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Governo e dados do Inpe: da contestação à promoção

Em agosto, desqualificação dos números do instituto culminou com demissão do diretor Ricardo Galvão. No início de outubro, ministros divulgaram dado de diminuição de queimadas produzido pelo órgão de pesquisas

     

    “O Brasil prova que tem totais condições de cuidar da Amazônia. Incêndios estão sendo debelados, atingindo níveis muito inferiores aos da era Lula”, escreveu no Twitter o ministro das Relações Exteriores, Eduardo Araújo. Publicada em 2 de outubro, a mensagem do ministro trazia também uma imagem que compara focos de incêndio no mês de setembro, dos anos de 2000 a 2019.

    A origem dos dados, como mostra a imagem anexada, é o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Esses mesmos dados foram divulgados pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em uma postagem feita no mesmo dia no Twitter.

    Dois meses antes, o instituto e seus relatórios estavam sob ataque no governo Jair Bolsonaro. À época, o órgão teve sua credibilidade contestada por Bolsonaro, por Salles e pelo general Augusto Heleno, ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

    O questionamento dos dados do Inpe

    “O que preocupa mais aqueles que têm sentimento de brasilidade, que têm um amor pelo país, como todos deveriam ter, é que esses dados prejudicam muito a imagem do Brasil. Se fossem dados corretos, era preocupante e seria conveniente que nós não alardeássemos isso e que nós cuidássemos do problema internamente, procurássemos corrigir o que está errado”, disse Heleno à imprensa no início de agosto.

    No caso das queimadas, se a comparação for entre o acumulado do ano de 2019, de janeiro a setembro, e o mesmo período do ano passado, o resultado é de um aumento do número de focos da ordem de 42%

    No fim de julho, o instituto divulgou dados que incomodaram o governo Bolsonaro e contribuíram para piorar sua imagem internacional como inimigo do meio ambiente. Segundo o Inpe, o desmatamento na Amazônia em julho cresceu 278% em relação ao mesmo mês em 2018. Em junho, o aumento havia sido de 90%.

    “Os percentuais que foram divulgados na imprensa não estão corretos, não porque o Inpe errou, mas porque quem os interpretou o fez de maneira equivocada”, disse Salles à imprensa na época. “Daqui pra frente, [o plano] é construir um sistema que seja mais rápido na detecção, que permita orientar as ações de controle e comando.”

    As críticas do ministro foram dirigidas ao Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), ferramenta criada pelo Inpe para emitir alertas quando há indícios de alteração na cobertura florestal. Para Salles, o sistema produz “distorções numéricas” como duplicidade de registro de áreas e atrasos na contagem de alertas.

     

    Para Salles, os números do Deter não poderiam ser utilizados para mensurar aumentos mês a mês, mas apenas como informações para auxiliar equipes de fiscalização. O então diretor do Inpe, o físico Ricardo Galvão, concordou que os dados do Deter não servem para comparações mês a mês, pois não é possível saber exatamente quando houve o corte de árvores. Entretanto, ele pontua que isso não quer dizer que não haja desmatamento.

    O Deter foi inaugurado em 2005 pela então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no governo Lula. Segundo Galvão, os alertas do sistema contribuíram para uma redução “violenta” do desmatamento.

    A função do monitoramento e dos alertas

    Os dados do Inpe são divulgados em tempo real e podem ser submetidos a diversos recortes e comparações.

    No caso das queimadas, se os dados são mês a mês, o resultado é de queda de número de focos, levando em conta setembro. Já se a comparação for entre o acumulado do ano de 2019, de janeiro a setembro, e o mesmo período do ano passado, o resultado é de um aumento do número de focos da ordem de 42%.

    As informações produzidas pelo Inpe são usadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) para orientar suas operações. A partir de registros de queimadas, as equipes de fiscalização podem agir em terra.

    O monitoramento do Inpe

    • O instituto conta com dois sistemas de monitoramento: o Prodes (Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), utilizado desde 1988, e o Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), em operação desde 2004.
    • Existem nove satélites atualmente enviando imagens para órgão. Entre os equipamentos que enviam imagens para o Inpe estão satélites da Nasa, da Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, dos EUA) e da Agência Espacial Europeia.
    • As imagens são recebidas pelas estações de Cachoeira Paulista, estado de São Paulo, e de Cuiabá, Mato Grosso. No total, o Inpe processa automaticamente mais de 200 imagens por dia com o intuito de detectar focos de incêndio florestal e de desmatamento.
    • Segundo o site do Inpe, os dados levantados permitem “calcular as taxas anuais de desflorestamento, fazer projeções e produzir um banco de dados geográfico ao longo do tempo”.
    • As informações são disponibilizadas para o público depois de aproximadamente três horas após a geração pelo site do órgão.

    As discussões na demissão de Galvão

    Em 19 de julho de 2019, Bolsonaro ironizou o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, dizendo que ele deveria estar “a serviço de alguma ONG”. O presidente da República reclamou que o então presidente do Inpe deveria ser cuidadoso ao publicar dados sobre desmatamento por questão de “responsabilidade, respeito e patriotismo”.

    “Eu tenho a convicção que os dados são mentirosos”, afirmou o presidente. “Até mandei ver quem é o cara que está à frente do Inpe para vir explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram para a imprensa”,

    Em resposta, Galvão afirmou que “eu sou um senhor de 71 anos, membro da Academia Brasileira de Ciências, não vou aceitar uma ofensa desse tipo. Ele que tenha coragem de, frente a frente, justificar o que ele está fazendo”.

    Em 2 de agosto, Galvão foi exonerado. No seu lugar entrou o oficial da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião. À imprensa, Damião declarou saber pouco sobre o tema do aquecimento global. “Existem várias opiniões contra e a favor. Leio e estudo. Não adianta emitir a minha opinião sobre isso. Seria o mesmo que emitir uma opinião sobre futebol no Brasil”, afirmou ao jornal O Globo.

    O novo diretor afirmou também que os dados de desmatamento do Inpe continuariam a ser divulgados ao público. Entretanto, disse que havia “determinadas situações que precisam ser verificadas”, isto é, certas informações precisariam ser primeiro repassadas à Presidência e aos ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia. “Porque são eles que vão ter que responder às pressões lá fora”, declarou.

    Em 21 de agosto, o Ibama lançou um edital para a escolha de uma empresa para realizar o monitoramento do desmatamento via satélite.

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