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Como a guerra do PSL afeta Bolsonaro e sua articulação política

Entenda o passo a passo da crise do partido do presidente e leia análises de cientistas políticos sobre o momento político do Palácio do Planalto

     

    A disputa aberta pelo comando do PSL, que envolve traições, divulgação de gravações de conversas privadas, destituição de cargos e ameaças de revelações sobre os bastidores do partido, levou o presidente da República, Jair Bolsonaro, a buscar apoio numa agremiação que esteve presente em praticamente todos os governos após a redemocratização: o MDB.

    O presidente escolheu o senador Eduardo Gomes (MDB-TO) como o novo líder do governo no Congresso. Agora, o partido dos ex-presidentes Michel Temer e José Sarney dispõe, além do novo cargo, da liderança do governo no Senado, com Fernando Bezerra Filho (MDB-PE), e do Ministério da Cidadania, comandado pelo deputado Osmar Terra (MDB-RS).  

    A opção pelo MDB, partido tradicional que representa o que o próprio Bolsonaro chama de velha política, ocorre num contexto em que o PSL do presidente passa a ser alvo de um escândalo envolvendo suspeitas de dinheiro público. A crise das candidaturas laranjas vem desde o início de 2019, mas ganhou novos contornos em outubro.

    O Ministério Público Federal denunciou o ministro do Turismo, que comandava o diretório da sigla em Minas, Marcelo Álvaro Antônio, por caixa dois, apropriação indébita de recursos eleitorais e associação criminosa. Bolsonaro não dá sinais de que vá demiti-lo. Ao mesmo tempo, investe contra o presidente nacional do PSL, deputado Luciano Bivar (PE), também suspeito no escândalo.

    Bivar se tornou o principal antagonista de Bolsonaro na disputa de poder dentro do PSL, seja nas instâncias da máquina partidária, seja no Congresso. Até aqui, o presidente da República vem sofrendo derrotas. A seguir, o Nexo relembra os principais capítulos dessa disputa.

    As candidaturas laranjas

    Em fevereiro, Bolsonaro demitiu o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, após ele ter se envolvido em discussões com seu filho Carlos. Coordenador da campanha de Bolsonaro em 2018, Bebianno foi presidente do PSL durante as eleições e responsável por repasses para candidaturas que seriam posteriormente investigadas sob suspeita de serem laranjas. Bebianno deixou a presidência do partido para participar do governo, e Bivar assumiu o comando da sigla. Mas ele também passou a ser investigado por suposto caixa dois de campanha e envolvimento com candidaturas de fachada em Pernambuco, estado pelo qual se elegeu deputado.

    O pedido para esquecer o  PSL

    Em outubro, o caso voltou à tona. No dia 4, saiu a denúncia contra o ministro do Turismo. No dia 6, o jornal Folha de S.Paulo trouxe indícios de que o dinheiro das candidaturas laranjas poderiam ter ido para a campanha de Bolsonaro. No dia 8, na porta do Palácio do Alvorada, o presidente foi gravado dizendo a um apoiador para “esquecer o PSL” e que Bivar estava “queimado para caramba”. A crise então se instalou. No dia seguinte, Bivar afirmou que Bolsonaro não tinha mais “nenhuma relação com o PSL”. Em meio a especulações sobre a desfiliação de Bolsonaro, deputados pediram uma auditoria nas contas da agremiação para pressionar Bivar a deixar o comando da agremiação.

    A operação da Polícia Federal contra Bivar

    Uma semana após as declarações de Bolsonaro, a Polícia Federal, subordinada ao ministro da Justiça, Sergio Moro, recebeu autorização judicial e fez uma operação de busca e apreensão em endereços ligados ao presidente do PSL. A operação, realizada no âmbito das investigações sobre as candidaturas laranjas, causou reação da ala que defende Bivar, que a classificou como uma retaliação.

    Tentativa de destituir o líder do PSL na Câmara

    Na quarta-feira (16), Bolsonaro investiu novamente contra Bivar, ao tentar colocar seu filho Eduardo na liderança do PSL na Câmara, destituindo do cargo o deputado Delegado Waldir, ligado ao presidente da sigla. Iniciou-se uma guerra de listas com assinaturas de deputados para a destituição. À noite, veio a público um áudio em que Bolsonaro pede assinaturas para o filho Eduardo. No dia seguinte, um novo áudio veio à tona. Nele, Delegado Waldir promete “implodir o presidente” com uma gravação secreta e o chama de “vagabundo”. Posteriormente, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o deputado afirmou: “A gravação que tem é a que já foi divulgada. É na qual ele pede votos, negociando com parlamentares e comprando a vaga do filho dele na liderança do PSL, oferecendo cargos e fundo partidário”. Na gravação divulgada com a fala de Bolsonaro, não há menção a compra de vaga.

    A troca de líder do governo no Congresso

    Sentindo-se traído pela deputada Joice Hasselmann (SP), que assinou a lista pela manutenção de Delegado Waldir na liderança do partido na Câmara, Bolsonaro tirou-a da liderança do governo no Congresso, substituindo-a pelo senador Eduardo Gomes, do MDB de Tocantins, que foi eleito pelo Solidariedade mas que migrou de sigla por incentivo de Renan Calheiros (MDB-AL). Na sexta-feira (18), Joice Hasselmann, que se disse “aliviada” de deixar a função, atacou Eduardo Bolsonaro, afirmando que ele é um menino que não consegue nada sozinho. Ela se disse ainda alvo de uma milícia bolsonarista na internet. “Não se esqueçam que eu sei quem vocês são e o que fizeram no verão passado”, escreveu.

    Retaliação de Bivar à ala bolsonarista

    Ainda na sexta-feira (18), a ala ligada a Bivar anunciou a suspensão das atividades partidárias de cinco deputados da ala bolsonarista: Carlos Jordy (RJ), Alê Silva (MG), Bibo Nunes (RS), Carla Zambelli (SP) e Filipe Barros (PR). Eles ficaram impedidos de representar o PSL em atividades na Casa. Também não poderão participar da votação para líder da bancada. Durante a convenção do diretório nacional em Brasília, foram também confirmadas as trocas nos diretórios de São Paulo e Rio de Janeiro, então comandados, respectivamente, por Eduardo e pelo senador Flávio Bolsonaro, ambos filhos do presidente da República. Ainda foram eleitos 52 novos integrantes do diretório nacional do PSL, que passou a contar com 153 nomes. A maioria deles é alinhada a Bivar, o que fortaleceu sua influência.

    O processo contra o líder do PSL

    Bolsonaro pediu à Advocacia-Geral da União na sexta-feira (18) para processar Waldir por causa do áudio em que é chamado de “vagabundo”. O deputado disse esperar o processo como um “presente”. “Com certeza tenho muito, muito material para rebater. Não posso adiantar nada, mas com certeza o Brasil todo vai querer saber o que é”, afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

    A importância dos líderes no Congresso

    Líderes partidários têm importância porque podem interferir no andamento do trabalho legislativo. Aqueles que representem ao menos 52 deputados, como é o caso da liderança do PSL, que tem 53 parlamentares eleitos na Câmara, podem solicitar votação secreta, regime de prioridade para propostas, adiamento de votação de propostas em regime de urgência, além de apresentar destaques para votação em separado e emendas a propostas que estão sendo votadas em segundo turno.

    Já o líder do governo no Congresso, cargo que era desempenhado pela deputada  Joice Hasselmann, do PSL, e agora está nas mãos do senador Eduardo Gomes, do MDB, têm como função representar os interesses do Palácio do Planalto. Eles articulam a aprovação do Orçamento Geral da União e outras matérias, como a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Também encaminha a votação dos vetos presidenciais.

    Duas visões sobre a crise do PSL e Bolsonaro

    O Nexo ouviu dois cientistas políticos para saber como fica a articulação política do governo Bolsonaro em meio à crise do PSL e à aproximação com o MDB.

    • Andréa Freitas, professora no departamento de ciência política da Unicamp.
    • Pedro Fassoni, coordenador do curso de ciências sociais da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo

    Qual o impacto da guerra do PSL para a imagem do presidente?

    ANDRÉA FREITAS Acho que o impacto que o Bolsonaro queria causar ele conseguiu: diferenciar-se de qualquer possível escândalo relativo à distribuição incorreta dos recursos nas eleições. Ele queria se desvincular de qualquer processo judicial que possa ocorrer em função das candidaturas laranjas do PSL. Uma segunda consequência possível, e acho que ele tem interesse nisso, embora ainda não esteja dado, é assumir o controle do partido. Isso seria um golpe de mestre. Não só por conta da quantidade de recursos que o PSL tem, mas por conta do controle de uma máquina partidária que cresceu muito. Ele decidiria com quem o PSL vai estar nas próximas eleições, quem vai tomar a decisão de quem serão os candidatos. Eventualmente isso pode ser conseguido caso o Luciano Bivar seja implicado pelas investigações. No caso de uma implicação judicial, eles [a ala bolsonarista] têm bons argumentos para destituir a presidência do Luciano Bivar. Mas isso não está dado ainda. A percepção do cidadão comum em relação ao Bolsonaro nessa ideia de combate à corrupção fica fortalecida quando ele se diferencia e se afasta do partido fazendo toda essa dramaticidade. Com isso, ele deixa uma separação muito clara de qualquer implicação futura.   

