Ir direto ao conteúdo

O livro que influencia a visão ambiental do governo

Usadas por ruralistas e políticos há décadas, ideias de autor mexicano sobre suposta “máfia verde” de ONGs ficaram mais próximas do poder desde a chegada de Jair Bolsonaro à presidência

     

    “(..) uma complexa rede de poderosos interesses supranacionais que criaram, financiam e manipulam o movimento ambientalista-indigenista internacional, como arma política para dividir e obstaculizar o desenvolvimento soberanos de países como o Brasil, dotados de importantes recursos naturais, para exercer controle sobre o uso de tais recursos...”, afirma o início da 12ª edição do livro “Máfia Verde - O Ambientalismo a Serviço do Governo Mundial”, de Lorenzo Carrasco, Silvia Palacius e Geraldo Luís Lino, publicada em 2017.

    A argumentação é parecida com o que costumam defender o presidente Jair Bolsonaro, alguns de seus ministros e militares brasileiros, em falas que enfatizam a ameaça de “interesses externos” à Amazônia.

    Em seu pronunciamento na 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro, Bolsonaro declarou que líderes indígenas, “como o Cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”. No mesmo discurso, afirmou que “rechaçamos as tentativas de instrumentalizar a questão ambiental ou a política indigenista, em prol de interesses políticos e econômicos externos, em especial os disfarçados de boas intenções”.

    Editada e organizada por Carrasco, a obra teve sua primeira edição em 2001. Passou a servir de referência teórica para políticos, militares e produtores rurais em temas como o desenvolvimento e a exploração de recursos da Amazônia e supostas ameaças à soberania da região. Embora a preocupação dos militares com a “internacionalização” na região seja antiga, a visão de que as ONGs seriam a ponta de lança desse objetivo é mais recente.

    Em 22 de agosto, em meio à crise diplomática entre o Brasil e a França decorrente da política ambiental do governo Bolsonaro, o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército e assessor do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), citou no Twitter o nome de Carrasco em uma lista de pessoas “que têm procurado trazer à luz a verdade sobre essas questões ambientais e indigenistas”.

    “Há influência estrangeira na Amazônia, totalmente desnecessária e nefasta”, disse o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, em maio de 2019. “As ONGs servem para esconder interesses. Há interesses estratégicos, econômicos, geopolíticos, tudo se mistura.”

    Em entrevista ao Nexo, autor de "Máfia Verde" admitiu que o mundo passa por uma crise ambiental, “mas não pelas causas que estão alegando”

    Nomes como o do investidor George Soros, a família banqueira Rothschild, o fundador da rede de televisão americana CNN Ted Turner e o príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth 2ª, entre outros, são citados em “Máfia Verde” como parte de um “conluio de interesses” global que usa o movimento ambientalista de fantoche.

    A penetração do trabalho do escritor foi relatada ao Nexo por fontes da área ambiental. Pesquisas na internet comprovam seu alcance. A obra é citada em sites ligados ao agronegócio e redes de apoiadores do governo. Seu autor aparece como palestrante e debatedor em eventos do setor agropecuário. Também já foi convocado a dar depoimentos em CPIs no Congresso, a convite de membros da bancada ruralista.

    Teorias da conspiração

    “Sempre vi esse livro nesse meio de produtores ou sindicatos rurais”, disse ao Nexo Rodrigo Junqueira, ambientalista da ONG brasileira ISA (Instituto Socioambiental). “Não sei se o presidente leu, mas certamente o conjunto de assessores dele leu. Eles acreditam piamente que existe essa estratégia internacional. Dá para ver isso quando [Bolsonaro] diz que as pessoas não querem a ‘porra da árvore’, mas o que está embaixo dela.”

    Segundo o ambientalista, são ideias que antes eram consideradas “meio ridículas”, mas que hoje são defendidas com orgulho. Entre defensores do meio ambiente, a obra era tida como “surreal”, na categoria das teorias da conspiração. Segundo ele, o livro nunca teve centralidade em discussões, mas acabou adotado por formadores de opinião entre pessoas “que não entendem o que uma sociedade civil faz”.

    Durante a reunião do G-20, em junho de 2019, o presidente Bolsonaro relatou à imprensa ter avisado o presidente francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel sobre a existência de uma “psicose ambientalista”. A frase é o título de um livro escrito por Bertrand Maria José de Orléans e Bragança, descendente da família real que ocupou o extinto trono brasileiro. A obra também “denuncia” a existência de complôs internacionais e esquerdistas por trás do movimento ambientalista.

    O livro de Carrasco também briga com o consenso científico a respeito das mudanças climáticas causadas pelo homem ao chamar o aquecimento global de “manipulação pseudocientífica”. Na ciência, a teoria de que a Terra aquece graças à ação do homem é rejeitada por uma minoria insignificante de pesquisadores. Na opinião de Carrasco, porém, a ciência “está dividida” quanto ao aquecimento global e os cientistas que defendem a teoria “recebem dinheiro de ONGs”.

