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Bolsonaro fala em esquecer o PSL. Quais são suas alternativas

Político se filiou ao partido em 2018 e meses depois ajudou a transformá-lo numa potência do Congresso. Em meio a suspeitas de caixa dois, o agora presidente sinaliza que pode abandoná-lo

     

    O Partido Social Liberal, conhecido pela sigla PSL, é uma legenda que deixou de ser quase inexpressiva em 2018, mais de duas décadas depois da sua criação. O motivo para passar de um partido pequeno a uma potência no Congresso foi a filiação de Jair Bolsonaro, um deputado federal que já havia passado por outras sete legendas.

    Em meio à crise da política tradicional e escândalos de corrupção em série revelados pela Operação Lava Jato, Bolsonaro canalizou um sentimento antissistema e venceu as eleições presidenciais, numa disputa de segundo turno com Fernando Haddad, candidato do PT, partido com alta rejeição que havia governado o Brasil de 2003 a 2016.

    No ano que antecedeu as eleições, o então deputado e pré-candidato presidencial Bolsonaro estava no PSC, mas buscava um partido para lançar a campanha ao Palácio do Planalto. Em março de 2018, se filiou ao PSL. Na época, o partido tinha três deputados federais, nenhum senador e nenhum governador. Saiu das urnas com 52 deputados, quatro senadores e três governadores.

    Quase um ano após a vitória de Bolsonaro e a grande ascensão no Congresso, o PSL é alvo do escândalo dos laranjas e de uma série de crises causadas por disputas internas de poder. Nesse contexto, o presidente começa a tornar público o desejo de se afastar cada vez mais da legenda, com possibilidade até de abandoná-la.

    ‘Esquece o PSL’

    Nesta terça-feira (8), Bolsonaro estava atendendo e tirando fotos com apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente. Ao falar com um homem que disse ser pré-candidato pelo PSL no Recife para as eleições municipais de 2020, Bolsonaro disse: “esquece o PSL, tá ok?”. Recife é o domicílio eleitoral do fundador e presidente nacional do PSL, o deputado federal Luciano Bivar.

    Ao lado de Bolsonaro, o homem gravou um vídeo dizendo: “eu, Bolsonaro e Bivar juntos por um novo Recife”. Em seguida, o presidente disse: “não divulgue isso não, o cara está queimado para caramba lá”, se referindo a Bivar, e voltou a falar para “esquecer” o partido. O homem então gravou outro vídeo, no qual aperta a mão do presidente e afirma: “viva o Recife, eu e Bolsonaro”, sem mencionar Bivar.

    Foi o sinal público mais claro das discordâncias internas no PSL que envolvem Bolsonaro. No dia anterior, na segunda-feira (7), o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, disse que Bolsonaro no momento não planeja mudar de partido.

    Associado à política tradicional, Bivar tem se negado a dividir o controle do partido, o que inclui as decisões sobre como usar os cerca de R$ 100 milhões de recursos do fundo partidário do PSL.

    Bolsonaro é o político mais importante do PSL, o que faz com que seus apoiadores defendam uma participação direta de grupos bolsonaristas no comando do partido.

    Apoiadores próximos do presidente têm posições importantes na estrutura partidária, mas não na cúpula nacional. O senador Flávio Bolsonaro é presidente do PSL do Rio de Janeiro, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro comanda o PSL de São Paulo. Ambos são filhos do presidente.

    Como condição para a filiação de Bolsonaro, Bivar se licenciou da chefia do PSL durante a campanha de 2018 e o posto foi ocupado pelo advogado Gustavo Bebianno, na época próximo de Bolsonaro. Logo após a campanha, Bivar retomou o posto. Esse foi o único momento da história do PSL em que Bivar não presidiu o partido.

    A declaração de Bolsonaro nesta terça (8) ganhou grande repercussão política. Bivar disse não saber a que Bolsonaro se referia quando falou que o dirigente partidário está “queimado”. Respostas de políticos do partido indicaram as divergências que existem no PSL.

    “A existência hoje de um governo do PSL se deve ao presidente Luciano Bivar”

    Delegado Waldir

    deputado federal e líder do PSL na Câmara, nesta terça (8)

    “Só posso dizer que fiquei perplexo. Não sei qual é a motivação [de Bolsonaro dizer para esquecer o PSL]. (...) [Bolsonaro sair do partido] é a mesma coisa que alguém morar sozinho e fugir de casa. PSL é ele, cresceu em torno do nome dele. Nós nos elegemos e temos bancada robusta por causa do presidente Jair Bolsonaro”

    Major Olímpio

    senador e líder do PSL no Senado, nesta terça (8)

    “Quando ele diz a um estranho para esquecer o PSL, mostra que ele mesmo já esqueceu. Mostra que ele não tem mais nenhuma relação com o PSL”

    Luciano Bivar

    deputado federal e presidente do PSL, ao Estado de S. Paulo, nesta quarta (9)

    O que pode acontecer se Bolsonaro sair

    Bolsonaro já disse que pretende disputar a reeleição em 2022. Caso deixe o PSL, o presidente tem algumas alternativas à sua frente que podem moldar a nova campanha pelo Palácio do Planalto. São elas:

