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O contra-ataque do bolivarianismo na América do Sul

Movimento do início dos anos 2000 sofreu reveses, mas se segura na Venezuela e na Bolívia e tenta voltar ao poder no Equador

     

    Após sofrer reveses em anos recentes, líderes que integram o chamado movimento bolivarianista na América do Sul vêm registrando vitórias políticas, com perspectiva de manutenção ou retomada de poder.

    Na Venezuela e na Bolívia, Nicolás Maduro e Evo Morales dão mostras de resiliência. No Equador, Rafael Correa comanda a oposição contra o atual governo, com perspectivas de voltar à presidência do país nas próximas eleições.

    Primeiro, o que é bolivarianismo

    O termo bolivarianismo – ou bolivarianista – foi usado pelo ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez (1999-2013) para referir-se aos governos de esquerda com os quais ele buscava conexão entre 1999 e 2017. A expressão faz referência a Simón Bolívar, herói da luta anticolonial da América espanhola no século 19.

    Não se trata de um bloco regional formal. Mas no plano político sul-americano os líderes da Venezuela, da Bolívia e do Equador chamavam abertamente seus países de repúblicas bolivarianas.

    Outros governantes tinham simpatia e afinidade com os autoproclamados bolivarianos. Eram líderes de esquerda de países como a Argentina, o Uruguai, o Brasil e o Chile.

    A principal característica dos bolivarianos é a defesa de um Estado centralizador no planejamento econômico, indutor da distribuição de renda e controlador de áreas estratégicas da produção nacional, como o petróleo, o gás e os minérios.

    O referendo na Bolívia

    Na Bolívia, o atual presidente, Evo Morales, aparece como favorito para conquistar o quarto mandato seguido nas eleições presidenciais marcadas para 20 de outubro de 2019. Evo governa ininterruptamente desde 2006. Nesse período, ele venceu três eleições presidenciais seguidas.

    O bolivarianismo, na Bolívia, recupera-se de um revés. O direito de Evo de concorrer a uma nova eleição havia sido negado a ele por 51% dos eleitores, num referendo realizado em 21 de fevereiro de 2016.

    O resultado decretava o fim do sonho do quarto mandato, mas Evo conseguiu reverter a decisão na Justiça Eleitoral no dia 4 de novembro de 2018, sob protestos de uma oposição que acusa o Judiciário de subserviência ao Executivo.

    A pressão na Venezuela

    A Venezuela foi o epicentro do bolivarianismo sul-americano sob o mandato de Hugo Chávez, líder que morreu em 2013. O sucessor Maduro vem travando com a oposição uma disputa renhida pelo poder, em meio à qual, a despeito da pressão internacional e das ameaças de intervenção militar, ainda se mantém no comando do país.

    Reeleito em maio de 2018, numa disputa contestada, Maduro mantém o controle da economia e das Forças Armadas, enquanto o opositor Juan Guaidó, presidente de uma Assembleia Nacional que o Executivo não reconhece, reivindica para si a presidência, com o respaldo de pelo menos 50 países. Os protestos contra o governo, após registrarem um ápice no início de 2019, arrefeceram no segundo semestre.

    Maduro, que já era acusado pela Colômbia de fomentar a ação de guerrilhas de esquerda no país vizinho, passou agora a ser acusado pelo Equador de insuflar uma onda de manifestações que, na terça-feira (8), levaram à invasão da Assembleia Nacional equatoriana, em Quito, ameaçando o governo local.

    Os protestos no Equador

    O sinal mais recente das tentativas de fortalecimento ou de reedição da experiência bolivariana na América do Sul foi dado nesta terça-feira (8), com um aceno ainda discreto do ex-presidente equatoriano, Rafael Correa, ao poder.

    “Se for necessário, voltarei [ao governo]. Teria que ser candidato a alguma coisa, por exemplo, vice-presidente”, disse ele, da Bélgica, onde vive desde que deixou a presidência, em 2017.

    A declaração foi feita no dia em que manifestantes ocuparam a Assembleia Nacional em Quito, pedindo a renúncia do presidente Lenín Moreno – político que foi aliado e agora é inimigo declarado de Correa. Moreno havia decretado estado de exceção na última quinta-feira (3) para lidar com os protestos no Equador.

    Os manifestantes, que inicialmente protestavam contra a alta no preço dos combustíveis, passaram a pedir a renúncia do presidente. “Já caiu”, disse Correa a jornalistas, na Bélgica.

    Moreno acusa Correa de agir mancomunado com Maduro, da Venezuela, para derrubar seu governo e voltar ao poder. Correa fala em voltar como vice porque um referendo realizado em 4 de fevereiro de 2018 decidiu que os presidentes equatorianos que já tenham sido eleitos e reeleitos não poderiam disputar de novo o cargo.

    A moderação de Cristina Kirchner

    Na Argentina, Cristina Kirchner, presidente de esquerda que governou o país por oito anos (2007-2015), pode voltar à Casa Rosada, sede do Executivo argentino, como vice.

    A Argentina não se autodeclarava uma república bolivarianista, mas tanto Cristina quanto seu marido e antecessor, Néstor Kirchner, morto em 2007, tinham afinidade com o movimento.

    Agora, a chapa dela, encabeçada por Alberto Fernández, venceu com folga as primárias presidenciais realizadas no dia 11 de agosto e se mantém como favorita para o primeiro turno, marcado para 27 de outubro, diante do rival e atual presidente, Maurício Macri, de direita.

    Se a dupla Cristina e Alberto Fernández obtiver mais de 40% dos votos e se a diferença registrada nas primárias entre as duas chapas, de dez pontos percentuais, se mantiver, nem será preciso realizar um segundo turno.

    Fernández, que encabeça a chapa, não tem, segundo analistas, as características de um líder carismático populista nem guarda semelhanças com os governantes ditos bolivarianos com os quais Cristina tanto se identificava.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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