Ir direto ao conteúdo

De pai para filho: quem está na nova direção do antigo MDB

Partido faz discurso de renovação e se une a outras siglas do centro para não perder espaço nas próximas eleições, após ter seu pior resultado nas urnas em 2018

     

    Numa eleição com chapa única, o deputado federal Baleia Rossi (SP) foi eleito no domingo (6) o novo presidente do MDB. A convenção nacional da sigla não teve a presença do ex-presidente Michel Temer, mas foi prestigiada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e pelo presidente do PSDB, Bruno Araújo.

    Com um discurso de renovação da legenda, Rossi é aliado do ex-presidente Temer e foi alçado ao cargo com o apoio de líderes antigos do partido, como o líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), o senador e ex-presidente da Casa Renan Calheiros (AL), e Romero Jucá (AM), que comandava o MDB desde 2016. Senador por 24 anos, ele não conseguiu se reeleger em 2018 e é réu em dois processos da Lava Jato.

    No segundo mandato como deputado federal por São Paulo e presidente da sigla no estado, Rossi é o líder do MDB na Câmara, posto que também ocupou no governo de Temer, quando se tornou um aliado do presidente em pautas prioritárias, como a reforma da Previdência.

    Em 2016, a relação com o emedebista era descrita no site de Rossi como de “admiração profissional e política, além de décadas de amizade”. O parlamentar se coloca ainda como um dos articuladores políticos do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), processo que levou Temer ao poder. 

    O novo presidente do MDB é filho de Wagner Rossi, também aliado de Temer. Sob a influência dele, o pai do parlamentar comandou por vários anos o Porto de Santos, foi diretor da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e foi escolhido para comandar o ministério da Agricultura no governo de Dilma, posto que deixou após denúncias de irregularidades.

    Em março de 2018, Wagner Rossi foi preso temporariamente na Operação Skala e citado em delações como beneficiário de propinas a pedido de Temer na investigação sobre favorecimento de empresas do setor portuário.

    O irmão do deputado, o publicitário Luciano Tenuto Rossi, é investigado pela Polícia Federal suspeito de ter recebido R$ 1 milhão da Odebrecht para um suposto caixa 2 para a campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo em 2014.

    Em abril de 2019, Rossi apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição da reforma tributária, a PEC 45, que prevê a fusão dos tributos federais, mas não sugere mudanças no imposto de renda nem a implementação de taxas sobre movimentações financeiras. O texto segue em tramitação na Câmara.

    Como fica a executiva do partido

    A nova direção nacional do partido é formada por estreantes, mas com sobrenomes conhecidos. A comissão tem três cargos na presidência, três na secretaria-geral e dois na tesouraria.

    Entre os ocupantes estão Newton Cardoso Júnior (MG), filho do ex-governador de Minas Gerais Newton Cardoso, que assumiu a secretaria-geral do partido, e Daniel Vilela (GO), filho do ex-governador de Goiás Maguito Vilela, que ficou com a terceira-presidência.

    A tesouraria foi assumida pelo senador Marcelo Castro (PI), que, segundo o jornal O Globo, teve o apoio dos senadores Eduardo Braga (AM) e Renan Calheiros (AL).

    A executiva tem ainda postos de vogais, que têm os mesmos direitos daqueles que ocupam cargos na comissão, com poder de voto e veto em questões do partido. Nessa condição está o ex-presidente da sigla e ex-senador Romero Jucá, a ex-governadora Roseana Sarney (MA) e o ex-presidente do Senado Eunício Oliveira (CE).

    Os movimentos recentes do MDB

    A presença do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do presidente dos tucanos, Bruno Araújo, na cerimônia de nomeação da nova direção do MDB indica os novos parceiros do partido.

    Nascido na ditadura militar, como oposição autorizada pelo regime dos generais, o MDB se transformou no maior partido do Brasil, com foco especial nos municípios e em cadeiras no Congresso.

    Ao longo do período pós-redemocratização, esteve aliado praticamente a todos os governos federais. Teve especial relevância nas bases de apoio do tucano Fernando Henrique Cardoso e dos petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

    Com Dilma, conseguiu eleger o vice Temer duas vezes, em 2010 e 2014. O MDB, porém, começou a se distanciar do PT no início do segundo mandato da então presidente. Por fim, se aliou ao PSDB e ao DEM para derrubá-la.

    Temer exerceu um mandato conturbado de pouco mais de dois anos e meio. Aprovou a reforma trabalhista, colocando em marcha um projeto liberalizante na economia ao qual o atual presidente, Jair Bolsonaro, tenta dar sequência.

    A perda de espaço no Congresso e nos estados

    Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Baleia Rossi disse que a prioridade é unir e renovar o partido para as próximas eleições municipais, em 2020. O partido tem mais de 2,3 milhões de filiados.

    Em 2016 o MDB manteve a capilaridade pelo país, com 1.029 prefeitos (de um total de 5.570), incluindo as capitais Boa Vista, Cuiabá, Goiânia e Natal, e 7.564 vereadores eleitos.

    Nas eleições presidenciais de 2018, abalado pelos escândalos revelados pela Lava Jato, o partido do ex-deputado Eduardo Cunha amargou uma grande derrota. Perdeu espaço no Congresso e nos governos estaduais.

    Na Câmara, passou de segunda maior bancada, com 51 deputados, para a quinta, com 34 membros (do total de 513 cadeiras). Para manter sua influência na Casa, o partido atua em bloco com o PP, com 38 deputados, e com o PTB, com 12.

    No Senado, o partido continua sendo a maior bancada, mas teve sua presença reduzida de 19 para 12 senadores (do total de 81 senadores). Nos governos estaduais, a sigla, que antes tinha sete governadores, conseguiu eleger apenas três (do total de 26 estados e Distrito Federal).

    No discurso na convenção, Rossi disse que o partido precisa encarar seus erros e ter uma agenda. O novo presidente afirmou ainda que é possível viver sem governo, em referência ao fato de o MDB não estar oficialmente na base de apoio de Bolsonaro. Apesar disso, o partido ocupa o ministério da Cidadania, com o deputado Osmar Terra (RS), e a liderança do governo no Senado, com Fernando Bezerra (PE).

    O conteúdo do novo manifesto do MDB

    No evento de domingo (6) foi lançado o novo manifesto da sigla, intitulado “Renovação democrática é emprego e oportunidades”, texto que substitui a Ponte para o futuro, lançado ao final de 2015, em que o então vice Temer fazia sinalizações liberalizantes ao mercado, com planos de reformas e privatizações.

    O novo manifesto continua a defender reformas, como a tributária, a da Previdência e o aprofundamento das mudanças na legislação trabalhista. Mas também propõe a criação de um mutirão para a criação de empregos de zeladoria nas cidades com recursos de fundos públicos.

    Segundo o jornal O Valor Econômico, Rossi disse que levará a proposta de uso do dinheiro que está parado nesses fundos ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele citou como exemplo de fonte de recursos o Fundo Penitenciário Nacional.

    Além de propor medidas pela geração de empregos, o MDB defendeu seus líderes investigados em seu manifesto. “Todos têm direitos e devem ter sua dignidade respeitada, tenham colarinho branco ou não. Justiça não é vingança”, diz o texto.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!