    “Menos de 1 ou 2% alegam que [o aquecimento global] não existe. Outros acham que não é o ser humano que está por trás do aquecimento global. Por outro lado, mais de 95% concordam que está havendo sim uma mudança global do clima e as ações do homem estão por trás disso”, declarou André Ferretti, coordenador-geral do Observatório do Clima, em 2018, ao Nexo.

    “Não sei se o presidente leu, mas certamente o conjunto de assessores dele leu. Eles acreditam piamente que existe essa estratégia internacional. Dá para ver isso quando [Bolsonaro] diz que as pessoas não querem a 'porra da árvore'’, mas o que está embaixo dela.”

    Rodrigo Junqueira

    Ambientalista do ISA (Instituto Socioambiental)

    Ao Nexo, o escritor admitiu que existem “problemas de clima que se podem corrigir” e que o mundo passa por uma crise ambiental, “mas não pelas causas que estão alegando”. “O problema real é que há uma desigualdade social enorme. A miséria, a falta de saneamento, é a pior crise ambiental pelas políticas monetárias e financeiras sustentado pela nova ordem mundial”, disse. Segundo ele, o discurso ambientalista parte de uma perspectiva europeia. “É muito mais fácil falar que a crise é por causa dos combustíveis fósseis. Na África, o consumo desses combustíveis significa progresso. Querer reduzir isso diz respeito a uma realidade nórdica”.

    Para ele, o Brasil tem condições de impor sua própria agenda ambiental sem ficar isolado, pois é indispensável na economia mundial. “O mundo não pode se alimentar sem o Brasil”, defende. Na sua visão, quem está se isolando é a Europa, pois o eixo do desenvolvimento mundial está concentrado na Ásia.

    Processo do WWF

    Em 2000, a ONG ambientalista WWF (Fundo Mundial para a Natureza), fundada no Reino Unido em 1961, entrou na Justiça brasileira contra o MSIA (Movimento de Solidariedade Ibero-Americana), entidade co-fundada por Carrasco.

    Segundo a assessoria da WWF informou ao Nexo, “recorremos à Justiça para nos defender de uma campanha difamatória que se utilizava de inverdades contidas no livro ‘Máfia Verde’ e em outros materiais de comunicação”. Na ação, foi solicitada busca e apreensão de “materiais difamatórios (...) que atingiam a honra, imagem e bom nome da nossa organização”. A ONG acrescentou que “respeita a liberdade de expressão, mas não concorda com a disseminação de inverdades”.

    As conexões do autor

    Lorenzo Carrasco estudou arquitetura no México, mas não concluiu o curso. Atualmente, mora no Rio de Janeiro. Entre os livros que publicou estão “Máfia Verde: o ambientalismo a serviço do governo mundial”, “Máfia Verde 2: ambientalismo, novo colonialismo” e “Quem manipula os povos indígenas contra o desenvolvimento do Brasil”. Segundo declarou ao Nexo, as duas edições de “Máfia Verde” venderam, respectivamente, 23 mil e 13 mil cópias. 

    Em 1992, Carrasco e outros companheiros fundaram o Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIA), com sede no Rio de Janeiro. Segundo texto de apresentação trata-se de uma “entidade apartidária”. O MSIA aparece como responsável por uma série de folhetos publicados em diferentes épocas e que atacam a “agenda indigenista” e a “internacionalização da Amazônia”.

     

    No site do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, Lorenzo Carrasco é descrito como tendo sido “correspondente” da revista Executive Intelligence Review. A publicação foi fundada pelo ativista de extrema-direita americano Lyndon LaRouche, morto em fevereiro de 2019, aos 96 anos.

    Condenado por estelionato na década de 80, LaRouche passou cinco anos preso. Em 2000, fundou um movimento mundial da juventude com seu nome, uma iniciativa caracterizada como seita pela imprensa americana. A Executive Intelligence Review publicou artigo alegando que os ataques do 11 de setembro foram planejados dentro do governo americano, citado à época pelo governo iraniano.

    Ao Nexo, Carrasco afirmou que não recebe apoio financeiro de terceiros e que se mantém principalmente por meio da venda de livros. Segundo afirmou, sua editora também envia uma newsletter semanal chamada “Alerta científico-ambiental”, um serviço pago, para cerca de 400 a 500 assinantes. Perguntado se há pessoas ou órgãos do governo entre os que assinam, ele negou. Também disse que nunca prestou consultoria ao governo federal e não o faria porque isso poderia prejudicar a “credibilidade” que construiu.

    Muitos dos livros são vendidos nas palestras que realiza por todo o Brasil. De acordo com o autor, ele realiza em média 100 palestras por ano pelo país. Em muitas, garante que só recebe ajuda de custo. Em cada evento, entretanto, vende uma média de 50 livros. “Muitas vezes, mais que isso”, declarou.

    O que defende Carrasco

    Agenda mundial

    Com o fim da Guerra Fria, segundo o livro, a agenda em prol do meio ambiente e dos direitos indígenas passou a ser implementada por “poderes oligárquicos encastelados no eixo Washington-Nova York-Londres”, que teriam buscado instaurar “um regime global de limitações de soberanias” no qual países deveriam ficar sujeitos a um “governo mundial”.

