Ir direto ao conteúdo

A trajetória de Raoni, da amizade com Sting à crítica de Bolsonaro

Ao lado de estrelas pop, cacique viajou o mundo defendendo demarcação de terras, até ser chamado de ‘peça de manobra’ na ONU pelo presidente brasileiro

 

Na metade de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, em 27 de setembro, Jair Bolsonaro pronunciou a única frase que não constava no roteiro: “Acabou o monopólio do senhor Raoni”.

Representantes de 192 países ouviram o presidente brasileiro chamar o cacique kayapó Raoni Metuktire de “peça de manobra” a serviço de “governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”.

Foto: Johannes Eisele/AFP - 24.09.2019
Jair Bolsonaro na ONU
Jair Bolsonaro na ONU
 

A visão do líder indígena que há meio século milita pelo meio ambiente e foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz de 2020 “não representa a [visão] de todos os índios brasileiros”, disse Bolsonaro. Para o presidente, o cacique Raoni faz parte de um grupo de personalidades, governos e ONGs brasileiras e estrangeiras que “teimam em tratar e manter nossos índios como verdadeiros homens das cavernas”.

Pela primeira vez desde que tomou posse, em janeiro de 2019, Bolsonaro dava a conhecer ao mundo, no palco das Nações Unidas, as ideias que ele professou ao longo de 30 anos de vida política no Brasil e que lhe renderam quase 58 milhões de votos na eleição presidencial de 2018. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometeu que não faria novas demarcações de terras indígenas.

A estreia de Bolsonaro na ONU transformou-se também em sua primeira resposta de corpo presente — e não por postagens no Twitter — ao presidente da França, Emmanuel Macron, que havia manifestado preocupação com o aumento das queimadas na Amazônia e, quatro meses antes, havia recebido Raoni em Paris.

“Os que nos atacam não estão preocupados com o ser humano índio, mas sim com as riquezas minerais e a biodiversidade existentes nessas áreas”, disse Bolsonaro. Com o novo governo, o país “tem um presidente que se preocupa com aqueles que lá estavam [no Brasil] antes da chegada dos portugueses”, afirmou o presidente, a respeito de si mesmo.

Na visão apresentada por Bolsonaro aos Estados-membros das Nações Unidas, há bons e maus militantes indígenas no Brasil. O bom exemplo foi levado por ele mesmo ao plenário da ONU: a indígena Ysani Kalapalo, que acompanhou o presidente em Nova York. O mau exemplo foi citado nominalmente para o mundo todo: Raoni.

“Acho que ele nunca conheceu a minha luta. Acho que não conhece a minha história”, disse Raoni ao programa Fantástico, da TV Globo, três dias depois do pronunciamento do presidente brasileiro nas Nações Unidas.

A origem política de Raoni

Raoni nasceu numa aldeia kayapó no estado do Mato Grosso. A data de seu nascimento é controvertida: 1930, 1940 ou 1942. De acordo com a ONG francesa Forêt Vierge (Floresta Virgem, em português), da qual Raoni é presidente honorário, a militância política do cacique começou a ser conhecida internacionalmente nos anos 1960.

Naquela década, o rei da Bélgica Leopoldo 3º, que havia reinado de 1934 a 1951, conheceu Raoni durante uma expedição ao Mato Grosso, onde esteve acompanhado dos irmãos Villas Boas, importantes sertanistas brasileiros.

O rei belga conheceu Raoni na aldeia kayapó no Mato Grosso em 1962. Leopoldo 3º, que, após abdicar do trono, dedicou-se à antropologia e à fotografia, voltou ainda outras duas vezes ao local, em 1964 e em 1967.

Desse encontro, resultou o início de um longo caminho de relações internacionais às quais o líder indígena brasileiro se dedicaria pelas próximas décadas, tendo como objetivo a preservação do meio ambiente e a demarcação de terras indígenas.

O Oscar e o Festival de Cannes

Mais de dez anos depois, em 1976, outro belga, o diretor de cinema Jean-Pierre Dutilleux, produziu um documentário chamado “Raoni”, filmado na aldeia de origem do cacique. Dutilleux e Raoni tinham se conhecido três anos antes, em 1973, quando o documentarista rodou outro de seus muitos trabalhos sobre povos indígenas na região.

