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Qual o legado de Jacques Chirac dentro e fora da França

Ex-presidente francês, que morreu aos 86 anos, fez-se conhecido por combinar suas convicções liberais com posturas republicanas e espírito de união nacional em momentos de divisão

     

    Morreu nesta quinta-feira (26), aos 86 anos, em Paris, o ex-presidente da França, Jacques Chirac. A causa da morte não foi divulgada, mas ele padecia de uma doença neurodegenerativa desde 2011 e tinha a capacidade de locomoção reduzida, além de perda progressiva da memória desde 2016.

    Chirac foi presidente da França por 12 anos (1995-2007) e prefeito de Paris por 18 (1977-1995), além de ter sido primeiro-ministro por quatro anos (1974-1976 e 1986-1988), deputado francês, deputado europeu e ministro responsável por várias pastas ao longo de diferentes governos.

    Em meio século de vida pública, tornou-se uma das grandes figuras políticas da França no século 20. Sua estatura como governante - em termo de realizações, legado e popularidade - situa-se abaixo de Charles De Gaulle (1959-1969) e, talvez, de François Mitterrand (1981-1995), mas acima de todos o demais presidentes que o sucederam.

    O anúncio da morte de Chirac foi acompanhado de inúmeras declarações de líderes políticos franceses de diversos matizes. Muitos deles realçaram o esforço que Chirac empreendeu ao longo da vida para construir uma imagem de presidente conciliador e plural, mais preocupado com a imagem de uma França unida e republicana do que com retóricas inflamadas e divisionismos de fundo ideológico.

    "A história da França vira uma página. Recebamos a tristeza, pois ela tem razão de ser. Ele [Chirac] amava a França mais que outros, que vieram depois. E por isso nós lhe somos gratos", disse o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, um dos partidos mais distantes de Chirac no espectro ideológico francês.

     

    O perfil estadista e as suspeitas de corrupção

    Privatista, Chirac incorporou na França a linhagem liberal representada pela primeira-ministra Margaret Thatcher (1979-1990) no Reino Unido e pelo presidente Ronald Reagan (1981-1989) nos EUA. Ainda assim, soube compor, e tornou-se chefe de governo do presidente Mitterrand de 1986 a 1988, quando os socialistas perderam a maioria na Assembleia Nacional e foram obrigados a formar um governo de união, no modelo de semipresidencialismo francês. 

    Foto: AFP - 25.04.1975
    Jacques_Chirac
    Jacques Chirac em 1975
     

    O apego ao figurino de estadista circunscrito aos valores do mainstream político-ideológico francês colocou-o como adversário da extrema direita no segundo turno das eleições presidenciais de 2002. À época, recebeu o apoio massivo de 82% dos eleitores do país, derrotando Jean-Marie Le Pen, e retardando a onda populista que agora volta a fustigar a França e a Europa.

    Ao longo da carreira, também se envolveu em casos ruidosos de corrupção. Em 2011, foi condenado por desvios de salários de funcionários fantasmas da Prefeitura de Paris para alimentar o caixa dois de seus partido. Chegou a ser condenado à prisão por esse caso, mas nunca cumpriu a pena, pela idade avançada. Além disso, teve denúncia arquivada por falta de provas num caso que envolvia a suspeita de ter mantido uma conta secreta no Japão.

    Nas diversas retrospectivas que passaram a ser exibidas nos canais franceses e internacionais, logo depois do anúncio da morte de Chirac, três fatos marcantes são citados como os maiores feitos da carreira política do ex-presidente francês, que deixa esposa e dois filhos.

     

    A culpa da França no holocausto

     

    Chirac foi o primeiro presidente a reconhecer a responsabilidade do Estado francês e de cidadãos franceses no holocausto de 76 mil judeus que foram deportados da França para campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

     

    Em julho de 1995, apenas dois meses após assumir a presidência em seu primeiro mandato, Chirac participou de uma cerimônia em memória dos mais de 8 mil judeus, dos quais mas de 2 mil eram crianças, confinados para deportação em julho de 1942, durante quatro dias, no Velódromo de Inverno de Paris.

     

    A operação foi conduzida por 9 mil policiais franceses que seguiam ordens do marechal Philippe Pétain, presidente da República de Vichy, nome dado ao governo colaboracionista francês que, em nome de sua preservação, aceitou a ocupação nazista de metade do país e ajudou ativamente na perseguição aos judeus, enquanto De Gaulle, exilado em Londres, tentava organizar as forças de resistência, que a partir das colônias e dos territórios ultramarinos franceses, triunfariam ao lado dos aliados em 1944.

     

    Vichy, assim como o colaboracionismo e o antissemitismo francês, era assuntos tabu em 1995, quando Chirac disse: “A loucura criminosa da ocupação foi, todos sabemos, apoiada pelos franceses, apoiada pelo Estado francês.”

     

    O compromisso com um projeto europeu

     

    A visão que Chirac tinha da União Europeia é a que prevalece hoje na fisionomia do bloco: a de um espaço comum entre 28 Estados soberanos, e não a de uma confederação em que os países-membros se tornam federações subordinadas a um poder central.

    A nuance anti-federalista de Chirac foi por vezes tomada como uma oposição ao projeto europeu em si. Mas essas dúvidas foram definitivamente dissipadas quando ele, ao lado do rival socialista Mitterrand, defendeu o “sim” no referendo de 1992 que validou a adesão francesa ao Tratado de Maastricht, documento fundacional da União Europeia em sua forma atual.

     

    Pragmático, Chirac passou a trabalhar, ao assumir seu primeiro mandato presidencial, ainda em 1995, para que a França e a Alemanha liderassem juntas o projeto europeu, apostando na reconstrução dos laços entre os dois países 40 anos após o fim da Segunda Guerra.

     

    Em 1999, seria ele a conduzir a França nos debates sobre a criação de uma moeda comum no interior do bloco, o euro, adotado hoje por 19 dos 28 países-membros da União Europeia.

     

    Chirac trabalharia ainda para colocar a França de volta à ativa na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), da qual De Gaulle havia se afastado em 1966. O processo de reintegração seria concluído em 2009 por Nicolas Sarkozy, que havia sido ministro do Interior de Chirac de 2002 a 2004.

     

    Ainda na área militar, Chirac foi responsável por retomar os testes com armas nucleares na Polinésia Francesa, o que rendeu uma das maiores ondas de protesto contra ele dentro da França, além de ter atraído críticas de outros países.

     

    A oposição à guerra no Iraque

     

    Em 2003, Chirac disse não ao pedido do presidente dos EUA, George W. Bush, para que a França tomasse parte numa coalizão que atacaria o Iraque. A resposta, inesperada, abalou à época a relação entre os dois países.

     

    Bush assegurava que o então presidente iraquiano, Saddam Hussein, possuía um arsenal de armas de destruição em massa que punha em risco a segurança dos EUA e de seus aliados.

     

    Em 2001, os EUA tinham sido alvo do atentado de 11 de Setembro, executado por membros do grupo terrorista Al-Qaeda, sob comando do saudita Osama Bin Laden. O revide americano foi dirigido, primeiro, contra o Afeganistão, que, sob controle dos taleban, servia de abrigo para Bin Laden e seus seguidores.

     

    Até esse ponto, a França solidarizou-se com os EUA e, como permanente do membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovou o uso da força. Porém, quando Bush quis expandir a campanha militar para o Iraque, Chirac se opôs.

     

    A posição de independência francesa teve ainda mais valor depois que o então premiê britânico, Tony Blair, alinhou-se aos EUA contra o Iraque.

     

    “É difícil levar a França a sério”, disse o então vice-presidente americano Dick Cheney. “A guerra é sempre uma admissão de fracasso e a pior de todas as soluções. Tudo deve ser feito para evitá-la”, disse Chirac em pronunciamento aos franceses na televisão.

     

    A guerra foi levada a cabo de maneira ilegal, sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. No fim, ficou provado que o alegado arsenal de armas de destruição em massa jamais existiu.

     

    Um relatório produzido depois de sete anos de trabalho, por investigadores britânicos concluiu em 2016 que o ataque ao Iraque, que custou mais de US$ 13 milhões ao Reino Unido, além da vida de 179 militares, foi um erro.

    Chirac, que suportou a desaprovação dos aliados à época, encontrou entre os franceses apoio quase unânime à sua decisão de se abster das ações militares e, com isso, reforçou a imagem de um político hábil e autêntico, como foi relembrado na quinta-feira (26) após o anúncio de sua morte, em toda a França.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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