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O que foi o grupo Mulheres Livres na Guerra Civil Espanhola

Martha Ackelsberg, autora de livro sobre o movimento, enumera para o 'Nexo' cinco lições dessa experiência para a luta contemporânea por igualdade

Enquanto a Espanha se encontrava dividida por uma guerra civil entre republicanos e fascistas, disputada entre 1936 e 1939, grupos de mulheres fundaram uma organização para combater o que viam como uma “escravidão tripla”: a ignorância, ser mulher e ser trabalhadora.

Era 1936 e o movimento em questão foi chamado de Mulheres Livres. Em menos de três anos de atuação, elas mobilizaram dezenas de milhares de mulheres no país e ofereceram programas de educação e capacitação, que iam desde a alfabetização e de cursos de mecânica e elétrica à educação sexual e aulas para falar bem em público.

A experiência era pouco conhecida dentro e principalmente fora da Espanha até o lançamento do livro “Free Women of Spain”, em 1991, nos Estados Unidos, resultado da pesquisa da historiadora Martha Ackelsberg, professora emérita de política e estudos de gênero do Smith College, nos EUA.

O livro ganhou em 2019 sua primeira edição brasileira, com o título “Mulheres livres: a luta pela emancipação feminina e a Guerra Civil Espanhola”.

Ackelsberg falou ao Nexo sobre as razões que levaram as espanholas a se organizar em uma entidade separada dos homens, sua relação com o feminismo que emergia ao redor do mundo, os objetivos e conquistas do movimento e as lições possíveis deixadas por ele para a luta contemporânea das mulheres por igualdade.

O surgimento da Mulheres Livres

A Mulheres Livres foi criada por militantes do movimento anarcossindicalista espanhol. Suas fundadoras atuavam principalmente na CNT (Confederación Nacional del Trabajo), entidade que reunia os sindicatos espanhóis dessa orientação política.

O que as levou a estabelecer uma organização própria foi o fato de que, embora o movimento anarcossindicalista na Espanha fosse formalmente comprometido em promover a igualdade entre mulheres e homens e alcançar um tratamento equitativo para ambos no ambiente de trabalho e na sociedade, não estava trabalhando para isso na prática.

A maioria dos sindicatos da CNT, mesmo aqueles em que as mulheres representavam a maioria dos operários, como era o caso da indústria têxtil, não levava a sério a organização das trabalhadoras.

Ackelsberg afirma que elas eram consideradas secundárias ou pelegas em potencial. “[Os sindicatos] ignoravam a exploração específica das mulheres no local de trabalho e não reconheciam as necessidades particulares (por exemplo, para a gravidez e os cuidados com os filhos) que elas poderiam ter”, diz a autora.

O mesmo ocorria nas organizações de jovens anarquistas, como a Federación Ibérica de Juventudes Libertárias, nas quais as garotas também eram frequentemente ignoradas, ridicularizadas, tratadas de maneira desrespeitosa e degradante.

“Em resumo, essas mulheres criaram uma organização separada com o objetivo geral de pressionar o movimento mais amplo a estar à altura de sua declaração de compromisso com a igualdade para as mulheres”, disse Ackelsberg.

A organização pretendia empoderar as mulheres para assumirem, ao lado dos homens, um lugar nos sindicatos, no ambiente profissional e na sociedade.

Elas acreditavam que apenas com uma organização própria, atuando de maneira auto-organizada, as mulheres poderiam se ver como capazes de participar do movimento como iguais e, por consequência, ser tratadas dessa forma pelos homens.

“A esperança – e a expectativa – delas era que, uma vez aptas a reconhecer suas próprias capacidades e a superar as múltiplas dimensões da ignorância que havia restringido suas vidas, elas poderiam lutar ao lado dos homens por uma sociedade ‘mais humana e mais justa’ para todos”, explica Ackelsberg.

A condição feminina no país

Na Espanha dos anos 1930, a taxa de analfabetismo era muito elevada e a Igreja Católica exercia um controle significativo sobre a educação.

Na maior parte do país, as mulheres se encontravam sob a tutela de seus pais ou maridos e não era esperado que trabalhassem fora de casa ou mesmo que se aventurassem no espaço público sem estarem acompanhadas por um homem. Tinham pouca ou nenhuma informação sobre seus corpos ou sobre sexualidade.

As que exerciam um trabalho remunerado o faziam em condições terríveis, sob frequente assédio moral e sexual, e recebiam salários miseráveis.

Essas dificuldades estavam na mira da Mulheres Livres e eram atacadas pelos programas da organização.

A identificação com o movimento feminista

As integrantes da Mulheres Livres não se identificavam como feministas. Para elas, o feminismo representava uma luta por igualdade dentro do sistema político e econômico existente. Elas o associavam à luta pelo voto feminino, ao acesso à educação superior e a posições profissionais, pautas centrais para o feminismo das primeiras décadas do século 20 em diferentes países.

“Como anarquistas que se opunham ao poder político e a todas as formas de autoridade hierárquica, elas viam [essas questões] como irrelevantes para as necessidades das mulheres da classe trabalhadora”, afirmou Martha Ackelsberg.

A maior parte das mulheres entrevistadas durante o processo de pesquisa para o livro, incluindo uma das fundadoras da organização, afirmaram saber pouco ou nada a respeito dos movimentos pela emancipação das mulheres que vinham ocorrendo no mundo. Uma delas, chamada Soledad Estorach, disse a Ackelsberg: “não tínhamos ouvido falar de feminismo; nenhuma de nós tinha ido à França”.