    ‘Zoos humanos’

    Em cinco pontos do livro, esse termo é usado para se referir a terras indígenas, como no caso do Parque Yanomami, em Roraima. Lamentando o fim da política de integração dos indígenas criada pelo marechal Cândido Rondon em 1910, Carrasco acusa entidades como as ONGs de obrigarem indígenas a viverem segregados em “cruéis e enormes zoológicos humanos”.

    Roraima

    Carrasco dedica um capítulo inteiro ao estado da região Norte em que se encontram as Terras Indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol. Chamado “Roraima no centro da internacionalização da Amazônia”, o capítulo alega que o estado foi escolhido pela “oligarquia britânica” como campo de testes para o “desmembramento de nações” por meio do “indigenismo e do ambientalismo”. A criação da reserva ianomâmi teria sido a primeira etapa da agenda.

    Aquecimento global

    Em diferentes pontos do livro, a teoria de que a temperatura da Terra vem subindo graças à ação do homem é chamada de “fraude”, “falsa emergência” e “manipulação pseudocientífica”. Para o autor, o verdadeiro objetivo por trás da ideia de que o mundo precisa reduzir suas emissões é frear o progresso de países como o Brasil.

    Triplo A

    O plano de um corredor de preservação transnacional na Amazônia, elaborado por um ambientalista colombiano e discutido pelo governo daquele país, é chamado de “mirabolante iniciativa ambiental-diplomática”. Apesar de nunca ter sido oficializado pelo país vizinho, o projeto, para Carrasco, “foi a mais explícita tentativa daquele aparato intervencionista internacional para segregar um vasto território amazônico”.

    Carrasco no meio agro

    • Em julho de 2018, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) realizaram em Bel��m um encontro regional para tratar de “diversos temas relacionados ao desenvolvimento da região”. Carrasco deu uma palestra em que, segundo o site da Senar “abordou (...) o tema: ‘Amazônia e o cenário atual do mundo’”.
    • Em agosto do mesmo ano, Carrasco e o antropólogo Edward Luz  participaram de um debate na Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul), parte do encontro "Conflitos indígenas e o agronegócio em MS". Luz já mereceu nota de repúdio da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) por não expressar “a experiência e o saber acumulado pelos antropólogos brasileiros”.
    • Proferiu a palestra “Projeto nacional vs globalismo ambiental-indigenista” na edição 2019 do Congresso da Aviação Agrícola do Brasil, realizada entre 31 de julho e 1 de agosto. O evento foi organizado pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola.

    A participação do autor em CPIs

    • O autor de “Máfia Verde” já foi convidado diversas vezes para depor em CPIs no Congresso. Em março de 1991, ele participou da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Ameaça de Internacionalização da Amazônia e, em outubro de 1999, da CPI sobre Ocupação de Terras na Amazônia.
    • De acordo com Adriana Ramos, do ISA, o livro foi “o norte da primeira CPI sobre ONGs, promovida pelo senador Mozarildo Cavalcanti”, de Roraima, filiado então ao PPB (Partido Progressista Brasileiro), atual Progressistas. Carrasco participou como convidado em umas das reuniões da CPI, iniciada em 2001, e sua obra embasa argumentos apresentados nela. 
    • No ano de 2014, o deputado federal Paulo Cezar Quartiero (DEM-RR), solicitou uma audiência pública por meio da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados para discutir a retirada do Brasil da Convenção 169, da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que dispõe sobre povos indígenas. Carrasco foi um dos convidados a falar na audiência.
    • Em 2016, Carrasco depôs em uma CPI dedicada a investigar a Funai (Fundação Nacional do Índio) e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). A comissão, que contou com políticos da bancada ruralista, incluindo a então deputada Tereza Cristina (atual ministra da Agricultura), solicitou a quebra de sigilos bancários e fiscal do ISA e de duas pessoas ligadas à ONG. A CPI denunciava “aporte de recursos estrangeiros e públicos” ao ISA contra os “interesses nacionais”.

    Repercussão no Acordo de Paris

    Ambientalistas ouvidos pelo Nexo acreditam que as ideias de Carrasco quase levaram o Brasil a se retirar do Acordo de Paris. Em um texto publicado na época da conferência COP21, o autor mexicano havia declarado que a implementação do corredor Triplo A faria parte do acordo a ser assinado no encontro.

    Na publicação, ele cita o fato de que o presidente colombiano Juan Manuel Santos disse que iria aproveitar a conferência para discutir o assunto com outros líderes sul-americanos. Com isso, criou-se a notícia falsa de que o Triplo A faria parte dos termos do tratado ambiental. Nunca fez. A inverdade sobreviveu ao tempo, e foi ressuscitada por Bolsonaro como argumento para questionar a permanência do Brasil no acordo.

    "Você poderia buscar essas metas não estando em acordo nenhum. Por outro lado, o que está faltando a todos vocês (jornalistas) é buscar a verdade. O que realmente está por baixo desse acordo. O que eu sei, é que o triplo A está em jogo”, declarou o presidente à imprensa em outubro de 2018.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: