Como vai ser o teste do Facebook de esconder likes

Seguindo os passos do Instagram, rede social vai começar a ocultar o número de curtidas, começando com usuários australianos

Em julho de 2019, o Instagram ocultou o número de likes dados nas publicações feitas em sua plataforma. Com a mudança, as curtidas passaram a ser acessadas apenas pelo próprio usuário que postou o conteúdo.

Outra plataforma do empresário Mark Zuckerberg fará o mesmo. O Facebook, maior rede social do mundo, com mais de 2,3 bilhões de usuários,  anunciou que vai testar a ocultação de curtidas para os usuários da Austrália a partir desta sexta-feira (27).

Jimmy Raino, porta-voz do Facebook, disse ao jornal The New York Times que o teste será limitado em um primeiro momento para que a empresa analise como os usuários reagem e se há alguma melhora na experiência dentro da plataforma. Não se sabe se a mudança será estendida a outros países no futuro.

O Facebook não divulgou uma justificativa para a realização do teste na Austrália. Porém, em abril de 2019, quando o Instagram começou a testar a ocultação dos likes, Adam Mosseri, líder da plataforma, afirmou ao BuzzFeed News que a decisão veio para que os usuários focassem mais no conteúdo do que no engajamento.

“Queremos criar um ambiente onde há menos pressão, onde as pessoas se sintam mais confortáveis em se expressar. Nós sabemos que as pessoas se preocupam com quantas curtidas recebem”, disse Mosseri.

Os efeitos psicológicos do like

Há um debate sobre os efeitos psicológicos de se receber likes em redes sociais.  Em entrevista ao Huffington Post, Hannah Schacter, doutora em psicologia pela Universidade do Sul da Califórnia, disse que, especialmente entre adolescentes, o Instagram e outras redes sociais são usadas como uma forma de se medir popularidade e de se auto-afirmar.

“Os likes no Instagram podem ser uma ferramenta poderosa para atender aos desejos de adolescentes em pertencer socialmente e ganhar aprovação. Por outro lado, os jovens podem se preocupar demais em se comparar com os outros e em monitorar a própria popularidade”, afirmou.

O centro britânico de pesquisas de saúde pública The Royal Society publicou um estudo em 2017 que relaciona o uso de redes sociais com o aumento nas taxas de depressão e ansiedade em jovens entre 16 e 24 anos.

Segundo a pesquisa, a correlação surge do fenômeno do "fomo", sigla em inglês para fear of missing out, o medo de se estar perdendo alguma coisa. De acordo com o estudo, os jovens, ao verem as publicações de quem seguem, começam a se comparar com os outros e muitas vezes criam a ideia de que poderiam estar aproveitando mais a vida, dando origem a um ideal inatingível de felicidade constante.

A Sociedade Americana de Psicologia publicou um estudo em março de 2019, também relacionando o uso intenso de redes sociais com o aumento de depressão, ansiedade e pensamentos suicidas nos jovens, bem como uma diminuição do tempo de sono desses usuários.

A pesquisa foi feita a partir de dados de 600 mil americanos, entre jovens e adultos. “As tendências culturais nos últimos 10 anos tiveram um efeito maior nos transtornos de humor e tendências suicidas nas pessoas jovens, se comparado com pessoas mais velhas”, diz a conclusão do artigo.

Sem mencionar especificamente o botão de curtir e sem entrar em detalhes de iniciativas futuras, Mark Zuckerberg, em entrevista ao Estadão, afirmou que a saúde mental dos usuários é uma das preocupações do Facebook.

A economia das curtidas

Os likes em redes sociais são base para todo um setor da economia criativa. Quando o Instagram anunciou que esconderia os números de curtidas, criadores de conteúdo e influenciadores digitais afirmaram que a mudança poderia afetar o desempenho de seus produtos.

As curtidas e os comentários são fator determinante para se definir o engajamento do público com o conteúdo publicado. Criadores de conteúdo usam esses números como forma de monetizar seus trabalhos.

Sem o número de likes disponível publicamente, alguns criadores afirmaram que teriam maior dificuldade em se relacionar com possíveis anunciantes e patrocinadores de conteúdo.

Por outro lado, há criadores que aplaudiram a decisão de se esconder os likes. Mattie Lacey-Davidson, influenciadora americana de moda, com mais de 19 mil seguidores no Instagram, afirmou ao site Dazed Digital que a ocultação do número de curtidas pode ser positiva, para que criadores de conteúdo se preocupem mais com o que é produzido do que com as estatísticas e oferecam conteúdo mais relevante para seus seguidores.

Como os likes são usados pelo Facebook

Os likes também são importantes para o ecossistema econômico do próprio Facebook.

Os usuários do Facebook recebem conteúdo compatíveis com seus interesses, e essa recomendação é feita com base no engajamento: likes, comentários e compartilhamentos de um determinado tipo de conteúdo farão com que mais publicações semelhantes apareçam em sua timeline.

Esse fato fez com que surgissem preocupações em torno da criação de bolhas sociais para os usuários, que no geral recebem conteúdos que corroboram com suas visões de mundo.

É a partir do engajamento que o Facebook traça perfis de usuários  com dados que posteriormente são usados para o direcionamento de publicidade personalizada, feitos por anunciantes que pagam para que seus conteúdos atinjam mais pessoas. O fenômeno traz preocupações no âmbito sociopolítico.

O The New York Times publicou uma reportagem em agosto de 2019 apontando que o presidente americano Donald Trump, atualmente em pré-campanha para reeleição, já direcionou mais de 2.000 anúncios personalizados nesse ano dentro da plataforma de Zuckerberg.

Os anúncios personalizados e o conteúdo recomendado com base nos likes foram decisivos na eleição de Trump em 2016, com a campanha direcionando publicações para usuários que possivelmente estivessem alinhados com as ideias de Trump.

À revista britânica Wired, Brad Parscale, diretor de mídias digitais da campanha de Trump, afirmou que o Facebook e o Twitter foram os responsáveis pela vitória do republicano.

Em entrevista ao site Techonomy, em novembro de 2016, Zuckerberg afirmou que o Facebook não teve nenhum impacto no resultado das eleições. “As pessoas votam com base em suas experiências de vida”, disse.

A ocultação do número de likes para os usuários não tem nenhum efeito prático para o direcionamento de conteúdos e de anúncios personalizados.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: