A saúde mental de profissionais da música eletrônica

Depois do suicídio do DJ sueco Avicii, tema ganhou urgência na área. Guia traz informações sobre sinais, sintomas e auxílio direcionadas para DJs, produtores e outros profissionais

     

    Questões de saúde mental vêm ocupando centralidade no meio musical em anos recentes. Artistas, profissionais da música e pesquisadores se debruçam sobre as consequências de um trabalho que inclui uma constante demanda por desempenho, horários pouco convencionais e, não raro, uso frequente de álcool e drogas. Má alimentação e instabilidade financeira também podem fazer parte da equação.

    Na música eletrônica não tem sido diferente. A morte do DJ sueco Avicii, aos 28 anos, em 2018, impôs urgência ao assunto no meio. Tim Bergling, seu nome verdadeiro, foi encontrado morto em um quarto de hotel em Muscat, Omã. Uma declaração da família indicou que Avicii havia se suicidado, perturbado pelo estresse e exaustão de uma vida de longas turnês e muito trabalho.

    “Em meus 40 anos percorrendo o mundo, não consigo pensar em uma única pessoa de sucesso que não tenha pago um preço pessoal em saúde, relacionamentos, divórcio, lares desfeitos, dependência, depressão e ansiedade”, afirmou o DJ e radialista britânico Pete Tong, dono de um importante programa de lançamentos musicais na BBC Radio 1. A frase abre o “Guia da Indústria da Música Eletrônica para a Saúde Mental”, lançado no Reino Unido na quinta-feira (10), Dia Mundial da Saúde Mental.

    “Vivemos em um mundo estranho, onde muitas vezes você precisa se vender de forma agressiva enquanto tenta permanecer ‘autêntico’”

    Trecho do "Guia da Indústria da Música Eletrônica para a Saúde Mental"

    O guia é apresentado por quatro entidades, incluindo a Associação para a Música Eletrônica (The Association for Electronic Music), o Fórum dos Empresários de Música (Music Managers Forum) e duas ONGs de apoio a músicos, Music Support e Help Musicians UK.

    De acordo com estatísticas de uma pesquisa realizada no Reino Unido pela Help Musicians UK, 71,1% dos músicos sofreram com ansiedade e/ou ataques de pânico e 68,5% tiveram um ou mais episódios de depressão ao longo da carreira.

    O objetivo da publicação é trazer informações básicas sobre sinais, sintomas e auxílio direcionadas para DJs, produtores e outros profissionais da música eletrônica. Além disso, o projeto busca reforçar a ideia de que problemas mentais são comuns e precisam ser comunicados. A seguir alguns trechos do guia:

    Depressão

    “Muitas pessoas vulneráveis a dificuldades psicológicas são atraídas pela música como uma maneira de expressar, processar e transcender suas dificuldades emocionais. Embora a indústria da música seja uma comunidade que pode oferecer um lugar de pertencimento, ela também pode ser imprevisível e competitiva. Muitos empresários trabalham sozinhos, sem contar com uma equipe de recursos humanos, departamentos de saúde ocupacional e o apoio de colegas. Isso significa trabalhar com uma população mais propensa a sofrer dificuldades emocionais, em um ambiente que pode ser altamente estressante. Muitas pessoas sofrem sozinhas e em silêncio.”

    Dependência em álcool ou drogas

    “O uso de álcool e drogas tende a ser mais aceitável no 'ambiente de trabalho' da música, porque nossos escritórios geralmente incluem festivais, bastidores, conferências, clubes, bares e ônibus de excursão. O horário comercial não segue os limites convencionais e grande parte das negociações se baseia em relacionamentos feitos em ambientes sociais. Isso pode aumentar a pressão ou a facilidade de usar substâncias e é simplesmente parte da indústria.”

    Síndrome de impostor

    “Vivemos em um mundo estranho, onde muitas vezes você precisa se vender de forma agressiva enquanto tenta permanecer ‘autêntico’ - você pode achar que precisa ser perfeito e tomar todas as decisões certas de saída. Isso significa que há uma grande probabilidade de você se sentir uma fraude quando não consegue cumprir esses padrões impossíveis. Você provavelmente também se sente insatisfeito mesmo quando o trabalho é bem feito - como se não merecesse o reconhecimento ou estivesse apenas 'no lugar certo na hora certa'. Sucesso não significa felicidade.”

    Os DJs e a depressão

    Na declaração emitida após a morte de Avicii, sua família descreveu o DJ como “uma frágil alma artística procurando por respostas a questões existenciais (...) Quando ele parou de excursionar, ele queria encontrar um equilíbrio na vida para ser feliz e fazer o que mais amava – música. Ele teve muita dificuldade em lidar com pensamentos sobre sentido, vida, felicidade. Ele não conseguia seguir em frente. Queria encontrar paz”.

    De acordo com o site TMZ, citando fontes familiares, Avicii tirou a própria vida se cortando com cacos de vidro. Em anos anteriores, ele vinha tendo problemas com alcoolismo. Em 2016, foi acometido de uma pancreatite, que estaria relacionada a seu estilo de vida de excessos. Avicii parou de excursionar nessa época.

    “Você está viajando por aí, morando na mala, você chega nesse lugar, tem álcool de graça em toda parte — é até estranho se você não beber”, ele declarou à revista GQ. Avicii foi um dos DJs mais bem-sucedidos da década de 2010. Seus hits acumulam centenas de milhões de execuções, como “Levels”, de 2012, que já ultrapassou 450 milhões de plays no YouTube.

    Em setembro, a revista especializada britânica DJ Mag afirmou, em reportagem de capa, que “saúde mental é a questão mais urgente da música eletrônica”. Segundo a matéria, além de palestras e discussões, diversos festivais de música estão implementando áreas de bem-estar, com profissionais e recursos, para público e artistas.

    O DJ brasileiro Alok revelou em setembro de 2019 que enfrentou problemas de saúde mental, uma vez aos 12 anos. "Eu já passei pela depressão duas vezes. É muito difícil explicar: é como eu tentar explicar para alguém qual o gosto do amargo, sendo que elas nunca experimentaram algo amargo. É algo que só quem passa, sente. O primeiro ponto da depressão é reconhecer que você tem", afirmou.

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