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Tokarczuk e Handke: quem são os vencedores do Nobel de Literatura

Premiação, que deixou de ser realizada em 2018 devido a escândalos de assédio sexual e corrupção, laureou dois autores europeus. O ‘Nexo’ falou com seus editores no Brasil e selecionou trechos de suas obras

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Excepcionalmente, a Academia Sueca anunciou nesta quinta-feira (10) dois vencedores para o prêmio Nobel de Literatura. A autora Olga Tokarczuk, polonesa, e o austríaco Peter Handke são, respectivamente, os laureados de 2018 e 2019.

Tokarczuk é romancista, ensaísta e intelectual pública de seu país, e uma crítica contumaz do governo de extrema direita da Polônia. Ganhou reconhecimento fora de seu país com o livro “Flights”, ganhador do Prêmio Internacional Man Booker em 2018. A editora Tinta Negra publicou a obra no Brasil em 2014, sob o título “Os vagantes” – a edição, no entanto, está esgotada. Outro título da autora, “Sobre os ossos dos mortos”, deve ser lançado no país em novembro de 2019, pela Todavia.

O ganhador de 2019, por sua vez, já foi mais publicado no Brasil. “Don Juan (narrado por ele mesmo)”, publicado em 2007, e “A perda da imagem: ou através da Sierra de Gredos”, de 2009, ambos pela Estação Liberdade; e ainda “Peças Faladas”, uma coletânea lançada em 2015 pela editora Perspectiva. Os três ainda estão disponíveis. Dramaturgo e romancista, Handke também é conhecido por ser um parceiro criativo do cultuado diretor alemão Wim Wenders: é coautor do roteiro de “Asas do desejo” (1987) e autor do livro homônimo que inspirou “O medo do goleiro diante do pênalti” (1972) – cujo roteiro também assina.

Handke foi muito criticado por escritores e intelectuais por ter negado o genocídio de bósnios muçulmanos promovido pelos sérvios durante a Guerra da Bósnia (1992-1995). Em 2006, discursou no funeral do ex-presidente sérvio Slobodan Milošević, acusado de crimes contra a humanidade, genocídio e crimes de guerra.

O Nobel de Literatura, que é atribuído desde 1901, só não havia sido entregue em 1914, 1918 e entre 1940 e 1943, anos em que transcorriam as duas Guerras Mundiais. Incluindo Tokarczuk, apenas 15 autoras receberam o Nobel de Literatura, contra 114 homens, contando Handke. 

Crise e mudanças

O anúncio em dobro ocorre porque entrega do prêmio não foi feita em 2018, devido a acusações de assédio sexual contra o fotógrafo francês Jean-Claude Arnault. Ele administrava uma fundação cultural que recebia fundos da Academia Sueca e era casado com a poeta Katarina Frostenson, que é membro da instituição. Arnault também foi acusado de vazar nomes de vencedores do Nobel de Literatura.

Em novembro de 2017, no contexto da campanha internacional #MeToo, 18 mulheres acusaram Arnault de assédio sexual. Entre as autoras da denúncia estavam integrantes da própria instituição cultural gerida por ele. Em outubro de 2018, ele foi condenado a dois anos de prisão por ter estuprado uma mulher em 2011. Atualmente, está preso.

Após o escândalo, uma remodelação interna foi feita na tentativa de resgatar o prestígio da premiação. Alguns dos protagonistas da crise enfrentada em 2017 e 2018 renunciaram, o que não era possível antes – as cadeiras eram vitalícias.

No início de outubro de 2019, o presidente do Comitê do Nobel de Literatura Anders Olsson declarou que o critério de escolha dos premiados mudou.

“Agora estamos olhando para o mundo inteiro. Precisamos ampliar mais e mais nossa visão. Antes tínhamos uma perspectiva mais eurocêntrica da literatura”, disse, reconhecendo também que as escolhas privilegiaram escritores homens. Ainda assim, a Academia premiou dois autores europeus em 2019.