As criadoras da Mulheres Livres não se viam como parte de um feminismo global, e sim como uma organização que operava especificamente no meio anarquista espanhol, fazendo um chamado para que o movimento atendesse ao compromisso com a dignidade de todas as pessoas e com a superação de todas as hierarquias, incluindo as de gênero.

As realizações do grupo

Ao longo de menos de três anos de existência, a organização mobilizou mais de 20 mil mulheres da Espanha republicana e desenvolveu uma extensa rede de atividades que tinha por objetivo empoderar individualmente as mulheres e construir um senso de comunidade entre elas.

O movimento estabeleceu uma espécie de sede em Barcelona, chamada “Casal de la Dona Treballadora”, que oferecia todo tipo de curso. Publicaram 14 edições de um jornal com o nome da organização, Mujeres Libres, que alcançou milhares de homens e mulheres no país.

A Mulheres Livres ofereceu alfabetização, formação cultural e social, formação de aprendizes de enfermagem, agricultura, avicultura, mecânica e elétrica, cursos sobre reprodução, maternidade, cuidados com crianças e sexualidade, aulas voltadas à capacidade de oratória, para que pudessem representar a organização, falando dela para outras mulheres e para integrantes do movimento anarcossindicalista.

Houve ainda programas para qualificar prostitutas, dando a elas alternativas de sustento, programas de serviço social voltados para a população deslocada pela guerra civil e, de maneira mais geral, programas que permitiam às mulheres se enxergarem como agentes históricos competentes.

“Ter feito tudo isso em meio a uma guerra civil brutal foi uma realização extraordinária”

Martha Ackelsberg

Ao Nexo

Para a autora, a experiência da organização proporciona lições importantes para a luta das mulheres e para movimentos progressistas contemporâenos em geral. Veja abaixo esse legado em cinco pontos centrais.

O empoderamento

Para a Mulheres Livres, empoderar as mulheres era um processo tanto individual quanto coletivo. Levando em conta que a visão de alguém sobre si é criada a partir da comunidade na qual vive, elas buscavam criar um contexto em que as mulheres gozassem do respeito necessário para desenvolver suas capacidades.

“Embora a situação geral das mulheres (no Brasil e na Espanha) seja, é claro, bem diferente hoje do que era na época, acredito que essa é uma lição tão relevante hoje quanto foi nos anos 1930. Mulheres, e pessoas em geral, precisam de contextos em que possam desenvolver suas capacidades, ser tratadas e ver a si mesmas como competentes e respeitadas como participantes integrais de um processo de mudança. Os processos de transformação pessoal e transformação social estão profundamente conectados”, disse Ackelsberg.

A liberação

A organização apresenta uma visão da emancipação das mulheres que não se baseia na conquista de posições de poder econômico, político ou social, mas na crítica total à autoridade hierárquica. Na visão delas, alcançar esses postos significaria necessariamente deixar outras pessoas – trabalhadores, desempregados, imigrantes – à margem e é preciso que todos trabalhem juntos para criar uma sociedade mais justa e humana. 

Comunidade, diversidade e igualdade

Ao mesmo tempo em que insistiram na autonomia de sua organização, enfatizando a necessidade de que as diferenças entre mulheres e homens fossem reconhecidas, o grupo exigia que um tratamento igualitário fosse dispensado a ambos. “Essa questão da igualdade na diferença se tornou, em nosso tempo, ainda mais instigante e complexa do que era para elas. Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos são sociedades que incorporam muitas comunidades diferentes, inseridas em estruturas profundamente hierarquizadas”, disse Ackelsberg. “O exemplo da Mulheres Livres nos desafia a criar maneiras de reconhecer diferenças culturais, de classe, gênero, sexualidade, raça e assim por diante, sem organizá-las de forma hierárquica e sem inviabilizar a possibilidade de mudança”.

A história da organização também ensina que não se pode deixar um ou mais grupos de lado quando se luta por uma revolução para todos. “Isso não significa que todo mundo deve se envolver em todas as lutas. Mas sim que cada grupo que está trabalhando por sua liberação precisa levar em consideração os demais grupos e as relações entre eles. Não estamos competindo uns com os outros nas ‘Olimpíadas da opressão’. Ao contrário, estamos todos lutando contra aqueles que desejam manter e reforçar uma sociedade hierárquica e opressora. É importante lembrar aquilo que compartilhamos”, diz Ackelsberg.

A emancipação

É importante lembrar que a Mulheres Livres instituiu programas fundamentais durante uma guerra civil violenta. Elas afirmavam não poder esperar até depois da guerra para tratar de problemas que consideravam urgentes.

Ackelsberg destaca que “elas insistiram no fato de que não seria possível obter êxito – na guerra ou na revolução – sem a participação integral e a emancipação das mulheres”.

Espaços de ação

“Especialmente nesse momento contemporâneo, no qual nos confrontamos com o enfraquecimento dos sindicatos de trabalhadores e de muitas instituições tradicionais de resistência, podemos nos lembrar da atuação delas no nível da comunidade”, disse Ackelsberg. “Como anarquistas, elas reconheciam que a ‘radicalização nasce da ação’. O desafio para nós agora é buscar esses espaços de ação”.

Ackelsberg enfatiza a importância de tornar esses espaços visíveis e conectar o ativismo existente, reconhecendo o poder que tem em conjunto. E de ter esperança, não perdendo de vista o mundo que os vários movimentos de hoje estão lutando para criar. “Porque estamos criando, todos os dias, o mundo no qual queremos viver”, diz.

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