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Como as relações políticas de Irmã Dulce ajudaram sua obra

Religiosa canonizada pela Igreja Católica teve diálogo aberto com dezenas de políticos diferentes para buscar viabilizar seus projetos de assistência social

     

    A freira baiana Irmã Dulce será canonizada pela Igreja Católica no domingo (13) e vai se tornar a primeira santa mulher nascida no Brasil.

    A cerimônia religiosa, que será realizada pelo Papa Francisco, no Vaticano, contará com a presença de representantes dos três Poderes do Estado brasileiro. O vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), integrarão uma comitiva que vai viajar ao Vaticano para acompanhar a cerimônia. Ao todo, 22 parlamentares, de diferentes partidos, estarão presentes na solenidade.

    Conhecida por suas obras sociais de caridade, Santa Dulce dos Pobres, como será chamada, estabeleceu uma relação próxima à classe política e empresarial durante toda a sua vida.

    O diálogo com figuras de diferentes partidos e ideologias é um dos pontos explorados por “Irmã Dulce, a santa dos pobres”, biografia da religiosa lançada em agosto, assinada pelo jornalista Graciliano Rocha e publicada pela editora Planeta.

    “A ida de políticos de vários partidos à canonização de Irmã Dulce é muito coerente com quem ela foi em vida”, afirmou Rocha ao Nexo. “Na ditadura militar, ela sempre teve boas relações com os políticos do regime. Mas mesmo assim, entre 1964 e 1972, o principal auxiliar dela era Gerson Mascarenhas, um médico filiado ao partido comunista.” 

    Segundo Rocha, a religiosa insistia em se definir como apolítica, mesmo tendo mantido ligações com figuras do cenário político brasileiro. “Uma vez ela disse que o partido dela era a pobreza e que não gostava que políticos usassem seu nome para a política, porque isso atrapalhava suas obras sociais”, relatou o autor.

    De acordo com o biógrafo, que passou oito anos estudando a vida da freira, Irmã Dulce nunca aceitou participar de palanques nem pediu votos para qualquer político, além de ter tentado se afastar de mecanismos do governo. “O Waldir Pires, que foi ministro da Previdência no governo Sarney, tentou oferecer uma verba mensal para os projetos. Ela só aceitou quando o valor se tornou uma doação que não tivesse que se enquadrar em nenhum critério do governo”, afirmou Rocha.

    O contato com políticos e empresários

    A relação de Irmã Dulce com o meio empresarial remonta à década de 1930.

    À época, a religiosa trabalhava ao lado do frade alemão Hildebrando Kruthaup. Com ele, fundou em 1937 o Círculo Operário da Bahia (COB), uma rede de assistência social que auxiliava os operários de Salvador e suas famílias.

    Para angariar fundos para o Círculo Operário, o frade construía relacionamentos com as famílias mais ricas da Bahia. Três anos depois, Irmã Dulce, liderando o COB, recorreu a duas poderosas instituições empresariais do estado para pedir doações: o Instituto do Cacau e o Instituto do Fumo.

    Irmã Dulce também rodou as ruas de Salvador em busca de pequenos comerciantes que poderiam auxiliar a empreitada do Círculo Operário da Bahia. Houve situações em que a religiosa não foi bem-vinda, como o notório caso em que foi recebida por um feirante com uma cusparada na mão, episódio que chegou a ser retratado no filme “Irmã Dulce”, de 2014.

     

    Com a fundação da entidade Obras Sociais Irmã Dulce, em 1959, a participação de empresários não se limitou apenas a doações. Nomes como Norberto Odebrecht, fundador do Grupo Odebrecht, e Ângelo Calmon de Sá, ex-controlador do Banco Econômico, passaram pelas cadeiras da direção da instituição.

    O diálogo entre Irmã Dulce e a classe política se iniciou em 1948. À época, a religiosa pediu ao então presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) um repasse federal que seria usado na quitação da construção da sede do Círculo Operário Baiano. O pedido foi atendido um ano depois, com um aporte de oito milhões de cruzeiros, cerca de R$ 12 milhões nos valores atuais.

    Ao todo, a freira realizou seus projetos no governo de 20 presidentes, de regimes diferentes. Na maioria dos casos, a relação entre Irmã Dulce e os membros do Executivo era impessoal e focada na viabilização dos projetos sociais. A única exceção foi com o ex-presidente José Sarney (1985 -1990), com o qual a religiosa teve uma relação próxima.

