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Por que o Acústico MTV está de volta. E o que esperar da nova versão

Formato que fez sucesso no Brasil entre 1994 e 2011 retorna ao canal em 2019, após mudanças na indústria e no comando da emissora no país

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    O cantor e compositor Tiago Iorc foi o primeiro convidado da nova fase do Acústico MTV, que voltou a ser exibido depois de um hiato de oito anos. Em 19 de setembro de 2019, o canal a cabo retomou o programa de formato intimista que fez sucesso no país entre os anos 1990 e a primeira década dos anos 2000.

    O artista brasiliense havia se retirado da vida pública em janeiro de 2018, quando anunciou um período de descanso. Em maio de 2019, Iorc lançou o álbum “Reconstrução”, que compõe parte do repertório que apresentou na MTV.

     

    A última apresentação no formato acústico a ir ao ar, antes do retorno em 2019 com Tiago Iorc, foi de Arnaldo Antunes, em 2011.

    “O Acústico MTV tem uma grande importância histórica na música pop nacional e internacional. Além de as edições daquela época serem consumidas pelo jovem hoje, todos têm o seu Acústico preferido e ele está na memória das pessoas de maneira afetiva”, disse ao Nexo o diretor de talentos e música da MTV, Caio Corsalette. “No dia em que anunciamos a volta do formato, sentimos uma grande repercussão por parte do público, do mercado e dos artistas.”

    Na MTV Brasil, o Acústico estreou em 1994, com Gilberto Gil, e teve grande repercussão com artistas como Titãs, Kid Abelha e Legião Urbana (gravado em 1992, este último foi lançado em 1999, após a morte de Renato Russo). Somadas, as 15 apresentações mais populares – dentre as quais estão as três citadas – venderam 13 milhões de álbuns, segundo o portal G1.

     

    Segundo Corsalette, os convidados que se apresentaram na antiga versão do programa são artistas cujas músicas atravessam gerações. Esse deve continuar a ser o critério para determinar quem participará do novo Acústico, afirmou o diretor da MTV.

    Com relação ao formato, é possível que haja variações de uma edição para a outra. Entretanto, “pela maneira reservada que o Tiago [Iorc] vem se apresentando, achamos que a melhor maneira era ele no palco com seu violão”, disse Corsalette. “Optamos por um formato enxuto, com plateia em 360 [graus] em torno do artista. Ele trouxe poucos músicos, assim como eram os primeiros acústicos nos anos 1990.”

     

    O MTV Unplugged, a matriz americana do programa, foi lançado em 1989. Uma das apresentações que se tornaram icônicas foi a da banda Nirvana, que foi ao ar em 1994, após o suicídio do vocalista Kurt Cobain. Nos EUA, o programa foi encerrado em 2009 pela MTV, que chegou a gravar apresentações esporádicas no formato depois disso. O Unplugged também foi relançado por lá em 2017, com uma apresentação do cantor Shawn Mendes.

    O porquê do sucesso no Brasil

    O formato foi especialmente bem-sucedido no país: praticamente todos os artistas do pop rock nacional e vários nomes da MPB gravaram sua versão. Tanto foi assim que, em entrevista ao portal Terra em 2004, o cantor Lulu Santos comparou o Acústico MTV ao serviço militar. “O artista pop tem que fazer em algum momento da vida”, disse.

    Ao Nexo a jornalista musical Kamille Viola deu duas explicações para o sucesso do acústico no Brasil. A primeira é que o formato teve uma conexão imediata com audiência por falar à tradição brasileira da canção, na qual o violão ocupa um lugar importante.

    Cantautores (cantores que também são compositores) de relevo, como Dorival Caymmi e João Gilberto, tiveram o instrumento como um pilar de sua obra. Por conta disso, segundo ela, o combo voz e violão diz muito à memória afetiva do público brasileiro.

    A segunda razão apontada por Viola é que, para os artistas, sobretudo aqueles que buscavam se renovar, o programa se mostrou comercialmente interessante. Exemplos disso são Titãs (1997) e Capital Inicial (2000), que experimentaram um ressurgimento após gravarem seus acústicos.

     

    O programa foi criticado por promover uma pasteurização estética, segundo uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, e, para Viola, nem toda composição se sustenta no formato. Ainda assim, a jornalista avalia que ele continua a fazer sentido, seja por oferecer a experiência de ouvir um artista conhecido em outros moldes ou por ter a capacidade de renovar uma canção. 

    “Muitas canções surgem ou surgiam no violão ou no piano. [O acústico] é uma maneira de ouvi-las em um formato muito próximo à forma como ela foi criada, crua”, disse.

    O impacto das mudanças na indústria sobre o formato

    Nos anos 2000, o sucesso do Acústico MTV no Brasil coincidiu com a transição do CD para o MP3. No início da década, as apresentações eram largamente consumidas em CD e DVD. As mudanças tecnológicas na indústria fonográfica se aprofundaram desde que essas mídias começaram a se tornar obsoletas, com plataformas de streaming ganhando importância na maneira de se consumir música e vídeo.

    A versão do Acústico MTV de Tiago Iorc que foi ao ar na televisão tinha 11 músicas. Já o show completo, com 20 faixas, foi disponibilizado no serviço de streaming Paramount +. Aos poucos, clipes da apresentação estão sendo divulgados no canal do YouTube do cantor Tiago Iorc. O áudio, além disso, pode ser ouvido em plataformas de streaming como o Spotify. O artista também fará uma turnê com o repertório e formato de seu Acústico MTV.

    Em 2013, após o Grupo Abril não renovar os direitos da emissora no Brasil, a MTV Brasil passou a ser comandada pela empresa de mídia Viacom e deixou a TV aberta para se tornar um canal da TV por assinatura.

    Para o diretor de talentos e música da MTV, Caio Corsalette, essa nova conjuntura não deve prejudicar o alcance do programa — pelo contrário. “Hoje o alcance é maior. Ele não está restrito apenas à TV e ao formato físico [disponível] nas lojas. Há diversos outros players para se ver e ouvir”, disse.

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