuras do meio político conservador americano nos últimos meses. Desde abril de 2019, o empresário teria feito conferências com jornalistas, comentaristas e pelo menos um parlamentar do partido Republicano.

    De acordo com o Politico, as conversas teriam girado em torno de temas como liberdade de expressão, métodos de checagem de fatos, privacidade e a maneira como conservadores são tratados na rede social.

    Ainda segundo a reportagem, o propósito dos encontros seria cultivar as relações da empresa com a direita americana. Assim como as outras grandes corporações do Vale do Silício, o Facebook é amplamente criticado por conservadores por ter um suposto viés de esquerda. O próprio presidente Donald Trump faz coro às acusações, alegando que a rede social, ao lado do Google e do Twitter, tem um “viés terrível”.

    Para Trump, as empresas de internet vêm sufocando a liberdade de expressão de seus apoiadores. Em julho de 2019, durante uma “Cúpula de Redes Sociais” promovida pela Casa Branca, Trump disse que órgãos federais deveriam explorar “todas as soluções regulatórias e legislativas para a proteção da liberdade de expressão”.

    De acordo com um pesquisador de cibersegurança e ex-funcionário do governo no Vale do Silício ouvido pelo Politico, Zuckerberg teme retaliação do governo Trump por meio de uma investigação da procuradoria-geral.

    As críticas ao Facebook se acumulam ao longo dos anos. Elas vão da incapacidade de controlar notícias falsas e conteúdo de ódio a casos de mau uso da plataforma que a empresa tentou esconder

    "A discussão no Vale do Silício é que Zuckerberg está muito preocupado com o departamento de Justiça, sob o comando do [procurador-geral] Bill Barr, instaurando uma ação de fiscalização para desmembrar a empresa”, afirmou. Segundo a fonte, há uma impressão de que o fundador do Facebook esteja ficando leniente com propaganda conservadora na rede social como parte de um esforço para agradar Trump.

    Em junho, em uma entrevista ao canal Fox News, Trump comentou que o governo deveria “processar” o Google e o Facebook. Sem especificar o motivo, ele reclamou que as empresas que controlam as redes sociais estão na mão de apoiadores do Partido Democrata.

    Um levantamento do New York Times listou 11 processos em andamento contra o Facebook, entre ações anunciadas, em andamento e encerradas. Os autores são instâncias diversas a nível federal e estadual, que vão da procuradoria-geral do estado de Nova York à Securities and Exchange Commission (o equivalente americano da Comissão de Valores Mobiliários)

    Em julho de 2019, por exemplo, a Federal Trade Commission (equivalente no Brasil ao Cade, ou Conselho Administrativo de Defesa Econômica) determinou que a empresa deveria melhorar o controle e a transparência no uso de dados de indivíduos, além de pagar uma multa de US$ 5 bilhões. Outro processo da FTC contra o Facebook entra na categoria antitruste, ou seja, contra situações monopolísticas.

    No legislativo americano, a rede social tem sido cobrada à direita e à esquerda. Em julho, em uma comissão do setor financeiro no Senado, um executivo da rede social foi bombardeado por senadores republicanos e democratas por causa da proposta da empresa de criar sua própria moeda digital, a Libra.

    Quem Zuckerberg encontrou

    Zuckerberg teria se encontrado com o senador Lindsay Graham, da Carolina do Sul. O republicano questionou o empresário de maneira incisiva durante o depoimento de Zuckerberg ao congresso americano em abril de 2018, quando o fundador do Facebook foi chamado para prestar esclarecimentos sobre o uso de dados e a disseminação de notícias falsas na plataforma durante a eleição presidencial de 2016. “Quem é seu maior competidor?”, perguntou Graham. “Você não acha que detém um monopólio?”.

    Além do parlamentar, Zuckerberg teria se reunido, em outras ocasiões, com Tucker Carlson, âncora do canal de televisão de direita Fox News, o radialista conservador Hugh Hewitt e Brent Bozell, fundador do site Media Research Center, especializado em monitorar a imprensa.

    O correspondente político chefe do jornal conservador Washington Examiner e colaborador da Fox News, Byron York, confirmou o encontro, mas não deu detalhes sobre o conteúdo pois firmou um acordo prévio de confidencialidade.

    Boa parte dos encontros consistiu de jantares em alguma das casas de Zuckerberg na Califórnia.

    Em resposta à reportagem, Zuckerberg declarou no Twitter que “realiza jantares com muitas pessoas de todo o espectro sobre vários assuntos diferentes o tempo todo”. O fundador do Facebook classificou a prática como sendo “parte do ato de aprender”.

    “Não quero um grande processo [judicial] contra nosso próprio governo... nos preocupamos com o nosso país e queremos trabalhar com o nosso governo e fazer coisas boas. Mas veja, no fim das contas, se alguém tentar ameaçar sua existência dessa maneira, você desce para o tatame e luta”

    Mark Zuckerberg

    CEO do Facebook

    Indagado sobre os encontros, um alto funcionário da Casa Branca afirmou que o governo espera que o Facebook realize ações “significativas” em assuntos como “competição, liberdade de expressão para todo mundo, incluindo conservadores, e privacidade”.