De todos esses trabalhos, “Raoni” foi o que alcançou maior sucesso. O filme foi apresentado em 1977 no festival de cinema de Cannes, um dos mais importantes do mundo. O documentário mostra a luta dos indígenas kayapó pela preservação de suas terras e seu meio de vida. Raoni voltaria a Cannes em 2019, acompanhado de Dutilleux, como uma celebridade, para seguir falando de suas causas ambientais.

 

Depois do sucesso da versão francesa do documentário, Dutilleux fez uma nova montagem do filme, desta vez em língua inglesa. O ator americano Marlon Brando — que havia recebido vários prêmios e indicações ao Oscar e já era uma das maiores celebridades do cinema mundial — fez uma breve aparição nessa segunda versão e narrou todo o filme sobre o cacique Raoni. Nessa nova versão, o filme de Dutilleux foi indicado ao Oscar de melhor documentário em 1979.

Do cinema para a música

Foi o diretor belga Dutilleux quem apresentou Raoni para o músico inglês Sting, numa viagem feita ao Mato Grosso em 1987. No ano seguinte, 1988, Sting e Raoni participaram juntos de uma primeira entrevista a jornais e TVs do Brasil e do exterior, em São Paulo, no lançamento de uma campanha pela demarcação de terras indígenas.

“Quando acabar toda a mata, acaba tudo. Nós, indígenas, vamos acabar, mas não é só. O homem branco acaba também”

Raoni Metuktire

cacique kayapó, em entrevista ao lado do cantor Sting em sua turnê internacional, em 1989

Em 1989, Raoni deixou o Brasil pela primeira vez, decidido a levar sua pauta ao exterior. A viagem resultou em encontros, palestras e entrevistas concedidas por Raoni em 17 países, numa turnê digna do astro da música Sting ou do diretor de cinema Dutilleux, que o acompanhavam.

 

Nessa época, Raoni encarnou na Europa o papel do bom homem selvagem, agredido em sua natureza original por uma modernidade violenta. Sua mensagem girava em torno da necessidade de preservação da floresta como meio de garantir não apenas o meios de sobrevivência dos índios, mas de toda a humanidade.

“Sou eu que defendo o meu povo. Sempre que tem algum tipo de conflito, eu digo: ‘não, a violência, não’”

Raoni Metuktire

cacique kayapó, em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, no dia 30 de setembro de 2019

Para levantar fundos e gerir a campanha internacional, foi criada a ONG Rainforest (Floresta Tropical, em português), com ajuda de Sting. Em 1991, foi realizado um show em Nova York com a presença de Sting, Elton John, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil, para arrecadar fundos para seguir financiando a campanha pela demarcação de terras indígenas no Brasil.

A campanha alcançou o sucesso esperado e, quatro anos após o início da turnê de Raoni, o governo brasileiro homologou, em 1993, o Parque Nacional do Xingu.

Após a vitória da demarcação, Raoni permaneceu mobilizado, desta vez, para impedir a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu. Nessa nova queda de braço, o cacique perdeu. A construção foi autorizada em 2010, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A ruptura com Jean-Pierre Dutilleux

Com o passar do tempo, o cacique se desligou de seus primeiros e mais importantes contatos europeus. Em fevereiro de 2017, Raoni assinou uma carta na qual, junto com outros líderes indígenas, proibiu o cineasta belga Dutilleux de voltar a filmar sua tribo.

“Já há muito tempo Jean-Pierre [Dutilleux] filma a minha imagem, a minha fala, minhas entrevistas, e usa essas filmagens em benefício próprio”, disse Raoni num vídeo publicado em 2017. “Se Jean-Pierre aparecer na minha tribo, vou chamar a polícia. Nunca mais vou trabalhar com Jean-Pierre.”

No vídeo, Raoni não dá mais explicações sobre o motivo da ruptura, mas o cacique Megaron Txucarramãe, que fala no mesmo vídeo ao lado de Raoni, diz que o diretor de cinema “cria problemas para os indígenas do Xingu, ele é perigoso. Ele pode fazer com que os indígenas entrem em conflito e isso não é bom, não é bonito”.

Dutilleux respondeu também com um vídeo gravado, no qual refutou as acusações e exibiu documentos, assinados por Raoni, que autorizavam a entrada do cineasta nas terras indígenas.

