Por que a ativista Greta Thunberg é alvo de tanto ataque

Vítima de notícias falsas, sueca de 16 anos é criticada por seu ativismo, sua atitude e até por ter síndrome de Asperger. O ‘Nexo’ falou com um cientista do clima e uma psicanalista sobre as motivações de quem se opõe à adolescente

     

    A ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, ganhou destaque no noticiário internacional por suas ações e falas. Em discurso na Cúpula do Clima das Nações Unidas, em Nova York, em 23 de setembro, proferiu declarações que depois foram amplamente reproduzidas na mídia e nas redes sociais.

    “Vocês vêm até a gente, os jovens, em busca de esperança. Como ousam?”, desafiou. Em tom indignado, ela questionou líderes mundiais e chefes de Estado pelo que considera descaso com relação ao problema do meio ambiente.

    A jovem já vinha sendo agredida por perfis de direita e que negam o aquecimento global. Após o discurso na ONU, no entanto, a campanha anti-Greta se intensificou, partindo de comentaristas de rádio e televisão, no Brasil e no exterior.

    O uso de notícias falsas

    Muitas das investidas contra Greta se valiam de notícias falsas para atacar a ativista. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), de 35 anos, compartilhou uma imagem falsa em que Greta aparece comendo em um trem enquanto na janela se veem crianças negras em um aparente cenário de pobreza.

    Sites de checagem de fatos apontaram que a imagem era uma montagem, facilmente identificada quando se analisa a proporção e o posicionamento das crianças em relação à Greta dentro do trem.

    Assim como várias outras postagens e comentários, o tuíte do filho do presidente Jair Bolsonaro acusava Greta de ser financiada pela organização do bilionário húngaro-americano George Soros, frequentemente citado pela direita como patrocinador de pautas da esquerda.

    Em nota enviada ao UOL, a fundação de Soros afirmou que “presta solidariedade à corajosa juventude de ativistas climáticos que lutam por ações imediatas acerca da crise global”, mas que “George Soros e a Open Society Foundations não financiam o trabalho da senhorita Thunberg junto à Fridays for Future”, ONG estudantil que luta contra as mudanças climáticas.

    Ao site, a Fridays for Future também negou o apoio: “Nós não recebemos nenhum financiamento de George Soros”.

    Em outra montagem que circulou em redes sociais, Greta é descrita como neta de George Soros. Outra imagem falsa mostra a adolescente no colo de um homem mais velho com o rosto de Soros - é, na verdade, uma manipulação em que o rosto do bilionário foi colocado no lugar do ex-vice-presidente americano e ativista ambiental Al Gore, personagem original da imagem.

    Ataques ao autismo

    Outras agressões fizeram referência ao fato de Greta ter síndrome de Asperger, um transtorno do espectro do autismo que afeta a sociabilidade e a linguagem corporal.

    Maxime Bernier, político de extrema direita canadense, afirmou que Greta era “mentalmente instável”. “Não apenas autista, mas obsessiva-compulsiva, distúrbio alimentar, depressão e letargia, e vive nesse estado constante de medo. Ela quer que sintamos o mesmo”, disse. Diante da repercussão ruim, Bernier voltou atrás e pediu desculpas pelo comentário.

    Greta rebate esse tipo de comentário com a ideia de que a síndrome é um “super-poder”, pois a ajudou a ter foco em sua missão e a ter clareza a respeito do que está em jogo na questão climática. “Para nós que estamos no espectro, quase tudo é preto ou branco. Não somos muito bons em mentir e geralmente não gostamos de participar desse jogos social que o restante de vocês parece gostar tanto”.

    A percepção “preto ou branco” foi motivo de críticas do jornalista Luiz Megale, apresentador da Rádio Bandeirantes, que afirmou que Greta tem um ódio “que não faz parte da constituição de uma menina de 16 anos”. E emendou: “Provavelmente um resultado do tipo de autismo chamado Asperger” que faria com que ela tivesse “dificuldade de enxergar os tons de cinza”. O vídeo foi reproduzido por dezenas de páginas de direita no Facebook.

