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Silvio Santos: entre o poder de comunicar e o de constranger

Conhecido pela proximidade com o público, apresentador é questionado por exposição infantil. O ‘Nexo’ falou com o crítico Mauricio Stycer sobre a trajetória e o atual momento do dono do SBT

     

    O apresentador e empresário Silvio Santos, que está presente há meio século na televisão brasileira e é tido como um dos maiores comunicadores do país, tem sido questionado por artistas, personalidades, profissionais da saúde e autoridades públicas por constranger crianças nos programas de seu canal, o SBT.

    No final de setembro, a emissora, a segunda em audiência atrás da rede Globo, decidiu exibir um concurso de miss infantil, em que meninas de sete a dez anos se apresentavam de fantasia, maiô e traje de gala e mandavam beijos para as câmeras.

    Quando as crianças foram mostradas em trajes de banho, o apresentador disse para a plateia: “Agora, vocês do auditório, que estão com o aparelhinho [de votação], vão ver quem tem as pernas mais bonitas, o colo mais bonito, o rosto mais bonito e o conjunto mais bonito”.

    As reações ao concurso

    Por causa da fala do apresentador, membros do Ministério Público decidiram investigar o programa por suspeita de sexualizar as crianças. Ao jornal O Estado de S. Paulo, a procuradora do Ministério Público do Trabalho Ana Maria Vila Real, que é coordenadora nacional de Combate à Exploração da Criança e do Adolescente, afirmou que as crianças podem estar sujeitas a “desgastes emocionais, constrangimentos e exposições” em casos como esse.

    Um inquérito civil também foi instaurado pela Promotoria de Justiça de Osasco, que pediu informações ao SBT sobre o concurso. A emissora afirmou à imprensa não ter sido notificada e não comentou o caso.

    O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) divulgou uma nota assinada pelo professor Táki Athanássios Cordás, que coordena a assistência clínica do instituto, classificando o comentário de Silvio Santos de “aviltante”.

    “Concursos de beleza infantil oferecem o risco de sexualização precoce de crianças, onde o corpo deixa de ser para si e passa a ser para o deleite de outro. Diferentes pesquisas têm relacionado concursos de beleza infantil e sexualização de crianças, em sua maioria meninas, com o abuso sexual na infância”

    Táki Athanássios Cordás

    Professor e coordenador da assistência clínica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

    O vídeo de 2016

    No sábado (5), o apresentador de 88 anos voltou a ser criticado por um outro episódio envolvendo crianças. O youtuber Felipe Neto publicou em suas redes sociais um vídeo de 2016 em que Silvio Santos pergunta a uma menina o que ela achava melhor: “Sexo, poder ou dinheiro?”. O vídeo trazia um trecho do programa “Levanta-te”, competição musical formada por duplas de pais ou mães e seus filhos de seis a dez anos.

    Neto resgatou o caso para questionar por que evangélicos (como o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, do partido Republicanos) e políticos do PSL (do presidente Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio e Eduardo) não falaram nada sobre o assunto, enquanto se manifestaram contra uma história em quadrinhos que trazia o desenho de um beijo gay e que a prefeitura carioca tentou censurar na Bienal do Livro na cidade, em 2019.

    O ator Pedro Cardoso, conhecido pelo papel de Agostinho Carrara na série “A Grande Família”, da Globo, chamou Silvio Santos de “garoto propaganda do fascismo brasileiro” e disse que ele “fez dinheiro vendendo ilusão para pobres brasileiros”.

    “Acho Silvio um irresponsável social. Acho que Silvio presta um desserviço ao Brasil com sua televisão medíocre e seu comportamento libidinoso e mal-educado”, escreveu o ator. Outros atores como Paulo Betti, Miguel Falabella e Gorete Milagres comentaram o texto, em apoio.

    Outros casos

    Não é a primeira vez que o apresentador é criticado por seus comentários. Em outros episódios suas falas trouxeram tons racistas e machistas.

