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O novo Dungeons & Dragons. E a cena do RPG no Brasil

Quinta edição do jogo de interpretações de papéis chega ao Brasil. País tem mercado aquecido, segundo especialista

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    Em 1974, uma dupla de americanos lançou pela primeira vez um jogo de RPG no mercado. Quarenta e cinco anos depois, “Dungeons & Dragons” atinge sua quinta edição no Brasil, depois de ter virado um desenho animado de sucesso (“Caverna do Dragão”) e ter seus direitos vendidos para o cinema (a previsão de estreia é 2021).

    A nova versão de “Dungeons & Dragons” chegou ao Brasil pela Galápagos Jogos, no final de setembro, cinco anos depois de ser publicada nos Estados Unidos. O jogo ganhou uma legião de fãs em todos os cantos do planeta e está presente no repertório da cultura pop contemporânea, em séries como “The Big Bang Theory” e “Stranger Things”. A fórmula do sucesso: proporcionar a experiência analógica de viajar por um mundo fantástico, repleto de masmorras e dragões.

    O que é RPG

    RPG é a sigla para Role-Playing Game - traduzindo a grosso modo, um jogo de interpretação de papéis. O RPG é composto por diversos sistemas, títulos que trazem regras e ambientações diferentes: “Dungeons & Dragons” é inspirado em épicos de fantasia medieval; “Cyberpunk 2020” se passa em um futuro distópico e tecnológico; “Call of Cthulhu”, por sua vez, tem como fundo o universo de terror criado pelo escritor H.P. Lovecraft.

    Mesmo com vários jogos diferentes, a base para o RPG é a mesma: os jogadores criam personagens, suas personalidades e histórias prévias, e a partir daí atribuem a eles habilidades e características pré-determinadas por cada jogo.

    Ao mesmo tempo, há a figura do Mestre, um cargo assumido por algum dos jogadores. O Mestre é o responsável por conduzir a aventura na qual seus companheiros irão embarcar, podendo criar uma história original, ambientada naquele universo, ou usar uma escrita por terceiros.

    O Mestre apresenta a ambientação da aventura, o cenário no qual os jogadores estão postos, e coloca os personagens em alguma situação que demanda decisões. Ao se colocar na pele do personagem, o jogador tem que tomar decisões para fazer a trama avançar: para determinar o sucesso de uma decisão, rolam-se os dados. A partir do resultado, o Mestre guia a aventura para um ou outro caminho.

    Imagine um grupo de aventureiros que estão em um castelo abandonado. Eles encontram uma porta trancada. Cabe aos jogadores decidirem se querem tentar abri-la ou não. Caso eles optem pela tentativa, rolam-se os dados e com o resultado o Mestre determina se houve sucesso na ação.

    No RPG, além dos tradicionais dados de seis faces, existem dados de quatro, oito, 10, 12 e 20 lados, com os algarismos correspondentes. É com o resultado desses dados que os desfechos das ações dos jogadores são determinados pelo Mestre.

    O conceito de vitória não existe no RPG, já que o propósito do jogo é apenas vivenciar a aventura apresentada pelo Mestre, histórias que podem se estender por várias sessões de jogatinas ou até mesmo anos.  Nesse caminho, imprevistos podem ocorrer e personagens podem até mesmo morrer pelo resultado de suas decisões.

    ‘D&D’: A inauguração de um gênero

    As raízes do RPG remontam ao milenar jogo de xadrez e outros jogos de estratégia.  Porém, o gênero só surgiu oficialmente nos anos 1970, com o lançamento do primeiro “Dungeons & Dragons”.

    A história de “D&D” começou em 1971, quando o americano Gary Gygax criou “Chainmail”, um jogo de tabuleiro de combate e estratégia ambientado na Idade Média. Naquele mesmo ano, Dave Arneson, um amigo de Gygax, teve a ideia de usar as regras de “Chainmail” para elaborar uma aventura ambientada em um cenário de fantasia inspirado em “O Senhor dos Anéis”.

    Unindo esforços, a dupla começou a esboçar “Dungeons & Dragons” em 1973. O jogo foi lançado no ano seguinte e, em 17 meses, seus três livros de regras, base para começar o jogo,  tiveram 2 mil unidades  vendidas nos EUA - um número significativo para um tipo de jogo que era inédito até então.