     

    Menos sutil, o colunista Rodrigo Constantino chamou Greta de “retardada” em um comentário transmitido pela rádio Jovem Pan. O comentarista seguiu na toada de um convidado de um programa da emissora americana Fox News que rotulou Greta como “uma criança sueca mentalmente doente que está sendo explorada por seus pais e pela esquerda internacional”. A Fox News, posteriormente, pediu desculpas pela fala.

    À direita e à esquerda

    Talvez o perfil mais famoso a disparar contra a adolescente foi o do presidente americano Donald Trump. Em tom sarcástico, Trump escreveu que “ela parece ser uma jovem menina muito feliz, que está a caminho de um futuro maravilhoso e brilhante. Tão legal de ver!”. Em resposta, a adolescente pegou a frase “Uma jovem menina muito feliz, que está a caminho de um futuro maravilhoso e brilhante” para usar em seu perfil no Twitter.

    No Brasil, personagens conhecidos ligados à direita, como o músico Roger Rocha Moreira, o deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ), o jornalista Luís Ernesto Lacombe, a colunista Ana Paula Henkel e o comentarista Caio Coppola usaram seus espaços para criticar Greta Thunberg.

    No campo da centro-esquerda houve quem criticasse Greta por seu estilo de discurso e por falar de uma condição de privilégio, sendo branca e europeia. Entre esses perfis que questionaram a ativista, o mais conhecido é de Eduardo Jorge, filiado ao Partido Verde e candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva (Rede) nas eleições de 2018.

    No Twitter, Jorge acusou Greta de “substituir a paixão pela raiva” em seu discurso na ONU. Depois, aconselhou a ativista a ter mais compaixão e menos ressentimento, postura que “vai nos ajudar mais”, segundo ele.

    Outras garotas engajadas em ativismo climático também vêm sendo alvo de ataques nas redes sociais, de acordo com uma reportagem do site BuzzFeed. São crianças muitas vezes bastante jovens, como a americana Havana Chapman-Edwards, de 8 anos. A garota, que é negra, recebeu mensagens racistas, ameaças de morte e o contato de um homem que depois se descobriu ser um criminoso sexual. “A verdade horrível é que estas meninas são sujeitas ao lado mais profundamente sombrio das redes sociais diariamente”, afirmou a mãe de Havana.

    Interesses econômicos

    “Na verdade, seria surpreendente se Greta não despertasse essa enxurrada de reações pesadas contra a figura dela”, disse ao Nexo o professor Alexandre Costa, cientista do clima e professor da UECE (Universidade Estadual do Ceará). “Nós cientistas que convivemos com o problema das mudanças climáticas, e tentamos alertar a sociedade sobre a gravidade disso, já vivemos esses ataques há décadas, ainda que sem esse mesmo grau de exposição”.

    Para o especialista, o ataque à ativista repete modos de operação estabelecidos da indústria petrolífera. “O primeiro conjunto de ataques orquestrados à ciência do clima foi operado a partir dos bastidores da ExxonMobil no início dos anos 1990 com parceiros conservadores”, disse.

     

    Documentos vazados comprovaram a existência de uma estratégia para sabotar o Protocolo de Kyoto, acordo firmado em 1998 para restringir emissões de gases estufa. Essa manobra fez com que países como os Estados Unidos e a China se recusassem a assinar o protocolo.

    “Naquele tempo não haviam as redes sociais, então essa campanha era feita recrutando pessoas dentro da academia, da imprensa, da política, e semeando a dúvida, em uma estratégia muito parecida com a da indústria do tabaco”, disse Costa. Em 2009, a estratégia foi repetida no contexto da Cop-15, em Copenhague.

    “Às vésperas da conferência, foi gerado um factóide que ganhou o nome de Climate Gate. Foi o hackeamento dos e-mails de vários cientistas, a retirada de meia dúzia de frases fora de contexto, e a criação de uma falsa propaganda como se relatórios e dados científicos fossem passíveis de fraude”, afirmou ao Nexo.