    Em 2016, a plataforma foi acusada de manipular sua listagem de notícias mais comentadas (“Trending topics”, ferramenta desativada em 2018) de modo a impedir que conteúdo conservador ganhasse destaque. Em resposta, a empresa realizou uma auditoria para averiguar o suposto viés. Conduzida pelo senador republicano Jon Kyl, a equipe de auditores entrevistou 133 legisladores de tendência conservadora. O relatório de conclusão recomendava que o Facebook fizesse mudanças em suas práticas de moderação de conteúdo.

    Como o Partido Democrata encara o Facebook

    A pré-candidata à presidência pelo Partido Democrata Elizabeth Warren, uma das favoritas para se tornar oponente de Trump na eleição de 2020, tem batido duramente nas grandes corporações do Vale do Silício, em especial no Facebook. De acordo com ela, essas empresas “têm poder demais sobre nossa economia, sociedade e democracia”.

    A ideia de desmembrar os gigantes da tecnologia em empresas menores se tornou central na campanha de Warren. Em uma proposta lançada em março de 2019, ela defende reverter as aquisições que o Facebook fez do Instagram, em 2012, e do WhatsApp, em 2014.

    Em um áudio vazado de uma reunião na sede do Facebook, no início de outubro, pode-se ouvir um Zuckerberg preocupado com as propostas de Warren. “Não quero um grande processo [judicial] contra nosso próprio governo... nos preocupamos com o nosso país e queremos trabalhar com o nosso governo e fazer coisas boas. Mas veja, no fim das contas, se alguém tentar ameaçar sua existência dessa maneira, você desce para o tatame e luta”, afirmou.

    Em um discurso proferido a uma plateia na Universidade de Georgetown, nos EUA, Zuckerberg afirmou que não é papel do Facebook avaliar se o que políticos dizem é verdade ou não

    As críticas ao Facebook se acumulam ao longo dos anos. Elas vão da incapacidade de controlar notícias falsas e conteúdo de ódio a casos de mau uso da plataforma que a empresa tentou esconder. Entre estes casos, está a tentativa de hackers russos usarem a plataforma para contatar pessoas ligadas ao Partido Democrata e enviar a elas documentos obtidos ilegalmente. A operação tinha o objetivo de beneficiar a candidatura de Trump.

    Em abril de 2018, Zuckerberg depôs perante o Congresso americano sobre esta e outras acusações. À época, o executivo fez um mea culpa. “Agora está claro que não fizemos o suficiente para impedir que essas ferramentas fossem usadas para causar danos. Isso vale para notícias falsas, interferência estrangeira nas eleições e discurso de ódio, além de desenvolvedores e privacidade de dados. Não adotamos uma visão ampla o suficiente de nossa responsabilidade, e isso foi um grande erro”, afirmou Zuckerberg.

    Na época, o Facebook também alterou suas políticas como meio de frear a disseminação de notícias falsas e anúncios comprados fora dos Estados Unidos.

    A guerra dos anúncios falsos

    Recentemente, Warren se viu com mais munição diante de uma nova controvérsia envolvendo a rede social. A campanha de Trump comprou anúncios no Facebook que acusavam Joe Biden, outro pré-candidato democrata à presidência, de ter realizado um ato de corrupção na Ucrânia.

    O anúncio dizia que Biden ofereceu US$ 1 bilhão a autoridades ucranianas para afastar um promotor que estaria encarregado de investigar uma empresa ligada ao filho de Biden, Hunter Biden.

    A informação contida no anúncio era falsa. Ele foi visto 5 milhões de vezes no Facebook. A campanha de Biden exigiu que a rede social retirasse o anúncio, mas a empresa recusou.

    A relação entre a Ucrânia, a família Biden e Trump está no centro do processo de impeachment contra o presidente americano iniciado pela Câmara dos Representantes em setembro. Segundo órgãos de inteligência, Trump teria tentado pressionar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, a investigar Hunter Biden.

    Em sua justificativa para manter o anúncio, o Facebook disse que declarações de políticos faziam parte de um conjunto de discursos relevantes e noticiosos, mesmo que fossem falsos. O anúncio também foi mantido pelo Twitter e YouTube, que o haviam veiculado. Em 17 de outubro, em um discurso proferido a uma plateia na Universidade de Georgetown, nos EUA, Zuckerberg afirmou que não é papel do Facebook avaliar se o que políticos dizem é verdade ou não.

    Em reação, Warren também publicou um anúncio falso como forma de demonstrar o alcance da informação mentirosa na plataforma de Zuckerberg. A peça dizia que o empresário e a rede social haviam anunciado oficialmente seu apoio à reeleição de Trump. “Decidimos ver quão longe isso vai”, escreveu a senadora. Ela chamou o Facebook de “máquina de desinformação-pelo-lucro”.

    O tamanho do Facebook

    • Em junho de 2019, o Facebook contava com 2,41 bilhões de usuários ativos, segundo informações divulgadas pela própria empresa.
    • O Instagram conta com mais de 1 bilhão de contas ativas, segundo dados de 2019. Em julho de 2019, o WhatsApp contava com 1,6 bilhão de usuários.
    • Para 2018, o Facebook declarou receita total de US$ 55.84 bilhões, um aumento de 37% em relação ao resultado de 2017, de US$ 40,65 bilhões.
    • A plataforma contém cerca de 83 milhões de perfis falsos, segundo a CNN.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: