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Os filmes da Marvel são apenas um parque de diversão?

Cineasta Martin Scorsese criticou as produções de super-heróis do estúdio, que são algumas das maiores bilheterias da indústria

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    Os filmes de super-heróis do estúdio Marvel formam a franquia mais valiosa do cinema atualmente.

    Ao todo, os 23 longas já arrecadaram mais de US$ 22 bilhões nas bilheterias mundiais. O filme que completou a saga atual, “Vingadores: ultimato” (2019), se tornou a maior bilheteria de todos os tempos, superando títulos como “Avatar” (2009) e “Titanic” (1998).

    A recepção calorosa nas bilheterias, entretanto, não quer dizer que as produções agradam a todos. Recentemente, comentários negativos feitos por nomes importantes da indústria cinematográfica levaram a uma discussão sobre a qualidade dos projetos e o papel do entretenimento no cinema.

    Os filmes como ‘parque de diversões’

    Em entrevista à revista Empire, o cineasta Martin Scorsese, diretor de filmes como “Taxi Driver” (1976), “Os bons companheiros” (1990) e “O lobo de Wall Street” (2014), criticou o estúdio, dizendo que o que eles fazem “não é cinema”.

    A declaração repercutiu em Hollywood. James Gunn, diretor dos filmes da série “Guardiões da galáxia”, equipe interespacial de super-heróis da Marvel, publicou uma mensagem no Twitter se dizendo chateado com a fala de Scorsese.

    “Martin Scorsese é um dos meus cinco diretores favoritos”, escreveu Gunn. “Eu fico revoltado quando as pessoas criticaram ‘A última tentação de Cristo’ sem ter assistido. Estou entristecido em ver ele julgando os meus filmes da mesma forma.”

    Dada a repercussão, Scorsese decidiu esclarecer sua fala. Em coletiva de imprensa no festival de cinema do Instituto Britânico de Cinema, o cineasta afirmou que sua ideia foi dizer que os filmes da Marvel são como um “parque de diversões”.

    “Eles são como um parque temático, são filmes que transformam o cinema em um parque de diversões, são algo diferente”, disse o diretor. “Isso não é cinema, é outra coisa. Se você gosta ou não, é uma outra questão.”

    Scorsese criticou o fato de as produções da Marvel ocuparem, no mundo todo, mais salas de cinema do que os filmes que oferecem ao público um trabalho focado em narrativas e não apenas no entretenimento.

    “Precisamos que as salas de cinema se imponham para permitir a exibição de filmes que são narrativos”, disse o cineasta no festival.

    Dias depois da fala de Scorsese, a atriz e produtora Jennifer Aniston (de “Friends”) também criticou os filmes da Marvel. Ela disse que as produções do estúdio são responsáveis por diminuir a qualidade da indústria cinematográfica como um todo.

    “Não estou muito interessada em viver em frente a uma tela verde”, afirmou à revista Variety, em referência ao uso de estúdios pintados de verde para a inserção posterior dos efeitos especiais que formam os cenários, as criaturas fantásticas e as sequências de ação grandiosas.

    Como os fãs receberam as críticas

    As falas de Scorsese e Aniston causaram burburinho entre os fãs dos filmes da Marvel.

    “O que torna os filmes de Scorsese sobre policiais e ladrões mais ‘profundos’ do que filmes da Marvel sobre heróis e vilões?”, questionou um usuário do Twitter. “Jennifer Aniston falou que os filmes da Marvel são ruins, o que é válido, mas ela assistiu à própria filmografia dos últimos 10 anos?”, escreveu outro.

    O crítico de cinema Caspar Salmon, colaborador do jornal britânico The Independent, concordou com as declarações de Scorsese. “Dizer que os filmes da Marvel são formulaicos não é um insulto, é a constatação de um fato”, afirmou em sua coluna.

     “A Marvel encontrou uma fórmula para transformar os filmes em um produto, uma forma de blindar esses filmes de falhas. São longas com uma estética rígida e um modelo narrativo rígido. A comparação com parques de diversão é apropriada para esse tipo de entretenimento”, escreveu.

    Para Camila Sousa, editora-assistente no site especializado Omelete, os filmes da Marvel já foram um parque de diversão, mas hoje tentam acrescentar camadas às suas produções. “O ‘Vingadores: ultimato’ é um bom exemplo disso”, disse a jornalista ao Nexo. “Há sim a cena de todos os heróis juntos, e é algo catártico, mas há também um primeiro ato extremamente dramático e triste”, afirmou.

    Segundo Sousa, os filmes da Marvel trazem um impacto cultural “gigante”, já que podem ser a porta de entrada de muitas pessoas para o cinema como um todo. “É entretenimento puro, e tem seu valor. Acredito que há uma geração inteira que terá boas lembranças de crescer vendo os filmes da Marvel”, afirmou.

    Os filmes de super-herói e a crítica

    A rixa entre os filmes de super-herói e outros tipos de produção não é nova. Em premiações do cinema, por exemplo, é comum que o gênero figure apenas em categorias técnicas, como as de “Melhores efeitos visuais” ou “Melhor figurino”.

    Alguns casos conseguiram “furar” essa bolha e figurar nas categorias principais do Oscar e de outras premiações importantes, recebendo elogios da crítica e da indústria.

    Baseado na origem do vilão mais famoso do Batman, “Coringa”, produção da Warner em parceria com a DC Entertainment, de 2019, foi o filme vencedor da competição oficial do Festival de Veneza, um dos maiores eventos cinematográficos do mundo. O longa estrelado por Joaquin Phoenix também é uma aposta para o Oscar 2020.

    No começo de 2019, “Pantera negra”, da própria Marvel, foi indicado a sete Oscars, incluindo “Melhor filme”. Ao todo, o longa dirigido por Ryan Coogler venceu três estatuetas.

    Filme de despedida do personagem Wolverine, dos X-Men, da Fox em parceria com a Marvel,  “Logan” foi indicado em 2018 ao Oscar de “Melhor roteiro adaptado”. Dez anos antes, “Batman: O cavaleiro das trevas”, segundo filme da trilogia dirigida por Christopher Nolan, venceu o Oscar de “Melhor ator coadjuvante”, pela atuação de Heath Ledger como o Coringa. O longa foi indicado em outras sete categorias.

    A hegemonia dos blockbusters

    Um dos pontos da crítica de Scorsese gira em torno do fato de que os filmes de super-heróis e outras produções blockbuster dominam as salas de cinema e conseguem ser viabilizados mais facilmente.

    Em abril de 2019, “Vingadores: ultimato” ocupou a maioria das salas do Brasil e do mundo. Nacionalmente, o longa foi exibido em 80% das salas do país - um número que foi criticado pelos profissionais da área.

    A produção de filmes que trazem personagens conhecidos e franquias estabelecidas oferece menos risco para os estúdios, já que não é necessário um trabalho ostensivo para trazer o público para as sessões.

    Já longas autorais necessitam de um trabalho maior de divulgação para atrair espectadores. É por isso que mesmo “O irlandês”, próximo filme de um cineasta renomado como Scorsese, demorou 10 anos para conseguir ser viabilizado.

    “As pessoas não estavam interessadas em financiar o filme”, Scorsese disse à revista Entertainment Weekly. “Ninguém queria nos dar o dinheiro. Mas eu senti que [Robert] De Niro e eu tínhamos mais um projeto juntos, e ele já tinha se conectado com o personagem.”

    No fim das contas, o longa foi financiado pela Netflix. Os serviços de streaming têm sido uma forma de cineastas autorais conseguirem viabilizar seus projetos, já que o modelo de negócios dessas empresas permite uma tomada de riscos maior.

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