    Silvio Santos já questionou uma menina negra como ela seria atriz ou cantora com “esse cabelo”. Em outra oportunidade, disse a uma participante de um programa que ela era “graciosa” e “bonita”, embora “fosse negra”. Também já constrangeu as cantoras Anitta e Claudia Leitte dizendo que não as abraçaria para não ficar excitado. Leitte chegou a dizer que tinha ficado constrangida com o episódio. O SBT afirmou, à época, que não comentaria as declarações da cantora, como tem feito em ocasiões semelhantes. 

    O poder de comunicação de Silvio Santos

    Um dos fatores tidos como responsável pelo sucesso de Silvio Santos na televisão brasileira é a sua capacidade de se aproximar de seu público. Silvio Santos já foi camelô no centro do Rio de Janeiro e responsável por animar passageiros que faziam a travessia Rio-Niterói numa barca.

    Depois, tornou-se locutor na Rádio Nacional de São Paulo e foi assistente na produção do programa Praça da Alegria na TV Paulista. Mesmo no início da carreira, nunca foi funcionário de emissoras de TV - alugava tempo na TV Paulista para exibir seus programas e negociava os anúncios exibidos naquela faixa de horário.

    No final dos anos 1960, já era dono do Carnê do Baú da Felicidade, de uma empresa de publicidade e de uma construtora. Silvio Santos já foi dono do banco PanAmericano, vendido posteriormente ao BTG Pactual. Atualmente, além do SBT, ele possui a Jequiti Cosméticos, um hotel no Guarujá e uma empresa de empreendimentos imobiliários.

    No livro “Circo Eletrônico” (Editora Loyola), a livre-docente em antropologia e sociologia da cultura pela PUC Maria Celeste Mira diz que o apresentador conseguiu estabelecer uma proximidade muito forte com seu público.

    “Meio pai, meio amigo, ele frequenta os lares com uma intimidade que só se consegue após longa convivência. Ali, faz parte do riso, das brincadeiras e das bobagens que só se dizem em casa. Preenche, de forma significativa entre as classes populares, um espaço lúdico, onde entram o jogo, a música e a fantasia. Seu talento de mercador de sonhos é por demais conhecido”, escreve, na obra.

    Uma visão sobre o episódio e o empresário

    O Nexo conversou com o repórter e crítico do portal UOL e colunista da Folha de S.Paulo Mauricio Stycer sobre o comportamento de Silvio Santos. Ele é autor de “Topa Tudo por Dinheiro” (Todavia), perfil biográfico do apresentador. Abaixo, os comentários do jornalista sobre o apresentador.

    O padrão de comunicação

    “A base do Programa Silvio Santos desde os anos 1960, na Globo, e de toda a programação das suas próprias emissoras, TVS (1976) e do SBT (1981), sempre foi eminentemente popular, no bom e no mau sentido. Silvio estabeleceu um padrão inimitável de comunicação com o público, e segue reproduzindo-o sem mudanças há cinco décadas. Ele se coloca sempre no lugar do espectador: faz perguntas simples, finge ignorar assuntos complexos, improvisa, é implacavelmente sincero com os convidados e acredita que os erros que comete transmitem uma imagem mais humanizada de si.”

    O concurso infantil

    “É neste contexto que deve ser entendido o Miss Infantil. É algo que faz sentido na cabeça dele, que está na TV há 55 anos anos, sem alterar a forma de ver as coisas. Isso inclui expor crianças a situações constrangedoras, ser machista com suas convidadas, fazer piadas infames, humilhar participantes. Essas atitudes são inaceitáveis, em 2019, para muita gente. Mas não para todas. O seu programa é vice-líder de audiência há muitos e muitos anos. Perto de completar 89 anos (em dezembro), Silvio dá sinais de que não vai mudar a esta altura da vida e aceita, aparentemente sem medo, perder parte do respeito acumulado ao longo da carreira, o que inclui parte da audiência.”

    A relação com o poder

    “O atual momento me parece ainda mais complexo para ele em matéria de imagem e prestígio por causa do apoio que tem demonstrado ao governo Bolsonaro. Silvio apoiou todos os presidentes do Brasil desde o início dos anos 1970, incluindo os generais que comandaram o país durante a ditadura militar, mas parece mais entusiasmado hoje do que em outros momentos de sua trajetória de adulação aos poderosos.”

     

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