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Como a ofensiva da Turquia iguala curdos ao Estado Islâmico

Após recuo dos EUA, Erdogan ataca grupo na fronteira com a Síria e embaralha os atores de um conflito que pode recrudescer

     

    O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ordenou na quarta-feira (9) o início de uma ofensiva militar do lado sírio da fronteira com a Turquia, região ocupada pela população curda. Pelo menos 16 pessoas foram mortas e 33 ficaram feridas nas primeiras 48 horas de combates. Centenas de civis deixaram suas casas, e organizações internacionais temem uma emergência humanitária na região.

    A ofensiva de Erdogan teve início dois dias depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter recuado as forças americanas estacionadas na zona de fronteira entre a Síria e a Turquia, abrindo passagem para o avanço turco.

    Esse movimento casado – de recuo dos EUA e de avanço da Turquia – marca uma mudança estrutural no conflito que ocorre desde 2011 na Síria.

    Ao dar um passo atrás, Trump deixou seus aliados curdos desguarnecidos, num gesto que foi percebido inclusive por políticos republicanos, do mesmo partido do presidente, como uma ingratidão da Casa Branca em relação a uma minoria curda que, até pouco tempo atrás, vinha arriscando a vida pelos americanos contra o Estado Islâmico.

    Já Erdogan não faz distinções. Para ele, curdos e membros do Estado Islâmico são igualmente terroristas que precisam ser derrotados à força. A afirmação foi feita pelo presidente em mensagem publicada logo após o início dos ataques de quarta (9).

    As Forças Armadas da Turquia “acabam de lançar a Operação Primavera da Paz contra o PKK [sigla em curdo do Partido dos Trabalhadores do Curdistão], o YPG [Unidades de Defesa Popular, milícia curda que atua na Síria] e os terroristas do Daesh [Estado Islâmico] no norte da Síria. Nossa missão é impedir a criação de um corredor terrorista em nossa fronteira sul, e trazer paz para a região”, diz a mensagem de Erdogan.

    Esse deslocamento dos curdos, que saem do campo dos combatentes aliados dos EUA para o campo dos “terroristas”, junto com o Estado Islâmico, não é novo no vocabulário do presidente turco. A novidade está no fato de os EUA referendarem uma ação política e militar que, na prática, sela o destino dos curdos com base nessa definição.

    Quem é quem

    Quem são os curdos

    Entre 25 milhões e 40 milhões de curdos constituem a maior população sem Estado do mundo. Vivem espalhados por uma área de 500 mil quilômetros quadrados que abrange partes de Síria, Irã, Iraque, Turquia e Armênia. Sua luta por autonomia se choca com o discurso de unidade nacional da Turquia e de outros países da região. Tiveram papel decisivo no enfrentamento ao Estado Islâmico.

    O que é o Estado Islâmico

    Grupo terrorista fundado no Iraque em 1999, que migrou para a Síria a partir de 2011, ocupando parte do território desses dois países, a partir dos quais formou militantes empenhados em executar ataques terroristas contra o que o grupo classifica como inimigos da fé islâmica.

    Por que Erdogan considera os curdos um problema

    Para o presidente turco, a demanda de maior autonomia dos curdos é perigosa para a integridade territorial de seu país. Ele teme que, com língua e cultura próprias, e com uma Força Armada bem treinada e equipada, os curdos possam tomar um pedaço da Turquia.

    Em agosto de 2016, Erdogan atribuiu aos curdos um atentado a bomba que deixou oito mortos em duas explosões simultâneas, em Diyarbakir e em Kiziltepe, no leste do país. Outra ação do tipo repetiu-se em setembro de 2019, na mesma província de Diyarbakir, deixando sete mortos.

    O presidente turco atribui as ações a membros do PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que segundo ele é uma sigla que abriga terroristas. O grupo assume a autoria dos ataques.

    Erdogan avança agora contra os curdos em duas frentes simultâneas. A primeira é militar. Com ataques aéreos e uma incursão terrestre, ele pretende empurrar os curdos à força para dentro do território sírio.

    A segunda estratégia é demográfica. O presidente turco pretende transferir 3,6 milhões de refugiados sírios para uma “zona de segurança” a ser criada na faixa de fronteira reivindicada pelos curdos, onde ocorrem as operações militares agora.

    Como Trump mudou o discurso quanto aos curdos

    O gesto de Trump em favor da Turquia e contra os curdos não foi bem compreendido nem mesmo pelos seus companheiros do Partido Republicano. A incompreensão, que já era grande com o recuo militar em si, tornou-se ainda maior depois que Trump ameaçou “obliterar a economia da Turquia” [fazer desaparecer, liquidar] caso Erdogan faça algo “fora dos limites”.

    “Não é claro o que a Turquia teria de fazer para levar os EUA a responderem, nem tampouco o que essa resposta alcançaria”

    Adam Taylor

    analista de política internacional do jornal americano The Washington Post, em artigo no dia 10 de outubro de 2019

    A fala do presidente americano pareceu contraditória com o gesto, da véspera, de abrir passagem paras as tropas de Erdogan. Dois dias depois, quando a ofensiva turca teve início, Trump voltou a falar do tema, causando perplexidade.

    O presidente dos EUA disse entender a luta dos curdos por terras, mas deu a entender que não pode fazer mais nada por eles. “Eles não nos ajudaram na Segunda Guerra Mundial [1939-1945], não nos ajudaram na Normandia”, disse o presidente americano na quarta-feira (9), citando o desembarque de forças aliadas no litoral da França em junho de 1944.

    Mais uma vez, a declaração do presidente americano provocou perplexidade não apenas entre seus opositores, mas também entre alguns de seus correligionários, preocupados sobretudo com o destino de prisioneiros do Estado Islâmico, de diversas nacionalidades, que vinham sendo guardados pelas forças curdas na Síria e, com a mudança na dinâmica do conflito, podem ser soltos ou escapar.

    Para os EUA, o partido curdo PKK é uma organização terrorista. Essa definição não impediu, no entanto, que por anos os americanos armassem e treinassem milícias curdas na Síria quando a prioridade era derrotar o Estado Islâmico.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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