A ruptura entre eles não foi definitiva. Dutilleux reapareceu ao lado de Raoni, dois anos depois, em maio de 2019, na Embaixada da França em Brasília, um dia antes de mais uma partida do cacique brasileiro para a Europa.

 

A relação de Raoni com a França

O sucesso das turnês internacionais de Raoni colocaram-no como um estandarte permanente da causa indígena. Ele foi recebido por diversos presidentes europeus nos anos seguintes e pelos papas João Paulo 2º e Francisco, além de outros líderes internacionais.

Em todo esse processo, o governo da França desempenhou um papel especialmente influente. Raoni esteve no país europeu em 2000, 2001, 2010, 2011 e 2019, onde foi recebido por presidentes de diversas tendências, do socialista François Mitterrand ao gaullista Jacques Chirac, até chegar ao atual presidente, Emmanuel Macron.

 

Antes de ser presidente, Macron foi executivo de um grande banco europeu, o Rotschild, e ministro da Economia do presidente François Hollande, do Partido Socialista. Na eleição presidencial de maio de 2017, venceu concorrendo por um novo partido de centro-direita, o République en Marche (República em Movimento, em português), derrotando candidatos da esquerda, da direita e da extrema direita.

Na visão de Bolsonaro, no entanto, o presidente francês é “de esquerda” e sua atuação em favor da preservação da Amazônia é expressão de uma postura colonialista que ameaça a soberania do Brasil.

As críticas do presidente brasileiro foram feitas depois de Macron ter defendido uma ação internacional mais dura contra Bolsonaro durante o encontro do G7, em agosto de 2019, na cidade francesa de Biarritz — momento que coincidiu com o aumento no número de queimadas na Amazônia.

Antes do entrevero entre os presidentes da França e do Brasil — que incluiu ainda comentários depreciativos de Bolsonaro e de seus ministros contra a primeira-dama da França — Macron havia estado com Raoni no Palácio do Eliseu, em Paris, no dia 16 de maio.

No encontro, Macron prometeu a Raoni que intercederia pelo cacique kayapó, buscando conversar com Bolsonaro a respeito de novas demarcações. O presidente francês também anunciou na ocasião que pretendia sediar em 2020 uma cúpula internacional dos povos indígenas.

“Ele sabe melhor que ninguém: nosso planeta sofre com as ações humanas. Ele fez deste o combate de sua vida. Com o cacique Raoni Metuktire, grande chefe do povo kayapó, nós conversamos sobre as medidas que colocaremos em marcha pelo clima e pela biodiversidade”, disse o presidente da França em suas redes logo após o encontro.

Neste encontro, Macron disse a Raoni que levaria a questão indígena e ambiental ao encontro do G7, que aconteceria três meses depois, o que desataria o embate público com Bolsonaro.

O discurso do presidente brasileiro na ONU reforçou a tese defendida sobretudo pelos militares brasileiros de que a ação de líderes como Raoni, apoiados por ONGs e governos estrangeiros, é a face midiática de uma estratégia que visa, no fundo, a disputar o acesso a reservas de “ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras” que estariam em terras indígenas.

A demarcação “demonstra que os que nos atacam não estão preocupados com o ser humano índio, mas sim com as riquezas minerais e a biodiversidade existentes nessas áreas”, disse Bolsonaro, ainda no discurso na Assembleia Geral.

No momento em que Bolsonaro discursava, Macron não estava no plenário. O presidente francês preferiu não seguir inflacionando a disputa verbal. Coube ao embaixador da França em Brasília, Michel Mirraillet, dizer, em entrevista ao jornal Valor Econômico, na terça-feira (1º): “Às vezes temos a impressão de que essas pessoas [do atual governo brasileiro] não estão sequer no século 19. Não precisamos dialogar na base da paranoia”.

“Não existe mais o monopólio do Raoni. O Raoni fala outra língua, não fala a nossa língua. É uma pessoa que está com uma certa idade avançada. Vamos respeitá-lo como cidadão, mas ele não fala pelos índios”, disse Bolsonaro, em setembro, a um grupo de visitantes reunidos na portaria do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, após o regresso da Assembleia Geral da ONU.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!