Como a eleição na Áustria espelha o dilema político da Europa

Extrema direita e Partido Verde perdem para forças tradicionais, mas se mantêm como possíveis fiadores de um novo governo

     

    O OVP (Novo Partido do Povo, em português), do ex-premiê Sebastian Kurz, venceu a eleição parlamentar realizada neste domingo (29) na Áustria. Mas o resultado, por si só, não diz muito.

     

    Para governar, a legenda, de direita, terá agora de tentar formar uma coalizão majoritária. Para isso, sairá em busca do apoio de partidos menores, que possam somar forças em nome de um projeto comum de governo.

     

    As opções de coligação que o OVP tem diante de si refletem, na reduzida escala austríaca, os dilemas políticos que envolvem atualmente vários países da Europa, de maneira mais ampla.

     

    De um lado, cresce a força do Partido Verde, que defende causas ligadas ao meio ambiente. De outro, aparece a extrema direita ultranacionalista. Em grande parte da Europa, essas duas forças têm sido cada vez mais protagonistas nos processos eleitorais. Na Áustria, não é diferente.

     

    Como terceira via, o OVP poderia ainda optar por uma aliança com o SPO (Partido Social Democrata). Kurz, porém, avisou durante a campanha que pretendia governar com “políticas adequadas de centro-direita”, o que reduz as chances de uma aliança com o setor social-democrata austríaco, de centro-esquerda.

     

    A matemática da eleição parlamentar

     

    Para governar sozinho, o OVP, de Kurz, precisaria ter conquistado 92 dos 183 assentos que compõem o Conselho Nacional da Áustria (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil). Como conseguiu apenas 71, o partido terá de buscar a diferença, de 21 assentos, em outros partidos, menos votados.

     

    Resultados

    Gráfico_Áustria
     

     

    Esse jogo de composição matemática é próprio dos sistemas parlamentaristas. Nesses sistemas, o partido que obtém, sozinho, a maioria dos assentos, governa sozinho.

     

    Entretanto, se nenhum partido obtém sozinho essa maioria absoluta, é dada a chance para que o partido mais votado - como é o caso, agora, do OVP - tente formar uma coalizão com outros partidos. Se o partido mais votado fracassa, é dada a mesma chance ao segundo partido mais votado.

     

    Se nenhum dos dois partidos mais votados consegue formar uma aliança com seus respectivos campos de afinidade, o mais provável é que o país volte às urnas para uma nova eleição. Guardadas as devidas particularidades,  é um sistema comum a outros países europeus, como a Espanha, a Itália e o Reino Unido.

     

    As opções de Kurz

     

    Como partido mais votado, o OVP tem que formar coalizão com o FPO, de extrema direita, ou com os verdes, ecologistas, se quiser governar. A terceira opção de aliança, com os sociais-democratas, é considerada menos provável, dadas as declarações de Kurz durante a campanha.

     

    A saída pela extrema direita

     

    Na primeira opção, se optar por coligar-se com o FPO, de extrema direita, Kurz estará reeditando uma aliança que, em maio, acabou mal. Os dois partidos, FPO e OVP, eram parte do mesmo governo há apenas quatro meses.

     

    A aliança se desfez depois de um escândalo apelidado de “Ibizagate”. Heinz-Christian Strache, líder do FPO e até então vice-chanceler da Áustria, foi flagrado num vídeo, gravado com uma câmera escondida, oferecendo contratos governamentais em troca de apoio financeiro a uma mulher que se fez passar por uma milionária russa, num encontro em Ibiza.

     

    O escândalo levou ao fim da coalizão e, consequentemente, à convocação de novas eleições, como previsto nos sistemas parlamentaristas. Entre a eleição anterior, de 2017, e a eleição deste domingo (29), o FPO, protagonista do escândalo de Ibizagate, perdeu dez pontos percentuais, passando de 26% para 16% agora.

     

    Apesar o escândalo e do tombo, a extrema direita representada pelo FPO continua forte na Áustria. Analistas políticos locais consideram que alguns temas introduzidos pelo FPO, como o ultranacionalismo em contraposição à imigração, vieram para ficar.

     

    A saída ecologista

     

    Se a ponte com a extrema direita é uma reedição de uma aliança passada, a coligação com os verdes daria a Kurz uma imagem renovada, de futuro.

    Foto: Georg Hochmuth/AFP - 29.09.2019
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    Sebastian Kurz, da OVP
     

    O movimento ambientalista cresce na Europa. Na mais recente eleição para o Parlamento Europeu, realizada em maio, por exemplo, os verdes conquistaram 67 assentos, 17 a mais na comparação com a eleição anterior. Esse crescimento reflete a preocupação crescente com o tema ambiental em toda a Europa.

     

     

    Na Áustria, a legenda ecologista também deu um salto. Ela obteve 3,8% dos votos na última eleição nacional, em 2017. Nesta, agora, obteve 14% dos votos. O atual presidente austríaco, Alexander van der Bellen, é membro do Partido Verde.

     

    O embate entre as duas opções - a extrema direita e os verdes - pode ser visto não apenas no Parlamento, mas também na sociedade civil austríaca. Um exemplo dessa divisão é receptividade ao trabalho do artista suíço Klaus Littmann.

     

    Em maio, ele montou um trabalho de arte que consistiu em plantar uma pequena floresta, formada por 300 árvores, no gramado do estádio de futebol de Wörthersee, o segundo maior da Áustria, na cidade de Klagenfurt, na Caríntia.

     

    A obra foi saudada como visionária por uma parte da sociedade austríaca, por mostrar uma visão da natureza confinada num futuro distópico, como acontece hoje com animais de zoológico.

     

    Por outro lado, a extrema direita protestou, dizendo que as árvores sequer eram austríacas, já que foram importadas de diversas partes da Europa. Os críticos também não gostaram do fato de o autor da obra não ser austríaco, mas suíço. E, por fim, reclamaram da interdição do estádio para os jogos de futebol do time do local na segunda divisão.

     

    O autor da obra chegou a ser agredido na rua por pessoas descontentes com seu trabalho. Num dos protestos, manifestantes ergueram motosserras do lado de fora do estádio de Wörthersee.

     

    A possível saída pelo meio

     

    Embora Kurz tenha dito que pretende fazer um governo de direita, é possível ainda que ele consiga entabular uma negociação que torne possível embarcar o Partido Social-Democrata em seu governo.

     

    Se isso acontecer, seria uma reedição da “grande aliança” que vigorou na Áustria antes da ascensão da extrema-direita na eleição em 2017.

     

    Ainda com uma aliança como essa sendo formada, alguns analistas locais consideram que o recuo da extrema-direita não seria total, pois os temas trazidos pela FPO para a agenda austríaca foram incorporados por outros setores, e vieram para ficar.

     

    “Não se deixe enganar pelo resultado do FPO. Uma das razões pelas quais Kurz tornou-se tão forte é sua política migratória. A direita radical pode estar eleitoralmente mais fraca, mas sua agenda continua proeminente e influenciará as conversas para a formação de um novo governo”, escreveu em sua conta no Twitter Aline Burni, doutora em ciência política, especialista no estudo da extrema direita, professora visitante na Universidade de Nova York e membro do centro de estudos DIE (Instituto de Desenvolvimento Alemão).

     

    Ao Nexo, Burni disse considerar mais provável que Kurz, desta vez, surpreenda, propondo mesmo uma aliança ao Partido Social Democrata, em vez de insistir numa reedição da parceria com a extrema-direita ou de ousar numa ligação com os verdes, “com os quais o OVP tem uma agenda muito diferente”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

     

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