    PEDRO FASSONI O impacto é muito negativo. O Bolsonaro não consegue garantir unidade dentro do próprio partido, quanto mais num Congresso tão fragmentado como esse, com dezenas de partidos políticos. Isso já traz uma dificuldade para a governabilidade e para aprovar projetos de iniciativas do governo. O poder de barganha está debilitado justamente no momento em que ele ameaça deixar o próprio partido e criar um novo. Desde que o Bolsonaro assumiu que ele não conta com uma base aliada. A cada votação importante, como a da reforma da Previdência, ele tem que fazer uma negociação. Os governos anteriores tinham partidos formalmente aliados ao governo e que apoiavam os projetos de iniciativa do Planalto. Agora, cada projeto enseja uma nova discussão e negociação, e isso dificulta a ação do governo. Os deputados do PSL são novatos, com dificuldade de articulação política. Isso enfraquece ainda mais o governo do Bolsonaro.   

    Como fica a articulação do governo com maior presença do MDB?

    ANDRÉA FREITAS Não sei se é uma aproximação com o MDB como um todo ou com indivíduos do MDB. Ele tem ministros do DEM, por exemplo, mas o DEM sempre foi muito claro ao dizer que não estava no governo. Do ponto de vista da articulação, tem dois movimentos. Um que é muito ruim, que é a traição aos aliados. A coordenação política é feita com base na confiança, ou seja, tenho que confiar que se vai cumprir um acordo. E não é a primeira vez que ele faz isso. Aliados importantes que ele teve nas eleições têm a confiança colocada em xeque. Outros atores políticos que venham se aliar a ele vão ter isso na memória e vão eventualmente estar esperando que ele vá dar uma rasteira neles. Outro ponto é o quanto ele está preocupado com a articulação política. Eu não vi esse governo fazer nenhum movimento no sentido de se articular politicamente. Mesmo o projeto da reforma da Previdência, que era um projeto muito central, o presidente não se envolveu em articulação nenhuma. O líder do governo ou do partido do presidente foram muito apagados durante toda a discussão. Mesmo o ministro da Economia foi ao Legislativo e mais causou problemas do que ofereceu soluções. Em algum momento isso foi apaziguado pela capacidade de negociação do Rodrigo Maia, que no final das contas foi quem encaminhou as negociações. O que está acontecendo no Senado mostra bem a ausência de articulação política. A reforma da Previdência está pronta. É só colocar para votar, não tem mais o que ser debatido ou alterado. A parte do conflito já passou, mas eles simplesmente não colocam para votar, o que mostra uma incapacidade de articulação política absurda. E aqui não se trata de um ponto polêmico. É o segundo turno da proposta. Tudo o que tinha que ser negociado já foi.            

    PEDRO FASSONI O Bolsonaro sofreu duas derrotas importantes. Primeiro com o recuo da indicação do Eduardo para a Embaixada nos Estados Unidos e agora também para a liderança da bancada do partido. Um partido dividido tem muito menos poder de barganha. A gente sabe do fisiologismo dos parlamentares do MDB, que é um partido que encolheu bastante da última Legislatura para esta atual. O MDB era o partido com o maior número de cadeiras e agora é o sexto. Foi bastante desidratado nas últimas eleições e não tem a mesma força de antes. E também o próprio MDB é um partido bastante dividido. Mesmo que o líder do governo seja um emedebista dificilmente ele vai conseguir apoio de outros parlamentares por causa dessa falta de coesão e disciplina partidária. O MDB é uma federação de partidos estaduais. Isso mostra uma ausência de um plano de governo. Provavelmente o Bolsonaro que foi eleito com essa bandeira de acabar com a velha política, com o fisiologismo, o loteamento, vai justamente negociar com o partido que é o campeão nesses quesitos e que fez parte de todos os governo. É muito difícil que o MDB, com uma bancada atual [33 deputados] num total de 513, isso dificilmente vai mudar muito a correlação de forças.            

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