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Qual o futuro da terapia celular anticâncer no Brasil

Até então inédito no país, tratamento que fez câncer regredir em paciente é testado nos EUA há 12 anos. Especialista ouvido pelo ‘Nexo’ estima para 2022 seu lançamento no mercado

 

Médicos da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto anunciaram no início de setembro de 2019 que conseguiram levar um caso grave de câncer à remissão, a partir de uma técnica experimental chamada terapia celular. É a primeira vez que essa técnica é empregada com sucesso na América Latina.

O paciente tratado, um homem de 63 anos, sofre de um tipo de câncer chamado de linfoma não hodgkin. A doença ataca o sistema linfático, que por sua vez faz parte do sistema imunológico. Uma vez desenvolvido esse tipo de linfoma, os linfócitos crescem desordenadamente, levando ao inchaço de gânglios, principalmente nas regiões de pescoço, axilas e virilha — além de medula óssea, baço, fígado e trato intestinal.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer, a possibilidade de desenvolver o linfoma não hodgkin se torna mais comum à medida que se envelhece. “Por razões ainda desconhecidas, o número de casos duplicou nos últimos 25 anos.”

Apesar de ter apresentado melhora expressiva, o paciente tratado em Ribeirão Preto continuará a ser avaliado por três meses, para observar se a resposta foi total ou parcial.

A pesquisa que levou ao caso de sucesso foi coordenada pelo médico Dimas Tadeu Covas, que também é diretor do Instituto Butantan, e por Renato Cunha, pesquisador do Laboratório de Terapia Celular Avançada, da USP de Ribeirão Preto.

Caso a técnica chegue ao mercado, ela se tornará uma alternativa a outras terapias mais difundidas, como a quimioterapia, a radioterapia e a quimioimunoterapia.

O que é a CAR-T

A técnica é baseada em um tipo de célula chamado CAR-T, sigla que significa “célula T com receptor de antígeno quimérico”. Nessa técnica, pesquisadores coletam sangue do paciente e isolam um tipo de célula conhecida como linfócito T, normalmente responsável por reconhecer tumores e levar à produção de anticorpos pelo corpo.

Os pesquisadores inserem, por meio de um vírus, material genético alterado em laboratório nos linfócitos T. Essas células passam a produzir receptores especiais, os “receptores quiméricos de antígenos”.

Eles são chamados de “quiméricos” porque, assim como as quimeras da mitologia grega, são compostos por partes de vários seres vivos. Esses receptores são capazes de se ligar a moléculas CD19, que são um tipo de proteína encontrado especificamente na superfície de células cancerígenas.

Depois disso, um grande número de linfócitos T com essa alteração genética é desenvolvido em cultura em laboratório. O paciente é preparado por meio de uma quimioterapia, e então os linfócitos são inseridos em uma única aplicação.

Como os linfócitos são modificados para se ligar às proteínas das células cancerígenas, têm uma capacidade maior de combatê-las. Conforme os linfócitos agem, passam a levar a reações inflamatórias do corpo. Por isso, o tratamento deve ser acompanhado, para evitar complicações.

Em entrevista à revista Pesquisa Fapesp, o pesquisador Renato Cunha afirmou que a maior prova de que a metodologia funcionou é o fato de que a equipe conseguiu detectar células CAR-T no sangue do paciente.

A técnica desenvolvida é específica para tratamento de linfoma. Mas a sua lógica pode ser ampliada para o tratamento de qualquer tipo de câncer.

Metodologia brasileira é mais barata

Nos Estados Unidos, tratamentos com CAR-T vêm sendo testados desde 2007 com apoio do National Institutes of Health, centro de pesquisa financiado pelo governo.

A primeira aprovação de um método de tratamento pela Food and Drugs Administration, o equivalente americano da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ocorreu em 2017. Essa aprovação ocorreu após um estudo com 63 pacientes mostrar resultados positivos.

Três meses após a aplicação, houve remissão do câncer em 83% dos casos. E cerca de um ano depois, dois terços dos pacientes continuaram vivos, sem ver retorno da doença.

Antes de se integrar ao projeto de pesquisa da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, Renato Cunha participou de um estágio no National Cancer Institute, o braço oncológico do National Institutes of Health. Ele recebeu uma bolsa de US$ 150 mil da Associação Americana de Hematologia para se integrar à equipe de cientistas.

A pesquisa em torno do tratamento envolveu cerca de 20 pesquisadores e foi financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo), além de CNPq, BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Ministério da Saúde e Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Pesquisadores querem a técnica no SUS

Segundo informações da revista Pesquisa Fapesp, enquanto nos Estados Unidos a terapia é oferecida por dois laboratórios ao custo de US$ 400 mil, a nova metodologia aplicada em Ribeirão Preto teve custo de cerca de R$ 150 mil — um valor próximo aos R$ 110 mil exigidos para um transplante de medula óssea.

Ao jornal O Globo, Cunha atribuiu os preços menores ao fato de que a tecnologia foi desenvolvida pelos próprios pesquisadores, e não paga royalties. Ele diz que quer validar o tratamento para que passe a ser oferecido pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e em sistemas de saúde de outros países com renda média ou baixa.

O Nexo conversou com Eduardo Rego, que participou da pesquisa e é vice-diretor científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular. Ele afirma que já há ao menos dois pacientes de Ribeirão Preto e um de São Paulo selecionados para participar de novos testes com a terapia celular.

Em todos os casos mencionados por Rego, as técnicas já disponíveis no mercado não foram capazes de frear o avanço do câncer. A expectativa é que testes ocorram em ao menos um paciente ainda em 2019.

Depois disso, ainda seria necessário realizar estudos clínicos com grupos mais amplos, analisar sistematicamente os resultados e submeter o método à aprovação da Anvisa para que o produto chegue ao mercado e ao SUS. “Acho que é viável lançar o produto em três anos”, afirmou.

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