Os autores em trechos e comentários de editores

Ao Nexo o editor da Todavia Leandro Sarmatz afirmou que a publicação de “Sobre os ossos dos mortos”, de Olga Tokarczuk, “foi uma aposta no que de melhor é produzido na literatura contemporânea”. A editora também deve lançar uma nova edição de “Flights” em breve, cujo título provisório é “Viagens”.

Para ele, a mistura de thriller com sátira social de “Sobre os ossos dos mortos” é a porta de entrada ideal para a obra da escritora.

“Nestes dois livros [publicados pela Todavia], e em outros da autora, a observação crítica sobre a condição contemporânea e uma visão irônica sobre nossas grandes questões vêm a reboque de uma escrita envolvente e humana”, diz o editor.

Sarmatz destaca a voz inquieta e crítica de Tokarczuk e a diversidade de sua obra. Seus livros são muito distintos entre si e vão do romance ao ensaio, “passando por todas as variações nesse espectro: a narrativa de viagens, o romance histórico, o thriller, a sátira, a observação contemporânea”.

“Esse hibridismo formal, essa visão sobre temas de hoje – autoritarismo, especismo, envelhecimento –, aliados a uma escrita que sempre toma o partido do prazer do texto, fazem da autora um nome incontornável”, diz.

O júri do Nobel justificou a escolha pela “imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida”. Tokarczuk “nunca vê a realidade como algo estável ou eterno, mas constrói seus romances em uma tensão entre opostos culturais: natureza versus cultura, razão versus loucura, homem versus mulher, familiar versus alheio”.

“Precisei me sentar e repetir algumas vezes para mim mesma: estou em casa, é noite, alguém está batendo na porta, e só então é que consegui controlar os nervos. Enquanto procurava os chinelos no escuro, podia ouvir que aquele que tinha batido agora circundava a casa, murmurando. No térreo, na caixa do relógio de luz, guardo gás de pimenta que ganhei de Dionísio por causa dos caçadores ilegais. Foi justamente nele que pensei agora. Consegui achar na escuridão o formato frio e familiar do aerossol e, assim armada, acendi a luz do lado de fora”

Olga Tokarczuk

trecho do primeiro capítulo de ‘Sobre os ossos dos mortos’

Definido como um autor teatral de extrema importância por Gita Guinsburg, diretora editorial da Perspectiva, Peter Handke fez parte do Grupo 47, um movimento cultural dos anos 1960 que desejava revolucionar a literatura alemã no pós-guerra.

Handke foi escolhido pelo Nobel por seu “trabalho influente que explorou, com engenhosidade linguística, a periferia e a especificidade da experiência humana”.

“As peças têm, de um lado, um poder subjetivo e de outro, revolucionário”, disse Guinsburg ao Nexo.

“Vocês não verão nenhum espetáculo.Suas curiosidades não serão satisfeitas.Vocês não verão nenhuma peça.Não haverá aqui nenhuma representação.Vocês verão um espetáculo sem cenas.(…)

Vocês não estão assistindo a uma peça de teatro. Vocês não estão assistindo. Vocês são o ponto focal. Vocês estão no fogo cruzado. Vocês estão sendo inflamados. Vocês podem pegar fogo. Vocês não precisam de um padrão. Vocês são o padrão. Vocês têm de ser descobertos. Vocês são a descoberta da noite. Vocês nos inflamam. Nossas palavras pegam fogo no contato com vocês. De vocês, lança-se uma faísca sobre nós”

Peter Handke

‘Insulto ao Público’, texto de 1966 que faz parte do livro ‘Peças faladas’, publicado pela Perspectiva

Ao Nexo o diretor editorial Angel Bojadsen, da Estação Liberdade – editora que também publica o autor no Brasil –, destaca outro aspecto de sua obra: uma análise aprofundada do ato de escrever, que aparece também nos romances, além dos textos teatrais.

Bojadsen cita, entre os livros mais importantes de Handke, “Breve carta para um longo adeus” e “A mulher canhota”, publicados no Brasil na década de 1980 pela editora Brasiliense. Pela Estação Liberdade, serão lançados em breve o romance “A noite moraviana” e toda a série de ensaios do autor, começando por “Ensaio sobre o maníaco dos cogumelos”.

 

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