    O lado psicológico da indignação

    O Nexo conversou com a psicanalista Maria Homem sobre as motivações por trás dos ataques à Greta. Homem é pesquisadora do Núcleo Diversitas da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, professora da Fundação Armando Álvares Penteado, e coautora de “Coisa de menina? Uma conversa sobre gênero, sexualidade, maternidade e feminismo” com o psicanalista Contardo Caligaris.

    A negação da verdade

    “Isso é uma ótima ponta de iceberg pois revela várias estruturas multifacetadas da nossa cultura. A primeira coisa é que tem uma posição que vou chamar de discurso de verdade. Atualmente, estamos num ponto em que se confunde subjetividade com não aceitar algo da ordem do demonstrável, do próprio paradigma que inventamos, que é o método científico. Então, sim, a Terra não é plana e, sim, há uma crise climática, ambiental. E cada vez mais conhecemos as forças políticas, econômicas e ideológicas por trás da negação.

    Mas é difícil mesmo mudar um sistema de vida em que estamos inseridos e é como se uma menina estivesse apontando tudo isso. É difícil realmente olhar a realidade e dizer ‘acho que estamos nos enroscando aqui”. Vivemos de um jeito que extrai muito da própria Terra e das pessoas. A gente é levado a produzir muito e a gastar muito. É um sistema irracional. Isso não é ser marxista, é para além de direita e esquerda.”

    A contestação ao sistema

    “É necessário discutir esse sistema, discutir porque gastamos e consumimos tanto. Greta está dizendo isso. Isso dói porque é como se desmontasse a casa, o básico, o aconchego da fantasia de que o mundo é assim mesmo. Por isso dizem ‘acorda, Greta, temos que produzir muito mesmo’, em meio a outros argumentos que vão fazer a defesa contra algo que começa a mostrar a rachadura no seu edifício psíquico. Significa que se você admite isso você diz: ‘e agora?’

    Quando a verdade bagunça sua visão do mundo, te deixa muito intranquilo, perde o sentido do seu trabalho, do seu sonho, do seu desejo, a forma de defesa clássica é atacar o emissor daquela mensagem. É infantil. Você bate na pessoa que te dá a notícia ruim, que te impôs um limite. Implica castração e a fantasia é que quero gozar mais e sempre.”

    A noção de juventude ideal

    “Esse processo diz respeito a algo que ainda vai acontecer, mas não está acontecendo ainda. Vivemos ainda uma lógica patriarcal, normalmente branca, imperialista, sempre dos adultos, dos mais velhos. Paulatinamente, a cultura tem dado um salto para uma possibilidade da juventude ser um sujeito. A ponto de fazermos uma idealização dessa juventude, como modo de levar a vida para qualquer idade. Mas, por outro lado, talvez a gente tenha que escutar mais os jovens menores de 18 anos e as crianças.

    Greta diz o seguinte, ‘eu quero falar, eu posso falar, eu tenho lugar de cidadania aqui’. Esse movimento que vai ser uma das últimas das revoluções, depois da feminista, negra, anticolonialista. As crianças também são sujeito, essa questão revela isso de maneira clara.

    Elas também vivem aqui e viverão mais do que nós. Paradoxalmente, quem tem 10, 20 ou 30 anos mais que Greta tem mais poder para prejudicar o mundo, mas menos poder lógico de opinar sobre o objeto do qual ele vai sair daqui a pouco. É como se o mais jovem tivesse mais “lugar de fala” sobre essa discussão e quem tivesse mais poder, cargo e dinheiro estivesse correndo o risco de ser deslegitimado nessa discussão.

    Outro ponto se revela no comentário sarcástico de Trump sobre “como é feliz essa criança”. Temos fantasias e projeções sobre como a infância deve ser feliz, então ficamos muito ofendidos quando uma criança não realiza essa fantasia. Quando vemos uma criança em sofrimento, primeiramente ficamos atônitos e compelidos a ajudar. Depois, ficamos com raiva quando essas crianças não realizam a nossa fantasia, esse delírio coletivo contemporâneo. Ele é falso. Adolescente sofre e se mata. Criança sofre e adoece. Não existe uma ilha de alegria e felicidade. Estamos lidando com o luto das nossas fantasias.”

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