    • filiar-se a um partido tradicional, como o DEM, por exemplo, algo que entraria em choque com seu discurso de ser uma figura do que chama de “nova política”
    • filiar-se novamente a um partido pequeno e pouco expressivo, o que abriria margem para problemas semelhantes aos que estão ocorrendo hoje no PSL
    • criar um novo partido, com controle da estrutura partidária e uma base exclusivamente bolsonarista, com possível radicalização ainda maior do atual discurso

    As acusações sobre candidaturas laranjas

    Uma das bases da campanha presidencial de Bolsonaro foi um discurso anticorrupção e de moralidade pública. Essa posição foi confrontada quando, em fevereiro de 2019, o jornal Folha de S.Paulo revelou suspeitas de um esquema de candidaturas de fachada do PSL em 2018, tanto em Minas Gerais como em Pernambuco.

    As candidatas laranjas teriam sido registradas oficialmente, mas sem fazer campanha na prática. Seria um modo de fraudar a legislação eleitoral, que exige que ao menos 30% das candidaturas e do dinheiro público de campanha seja de mulheres.

    No caso de Minas Gerais, o Ministério Público apresentou uma denúncia criminal na sexta-feira (4) contra o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e outras 10 pessoas. Álvaro Antônio era presidente do PSL mineiro durante a campanha e, segundo depoimentos à Polícia Federal, comandou o esquema de laranjas.

    O caso está em sigilo judicial, e a Justiça deverá decidir se abre um processo e torna o ministro réu.

    Até domingo (6), não havia evidências públicas que ligassem os laranjas do PSL mineiro a Bolsonaro. Naquele dia, porém, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem revelando que um assessor de Álvaro Antônio disse à Polícia Federal que parte do dinheiro do esquema foi usado para pagar material de campanha de Bolsonaro. Uma planilha apreendida na investigação também sugere repasses por fora para a campanha presidencial do PSL, o que configuraria a prática de caixa dois — movimentação de dinheiro eleitoral sem declaração à Justiça.

    O presidente negou qualquer irregularidade e disse que a Folha de S.Paulo “avançou todos os limites” e publicou mentiras. O ministro Álvaro Antônio, que permanece no cargo com apoio de Bolsonaro, diz ser inocente e alvo de uma campanha de difamação para prejudicá-lo politicamente.

    Em Pernambuco, também há suspeitas de que uma candidata do PSL em 2018 recebeu grandes repasses do fundo público eleitoral, mas não fez campanha. Investigado por suspeitas de caixa dois, Bivar afirma ser inocente e disse que não foi responsável por escolher candidatos ou determinar repasses em 2018, pois não tinha cargos partidários durante a campanha, nem no estado nem nacionalmente.

    As brigas públicas do PSL

    Alguns parlamentares eleitos pelo PSL protagonizaram brigas públicas ao longo de 2019. Foi o caso, por exemplo, dos senadores Juíza Selma e Flávio Bolsonaro. A senadora deixou o partido em setembro de 2019 e se filiou ao Podemos, citando como motivo a exigência de Flávio para ela retirar apoio à criação da chamada CPI da Lava Toga, para investigar o Judiciário.

    O mesmo caso da CPI expôs outras divergências no PSL. “Flávio Bolsonaro para mim acabou, não existe”, disse na segunda-feira (7) o senador Major Olimpio (PSL-SP), dizendo que é necessário ser intransigente no combate à corrupção, inclusive no Judiciário. Major Olimpio já afirmou publicamente que cogita sair do partido.

    O deputado Alexandre Frota também esteve em evidência. Grande cabo eleitoral para Bolsonaro em 2018, no início de 2019 Frota esteve na linha de frente do governo, tanto na área cultural como na negociação de apoio para a reforma da Previdência.

    Após fazer críticas abertas a Bolsonaro, como rejeição à indicação de Eduardo Bolsonaro para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos e pedidos de repreensão ao escritor Olavo de Carvalho, Frota foi expulso do PSL e se filiou ao PSDB.

    A definição de nomes para a eleição municipal de 2020 é outra fonte de disputas no PSL. A um ano da votação, há grandes divergências sobre quem lançar para as duas principais prefeituras do país: São Paulo e Rio de Janeiro, ambas em estados onde o PSL passou a ser forte após as eleições em 2018 e o partido mais numeroso nas Assembleias Legislativas.

    Em São Paulo, os principais pré-candidatos do partido são a deputada federal Joice Hasselmann, líder do governo Bolsonaro no Congresso, e o deputado estadual Gil Diniz. Com resistência no PSL paulista e do deputado Eduardo Bolsonaro, Joice já admitiu a possibilidade de deixar o partido se não encontrar apoio para sua candidatura a prefeita de São Paulo.

    No Rio de Janeiro, até o momento os nomes cotados do PSL são o deputado estadual Rodrigo Amorim e o deputado federal Helio Lopes. Segundo informações de bastidores de diferentes órgãos de imprensa, Gil Diniz e Helio Lopes são preferidos por Bolsonaro.

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