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A disputa explícita do PSL: no Congresso e na direção partidária

Partido que ganhou projeção com Jair Bolsonaro está dividido entre apoiadores do presidente e defensores do deputado Luciano Bivar, que comanda a sigla. A briga envolve a disputa por poder e o escândalo com candidaturas laranjas

    A disputa travada no PSL extrapolou as instâncias partidárias e tomou conta do Congresso na quinta-feira (17), com manobras, ameaças e mudanças na articulação política do governo.

    A guerra interna ocorre em meio ao escândalo das candidaturas laranjas e à disputa por cargos de direção da legenda, dona de um significativo pedaço da verba pública dos fundos eleitoral e partidário.

    De um lado está o presidente da República, Jair Bolsonaro. De outro está o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar.

    Dois grupos

    ALA BOLSONARISTA

    Entre os deputados da ala bolsonarista estão Carla Zambelli (PSL-SP), Bia Kicis (PSL-DF), Alê Silva (PSL-MG), Major Vitor Hugo (PSL-GO), que é líder do governo na Câmara, Felipe Barros (PR), Bibo Nunes (RS), Hélio Lopes (RJ), amigo de Bolsonaro conhecido como Hélio Negão, e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), terceiro filho do presidente.

    ALA BIVARISTA

    Entre os defensores de Bivar estão os deputados Delegado Waldir (PSL-GO), que é líder do partido na Câmara, Felipe Francischini (PSL-PR), que preside a Comissão de Constituição e Justiça, e Júnior Bozzella (PSL-SP).

     

    A vitória bivarista na liderança da Câmara

    Na noite de quarta-feira (16), a ala pró-Bolsonaro apresentou duas listas, cada uma com 27 assinaturas, para que o deputado Eduardo Bolsonaro (SP) assumisse a liderança do PSL na Câmara dos Deputados, posto ocupado pelo deputado Delegado Waldir, leal a Bivar.

    A medida ocorreu após Waldir começar a retirar deputados bolsonaristas de comissões e posições de liderança na sigla. O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (GO), foi retirado, por exemplo, da comissão especial da reforma da Previdência. Na terça-feira (15), Delegado Waldir orientou a bancada a apresentar medidas para atrasar a votação de uma Medida Provisória do governo.

    Na quarta-feira (16) à noite, veio a público um áudio que mostra o próprio Bolsonaro articulando a favor do filho na disputa pela liderança da bancada na Câmara. Na quinta-feira (17), veio a público um outro áudio, em que Delegado Waldir faz ameaças ao presidente.

    “Eu implodo o presidente. Acabou o cara. Eu sou o cara mais fiel a esse vagabundo. Eu andei no sol em 246 cidades para defender o nome desse vagabundo”

    Delegado Waldir

    líder do PSL na Câmara, em fala gravada durante uma reunião da bancada do PSL

    Em meio à disputa de listas com assinaturas de deputados do PSL a favor de Eduardo ou de delegado Waldir, o filho do presidente chegou a fazer um pronunciamento como novo líder do partido. Num momento em que ele pleiteia o apoio de senadores para assumir a embaixada do Brasil em Washington, chegou a afirmar que o tema teria se tornado secundário.

    No fim, após análise da Secretaria-Geral da Mesa da Câmara, que comparou com o cartão de assinatura dos deputados, prevaleceu o grupo de Bivar. Delegado Waldir foi mantido no cargo. Num pronunciamento, ele disse que não haverá retaliação aos deputados e se declarou “98% fiel ao governo”. Chegou a afirmar que a disputa já havia passado.

    No dia seguinte, no entanto, Waldir retomou o tom de embate. Na sexta-feira (18), em entrevista ao Estadão, voltou a se referir ao presidente como “vagabundo” e disse que Bolsonaro está usando o fundo partidário e cargos para comprar deputados e alçar Eduardo Bolsonaro à liderança da bancada. “O governo não existe hoje. A única finalidade do governo hoje é me derrubar da liderança do PSL. A traição vem de onde você menos espera”, disse. Segundo Waldir, a ameaça de “implodir” o presidente se referia aos áudios de Bolsonaro pedindo votos para o filho, já divulgados.

    A retaliação bolsonarista na liderança do Congresso

    A derrota de Eduardo custou o cargo da líder do governo no Congresso à deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), que assinou a lista a favor da manutenção de Delegado Waldir como líder do PSL na Câmara. Na quinta-feira (17), a parlamentar foi retirada do cargo e substituída pelo senador Eduardo Gomes (MDB-GO).

    Após a decisão, Hasselmann disse ao jornal Folha de S.Paulo que ganhou “uma carta de alforria, graças a Deus” e que Eduardo tem um perfil desagregador. No Twitter, ela disse não se importar com “ingratidão” e que saia do cargo com dever cumprido.

     

    Hasselmann disse que pretende se dedicar a candidatura à prefeitura da São Paulo em 2020, que pode não ser via PSL. O partido flerta com o apresentador José Luiz Datena. A deputada disse ao jornal O Estado de S. Paulo que já recebeu convite de filiação de cinco siglas, entre elas o DEM.

    A ação bivarista contra bolsonaristas no partido

    As decisões sobre o futuro das lideranças na Câmara e Congresso foram seguidas pela destituição, também na quinta-feira (17), de bolsonaristas que comandavam diretórios do PSL nos estados.

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Bivar retirou dos comandos dos diretórios Eduardo Bolsonaro, que conduzia a legenda em São Paulo, Flávio Bolsonaro, senador e primogênito do presidente que presidia o diretório do Rio, e Bia Kicis, deputada que estava à frente do partido no Distrito Federal.

    Nesta sexta-feira (18), a sigla realizou uma convenção partidária extraordinária em Brasília e confirmou o afastamento dos dois filhos de Bolsonaro. A direção do PSL também suspendeu cinco deputados bolsonaristas de suas atividades partidárias no Congresso e ampliou os poderes de Bivar.

    O contexto da crise interna do PSL

    As disputas internas começam cedo, já nos primeiros meses de governo Bolsonaro. E se agravaram após o presidente da República dizer para um apoiador, no dia 8 de outubro, para que ele esquecesse o o PSL. O momento foi gravado em vídeo. No episódio, Bolsonaro diz ainda que Bivar está “queimado para caramba”.

    No dia 12 de outubro, o presidente admitiu pela primeira vez de forma pública a possibilidade de mudar de legenda - Bolsonaro já passou por oito partidos em suas três décadas de vida pública.

    Tudo isso aconteceu no momento em que o escândalo dos laranjas voltava ao noticiário, com a denúncia do Ministério Público contra o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e com a suspeita revelada pelo jornal Folha de S.Paulo de que o dinheiro do esquema pode ter sido usado na própria campanha presidencial de Bolsonaro.

    Bolsonaro chegou a pedir uma auditoria nas contas dos PSL, a fim de expôr Bivar. O presidente do partido retrucou dizendo que pediria uma auditoria nas contas de campanha do próprio Bolsonaro. Bivar revelou ainda quanto o partido vinha gastando com advogados contratados para lidar com rescaldos da campanha de 2018.

    A operação da Polícia Federal contra Bivar

    Na terça-feira (15), no contexto de investigação das candidaturas laranjas, Bivar foi alvo de mandados de busca e apreensão numa operação da Polícia Federal, órgão submetido ao Ministério da Justiça, comandado pelo ex-juiz Sergio Moro.

    Bivar já vinha sendo investigado por suspeitas de candidaturas laranjas em Pernambuco, seu estado natal. O presidente do PSL se declarou inocente e sua defesa sugeriu que a operação poderia ter motivação política, diante da disputa com o núcleo bolsonarista.

    Um breve histórico do PSL

    O PSL é um partido fundado em 1994 pela família Tuma, do delegado da Polícia Federal e senador Romeu Tuma (1931-2010). A legenda só obteve seu registro na Justiça Eleitoral, porém, em 1998, já sob o comando de Luciano Bivar.

    Desde então, vinha atuando como um partido pequeno, que só ganhou projeção nacional com a chegada de Bolsonaro, em março de 2018. Na onda bolsonarista das eleições de 2018, o PSL passou de partido irrelevante para a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. Depois da expulsão de Alexandre Frota em agosto, a legenda ocupa 53 dos 513 assentos na casa.

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