    A cada nova edição, regras são alteradas e novas mecânicas de jogo são acrescentadas.

    “D&D” chegou ao Brasil oficialmente pela primeira vez em 1993. Antes disso, entusiastas de RPG se aventuravam com o sistema por meio de cópias feitas a partir dos livros de regras publicados nos EUA ou em Portugal.

    ‘Tormenta’: um fenômeno nacional

    A popularização do RPG fez com que surgissem sistemas 100% nacionais. “Tormenta”, publicado pela editora Jambô, é o mais antigo ainda em atividade.

    Prestes a completar 20 anos de existência, “Tormenta”, que traz um cenário de fantasia medieval, terá uma edição comemorativa, com entrega prevista para janeiro de 2020,  produzida a partir de um financiamento coletivo: a meta original era de R$ 80 mil. Ao final da campanha, que aconteceu entre maio e julho de 2019, o projeto tinha arrecadado R$ 1,9 milhão.

    “Foi uma surpresa ter alcançado quase R$ 2 milhões, mas a gente tinha uma ideia de potencial bem alto”, afirmou ao Nexo Guilherme Dei Svaldi, um dos editores da Jambô. “Nós temos noção de quão grande é o público de ‘Tormenta’. Temos dados de vendas, comparecemos a eventos, nós sabemos a força da comunidade de jogadores”, disse.

    Segundo Dei Svaldi, antes de terem a força que têm, os jogadores de “Tormenta” sofreram preconceito da própria comunidade de RPG. “Antigamente, lá no começo dos anos 2000, quem jogava ‘Tormenta’ era visto quase como uma subclasse de jogador, o pessoal tirava sarro”, disse. “Existe uma tendência a supervalorizar o que vem de fora, como o próprio ‘D&D’”, afirmou.

    Além do sistema de RPG, “Tormenta” se desdobrou em quadrinhos e livros derivados, ambientados no universo do jogo. O catálogo da editora conta com 21 HQs e oito livros, divididos entre romances e coletâneas de contos. De acordo com Dei Svaldi, as publicações são queridas pelos públicos, e parte importante da editora.

    “Muita gente acompanha ‘Tormenta’ pela história e nem joga. Numa escala muito menor, obviamente, é como ‘Star Wars. A diferença é que, como temos o RPG, o leitor pode interferir e mudar os rumos daquela história”, afirmou.

    RPG nas telas e nos fones

    A evolução tecnológica trouxe avanços para os entusiastas de RPG. Por meio de aplicativos, jogadores agora podem embarcar em suas aventuras mesmo sem compartilhar o mesmo espaço físico.

    As gameplays -- vídeos ou podcasts com pessoas jogando um determinado game -- , também ganharam força no RPG nos últimos anos. Nos EUA, um expoente é o canal de YouTube Critical Role, que conta com 650 mil inscritos. Nos programas, que muitas vezes duram mais de três horas, os apresentadores jogam uma aventura de RPG do começo ao fim.

    No Brasil, a equipe por trás de “Tormenta” criou o programa “Guilda do Macaco”, no qual jogam o RPG ao vivo no YouTube e que já atingiu cerca de 40 mil visualizações. O site Jovem Nerd produz, anualmente, um episódio especial do podcast “Nerdcast” no qual seus apresentadores embarcam em uma aventura de RPG totalmente sonorizada. Os episódios dos “Nerdcasts” de RPG já superam a marca dos 23 milhões de downloads.

    “O RPG soube se modernizar”, afirmou Dei Svaldi. “Em vez de lutar contra as novas mídias, o RPG soube abraçá-las. O âmago do RPG é completamente analógico, é um jogo em que as pessoas conversam para contar histórias, mas ele conseguiu se aproveitar das novas maneiras que existem para atingir o público”, disse.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que, a quinta edição de "Dungeons & Dragons" chegou ao Brasil 35 anos depois do lançamento da primeira versão do jogo, em 1974. Na verdade, a chegada da nova versão se dá 45 anos depois da publicação original. A informação foi corrigida às 9h29 do dia 11 de outubro de 2019. Ela também dizia que o RPG usa dados de três lados. Na verdade, o jogo usa um dado triangular, mas que traz quatro números. A informação foi corrigida às 13h30 do dia 11 de outubro de 2019

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