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A expansão do ensino a distância. E seu impacto na educação

Pela primeira vez, país tem mais vagas em cursos de graduação oferecidos na modalidade do que em presenciais. Pedagogia e administração são os mais procurados

 

A expansão do ensino a distância no Brasil, que vem ocorrendo desde 2004, acentuou-se em 2018, segundo dados do Censo do Ensino Superior. Pela primeira vez no país, de acordo com o levantamento divulgado em setembro de 2019 pelo Ministério da Educação, foram oferecidas aos estudantes naquele ano mais vagas em cursos de graduação na modalidade a distância do que na presencial.

O efeito se deve a um decreto assinado em 2017 pelo então presidente Michel Temer (MDB), que afrouxou os critérios para abertura de novos cursos. O avanço do ensino a distância preocupa pesquisadores da educação devido ao baixo desempenho dos cursos dessa modalidade.

O cenário em 2018

Em 2018, foram abertas 7,1 milhões de vagas a distância, contra 6,3 milhões em cursos presenciais.

Para se ter uma ideia do aumento, um ano antes eram oferecidas 4,7 milhões de vagas na graduação a distância. Em todo o Brasil, o número de cursos nessa modalidade pulou de 2.018, em 2017, para 3.177, em 2018.

50,7%

foi o crescimento no número de de cursos de graduação à distância no país entre 2017 e 2018

28%

foi o aumento na quantidade de alunos que ingressaram em curso de graduação a distância em 2018 em relação ao ano anterior

A expansão de vagas não significou o preenchimento de todas elas. Ainda assim, houve aumento no número de matrículas. Em 2018 foram registradas 1,3 milhão de inscrições em cursos a distância, o que representou 40% de todos os ingressantes na graduação naquele ano (contra 33,2% em 2017). Foram 2 milhões de alunos matriculados em cursos presenciais em 2018, 4% a menos do que no ano anterior.

O decreto de Temer

Desde 2017, instituições privadas de ensino superior podem atuar exclusivamente com educação a distância. A decisão tomada pelo ex-presidente permitiu que elas pudessem se credenciar para oferecer cursos de graduação e de pós-graduação lato sensu (especializações e MBAs) na modalidade sem que precisassem, simultaneamente, oferecer algum curso presencial. Até então, essa era uma exigência do MEC.

O governo também flexibilizou a abertura de polos de ensino. Anteriormente, o MEC precisava visitar cada um deles, o que tornava o processo lento. Depois do decreto, o ministério passou a fazer a avaliação dos cursos apenas na sede da instituição que os oferecia.

A expansão do setor privado

Das 7,1 milhões de vagas de graduação a distância abertas em 2018, 7 milhões foram no setor privado e apenas 113 mil no público. De 1,3 milhão de inscrições na modalidade naquele ano, 95% eram em instituições privadas de ensino. O Censo do Ensino Superior revelou ainda uma concentração em apenas cinco grupos empresariais privados, que têm mais de 50% dos alunos.

23,4%

dos matriculados na graduação a distância em 2018 cursam pedagogia, o mais procurado na modalidade

11,4%

fazem administração de empresas, o segundo curso na modalidade a distância com mais inscritos

O que atrai os estudantes no ensino a distância

  • As mensalidades são mais baixas
  • Alunos conseguem conciliar com o trabalho
  • Cursos são oferecidos em locais distantes

A defesa do modelo

Educadores costumam ressaltar a capacidade de inclusão do ensino a distância. Ao jornal Folha de S.Paulo a conselheira da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância) Josiane Tonelotto afirmou que a modalidade “vai incluir o aluno que não estaria no ensino superior e encontra a chance de estudar”.

O especialista em ensino a distância João Vianney afirmou ao jornal O Globo que a explicação para o avanço da modalidade está na crise econômica. “Os cursos de EAD [ensino a distância] são em média 70% mais baratos que os da educação presencial. Num país com economia estagnada, a opção da população é pela mensalidade mais barata. Além disso, a EAD leva o acesso a uma ampla gama de cursos em cidades pequenas e médias”, disse.

Ao mesmo jornal, o presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, Celso Niskier, afirmou que o crescimento da modalidade mantém o equilíbrio econômico das instituições de ensino. “Acredito que estamos estamos caminhando para uma educação com a combinação de presencial e EAD. É uma realidade que veio para ficar e para qual as particulares vão precisar se adaptar”, afirmou.

Os problemas da modalidade

Os cursos de graduação a distância obtiveram notas piores do que os presenciais no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) de 2017, que dá notas de 1 a 5, do pior para o melhor.

Apenas 2,4% dos cursos a distância conquistaram a melhor nota (5) no exame, enquanto 6,1% dos presenciais atingiram a pontuação. Em relação à pior nota, 6,3% dos cursos a distância obtiveram 1. A proporção de cursos presenciais com essa mesma pontuação ficou em 4,9%.

A evasão nos cursos a distância também é maior. Em 2018, 36,5% dos estudantes desistiram, enquanto a taxa ficou em 26,5% nos presenciais.

Uma visão sobre o tema

O Nexo conversou com o professor titular da Faculdade de Educação da UFBA (Universidade Federal da Bahia) Nelson de Luca Pretto sobre as implicações da expansão do modelo.

Quais as consequências do avanço da educação a distância?

NELSON DE LUCA PRETTO A educação a distância em si é algo muito importante e precisa ser tomada com muito carinho. É uma grande possibilidade de formação num país enorme como o nosso e com possibilidade de, efetivamente, transformar o processo de formação em algo mais rico. O problema, como em todo sistema educacional, é que muitas dessas soluções adotadas, seja na educação a distância ou na presencial, não respeitam qualidades mínimas de educação. Quando se observa o grande crescimento desses grupos empresariais que estão tomando conta da educação superior e do ensino básico privado, a gente tem um problema sério. A educação não pode ser tratada como mercadoria. Essa lógica de mercantilização da educação tomou conta do sistema presencial e do sistema a distância. E começa a aparecer problema de toda natureza. Uma educação a distância que em muitos casos se transforma em mero treinamento para determinadas habilidades e também uma ausência de uma formação crítica, desconfiada, de um cidadão. 

A falta de formação crítica tem a ver com o modelo a distância?

NELSON DE LUCA PRETTO Não, automaticamente, não. A questão central é que isso pode se dar tanto presencialmente quanto a distância. O que precisamos no a distância é impor um pouco de mais cuidado. Se no presencial, que tem essa relação mais próxima entre professor, aluno e coletivo, já é difícil de ver se isso acontece, a distância, em que muitas vezes o estudante fica abandonado do outro lado, a coisa fica mais complicada. O que termina acontecendo é que se constitui uma desresponsabilização do Estado com a formação. Se chega como estudante numa universidade, vai encontrar uma rede de computadores, bibliotecas, espaço para se encontrar com colegas e professores e tudo isso, na educação a distância, é transferido para o usuário. Por isso que é importante a ideia dos polos fortalecidos, que correspondam a presença simbólica e real da universidade naquela região. 

Em quais casos o ensino a distância pode ser explorado da melhor forma?

NELSON DE LUCA PRETTO Em formação profissional a educação a distância é possível, viável e interessante. Mas se pensamos em graduação para o campo da formação de professores, com números altos no ensino a distância [os cursos de pedagogia são os mais procurados na modalidade], precisamos de professores que tenham capacidade de interagir em todos os campos, formação universitária, vivência num espaço de ensino, extensão e pesquisa. É importante que sejam cursos consolidados dentro da universidade que considere isso um tripé fundamental da sua existência.

ESTAVA ERRADO: Os dados sobre o desempenho dos cursos de graduação a distância e presenciais publicados na primeira versão deste texto são do Enade de 2017, e não de 2018. O texto foi corrigido às 16h25 de 21 de outubro de 2019.

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