    O biógrafo da freira relata que, após um encontro, Sarney entregou um número de telefone à Irmã Dulce que era uma linha direta com a sua mesa no Palácio do Planalto, sem o intermédio de secretários e assessores do então presidente.

    “Era um telefone para acionar o presidente somente em caso de crise gravíssima, só para ministros e pouquíssimos funcionários da Inteligência. A única pessoa fora desse círculo que tinha esse telefone era a Irmã Dulce”, disse.

    A biografia da freira conta que, em certa ocasião, Sarney, um católico praticante e admirador da religiosa, afirmou que daria qualquer coisa que Irmã Dulce pedisse. Posteriormente, a freira batizou um dos ambulatórios administrados pela Obras Sociais Irmã Dulce com o nome do ex-presidente.

    Outro episódio marcante envolveu Irmã Dulce e o General João Batista Figueiredo, o último presidente da ditadura. Em passagem pela Bahia, o militar, conhecido por sua sisudez, visitou um dos hospitais da freira e se emocionou ao ver cerca de 70 pacientes acomodados em um espaço que deveria ser reservado ao necrotério. Figueiredo prometeu que liberaria verbas federais para Irmã Dulce reformar o hospital.

    “O difícil foi ele cumprir a promessa. Levou mais ou menos 30 meses para isso acontecer”, disse Rocha. “Foi acontecer em 1982, quando ele voltou a Salvador. Ela virou para o Figueiredo e disse ‘Santo Antônio me falou que o senhor só entraria no céu se me ajudasse a ampliar o hospital’. E o Figueiredo, no estilo habitual dele, disse que arrumaria o dinheiro nem que tivesse que assaltar um banco, algo espantoso de se ouvir de um presidente da República.”

    Nas semanas seguintes, o governo de Figueiredo disponibilizou as verbas que foram requisitadas por Irmã Dulce.

    Esse diálogo aberto com diferentes figuras políticas e regimes é, segundo Rocha, uma evidência de que Irmã Dulce foi alguém que transcendeu o partidarismo, as ideologias e a própria Igreja Católica, aproximando-se de quem quer que pudesse auxiliar em sua causa social.

    Quem foi Irmã Dulce

    Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes nasceu em Salvador no ano de 1914. Filha de uma dona de casa e de um professor de odontologia, Irmã Dulce se mostrou devota católica desde a infância.

    A relação entre Irmã Dulce e a população carente de Salvador começou quando ela tinha 13 anos, época em que ela passou a acolher moradores de rua e doentes em sua casa. O local passou a ser conhecido como “Portaria de São Francisco”, em referência ao santo católico que devotou sua vida aos pobres.

    Por meio de obras sociais na área de saúde, assistência social, educação e pesquisa científica, Irmã Dulce se tornou uma das maiores filantropas brasileiras de todos os tempos, um trabalho que rendeu, em 1988, uma indicação ao prêmio Nobel da Paz, feita pelo ex-presidente José Sarney e apoiada pela rainha Sílvia, da Suécia.

    Irmã Dulce, também conhecida como “O anjo bom da Bahia”, morreu de causas naturais em sua residência no dia 13 de março de 1992, aos 77 anos de idade.

    O processo de santificação de Irmã Dulce começou no ano 2000. Ela se tornou beata em 2011, após a Igreja Católica reconhecer um milagre atribuído a ela, envolvendo a recuperação de uma mulher do estado do Sergipe que teve uma hemorragia durante o trabalho de parto. O título fez com que ela passasse a ser chamada de Bem-Aventurada Dulce dos Pobres.

    Em 2019, um segundo milagre foi reconhecido, pelo qual preces à religiosa teriam curado a cegueira de um homem do estado da Bahia. O reconhecimento do segundo milagre a tornou apta para a canonização, com a qual ela vai receber o nome de Santa Dulce dos Pobres.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão desta matéria dizia que o homem que teria sido curado da cegueira por Irmã Dulce não tinha sido identificado. Na verdade, se trata do maestro baiano José Mauricio Moreira, que conviveu com a deficiência por 14 anos. A informação foi corrigida às 18h30 do dia 15 de outubro de 2019

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