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O que Bolsonaro disse em seu primeiro discurso na ONU

Presidente brasileiro estreia com discurso longo e agressivo, dirigido contra outros Estados-membros e com críticas às próprias Nações Unidas

 

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, discursou nesta terça-feira (24) na abertura dos Debates Gerais da 74ª sessão da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York.

Como é tradição desde 1947, o presidente do Brasil foi o primeiro chefe de Estado a discursar, logo após as introduções feitas pelo secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, e pelo presidente da 74ª sessão, o nigeriano Tijjani Muhammad-Bande.

 

Na sequência, 193 outros revezam-se no púlpito, tratando dos principais temas da agenda internacional, com especial destaque, este ano, para a questão ambiental.

 

O primeiro discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas desde que ele tomou posse, em janeiro de 2019, foi também o discurso mais agressivo da história brasileira na organização. Não há precedente para tantas menções negativas, diretas e indiretas, a outros Estados-membros da organização, como ocorreu este ano em relação a Venezuela, Cuba e França.

 

Bolsonaro foi o sétimo presidente do Brasil a discursar na Assembleia Geral da ONU desde a redemocratização do país, em 1985. Dos oito presidentes que o Brasil teve nesse período (1985-2019), apenas Itamar Franco (1992-1994) não discursou.

 

Qual o clima deste discurso

 

A fala do presidente brasileiro foi uma das mais aguardadas. Um mês antes, a política ambiental do Brasil havia sido alvo de críticas do presidente francês, Emmanuel Macron, que presidiu a cúpula do G7, em Biarritz, na França, da qual participaram ainda os líderes da Itália, do Canadá, dos EUA, da Alemanha, do Reino Unido e do Japão.

 

Na ocasião, Bolsonaro acusou Macron de adotar uma postura colonialista em relação ao Brasil, e disse ter entendido a preocupação do presidente da França com a Amazônia como uma ameaça à soberania brasileira. O clima de disputa aumentou a expectativa pelo discurso de Bolsonaro na ONU, onde, na véspera, Macron articulou programas de cooperação internacional com outros países amazônicos e mesmo com representantes de estados brasileiros, à revelia de Bolsonaro.    

 

Na noite anterior ao seu discurso, o presidente do Brasil saiu para jantar e deixou-se fotografar usando um colar indígena, dado a ele de presente pela índia Ysani Kalapalo. Em agosto, Bolsonaro disse que políticos brasileiros usam os índios no Brasil como “massa de manobra”. No mês seguinte, Kalapalo foi colocada na comitiva brasileira que acompanha o presidente em Nova York.

 

Outro elemento peculiar do discurso foi o fato de Bolsonaro ainda estar se recuperando de uma nova cirurgia, da qual recebeu alta no dia 16 de setembro. Essa intervenção foi a quarta relacionada aos ferimentos provocados pela facada que Bolsonaro recebeu durante a campanha eleitoral, em 2018, em Juiz de Fora (MG). A situação médica de Bolsonaro fez com que ele restringisse ao máximo a agenda em Nova York.

 

O discurso na abertura da 74ª Assembleia Geral foi o segundo feito por Bolsonaro a líderes internacionais desde que ele estreou, no Fórum Econômico Mundial de Davos, em 22 de janeiro. Na ocasião, o presidente fez um dos discursos mais curtos da história do evento, de apenas 6 minutos. Agora, na ONU, o presidente brasileiro falou por mais de 31 minutos, excedendo o limite regulamentar de 20 minutos.

 

As referências ao socialismo

 

Após agradecer à mesa, a primeira frase proferida por Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas foi: “Apresento aos senhores um novo Brasil, que ressurge depois de estar à beira do socialismo.”

Foto: Don Emmert/AFP - 24.09.2019
Jair Bolsonaro antes de iniciar discurso na ONU
Jair Bolsonaro antes de iniciar discurso na ONU
 

Logo no início, Bolsonaro associou os governos do PT, eleitos democraticamente em quatro pleitos, ao “socialismo”, e associou a palavra a uma lista de aspectos negativos do Brasil. Para ele, o país “esteve muito próximo do socialismo”, o que levou a uma “situação de corrupção generalizada, grave recessão econômica, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos”.

 

 

O Programa Mais Médicos, criado em 2013 pela então presidente Dilma Rousseff, em parceria com o governo de Cuba e a Organização Pan-Americana da Saúde, foi criticado por Bolsonaro como exemplo de “trabalho escravo” associado à “ditadura cubana”. O programa foi “respaldado por entidades de direitos humanos do Brasil e da ONU”, pontuou com ênfase, numa crítica direta às próprias Nações Unidas.

 

Sem apresentar evidências nem citar casos concretos, Bolsonaro afirmou que “agentes cubanos foram enviados a diversos países para colaborar com a implementação de ditaduras”, por meio de programas como o Mais Médicos.

 

Num salto no tempo, o presidente conectou o momento atual com a ditadura brasileira (1964-1985), sem chamá-la como tal. “Civis e militares brasileiros foram mortos e outros tantos tiveram suas reputações destruídas, mas vencemos aquela guerra e resguardamos nossa liberdade”, disse o presidente.

 

Todo o discurso foi pontuado por menções a outros Estados-membros da ONU. Depois de atacar Cuba, Bolsonaro atacou a Venezuela, onde governo (Nicolás Maduro) e oposição (Juan Guaidó) reivindicam para si o legítimo controle do Executivo, num impasse sem solução à vista. “O socialismo está dando certo na Venezuela. Todos estão pobres e sem liberdade”, disse em referência ao socialista Maduro, adversário do atual governo brasileiro, que não é reconhecido como presidente por mais de 50 países do mundo.

 

“Nos empenhamos duramente para que outros países da América do Sul não experimentem esse nefasto regime”, disse ainda Bolsonaro, sem dar detalhes de que empenho está sendo feito.

 

No mesmo tópico, ele citou a deportação de ex-membros de grupos de esquerda do Chile, do Paraguai e da Itália, como Cesare Battisti, para dizer que “terroristas sob o disfarce de perseguidos políticos não mais encontrarão refúgio no Brasil”.

 

Crise ambiental

 

Depois da introdução ideológica, pautada pelo tom de Guerra Fria (1945-1991), Bolsonaro passou a falar da questão ambiental, atribuindo a outros países e às ONGs internacionais um ânimo intervencionista, predador e colonialista contra o Brasil.

 

O presidente disse que preside um dos países que “mais protegem o meio ambiente” no mundo. De acordo com ele, “o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas” pelas quais o país vem sendo criticado, de maneira “sensacionalista” por “parte da mídia internacional”.

“Vale ressaltar que existem também queimadas praticadas por índios e populações locais, como parte de sua respectiva cultura e forma de sobrevivência”

 

Bolsonaro reivindicou a soberania brasileira sobre a Amazônia, ecoando discursos de outros presidentes brasileiros, que disseram o mesmo, no mesmo púlpito, no passado. Mas ele foi além: “É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade”.

 

“Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista”, disse, referindo-se à França pelo entrevero com Macron em agosto, sem citar nominalmente o país.

 

Após criticar Macron de maneira velada, Bolsonaro afagou o presidente dos EUA, Donald Trump, “que bem sintetizou o espírito que deve reinar entre os países da ONU: respeito à liberdade e à soberania de cada um”. Além dos EUA, o governo de Israel também foi elogiado nominalmente, pelo apoio aos “recentes desastres” ocorridos no Brasil, como a tragédia com a barragem de Brumadinho.

 

Assim como dizia na campanha eleitoral, Bolsonaro voltou a repetir que não fará novas demarcações de terras indígenas, “como alguns chefes de Estados gostariam que acontecesse”.

 

Em novo ataque à França, Bolsonaro disse que o cacique Raoni é usado “como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”. Raoni esteve com Macron em Paris, em abril.

 

O presidente brasileiro acusou outros países, assim como seus antecessores, de quererem manter os índios “como verdadeiros homens das cavernas”.

 

“O Brasil agora tem um presidente que se preocupa com aqueles que lá estavam antes da chegada dos portugueses. O índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas. Especialmente das terras mais ricas do mundo”

No meio do discurso, Bolsonaro fez referência à presença de Ysani Kalapalo e leu uma carta que ele disse ter recebido de um Grupo de Agricultores Indígenas, que, segundo a agência oficial de notícias EBC, controlada pelo Governo Federal, realizou apenas em fevereiro seu primeiro encontro nacional, em Mato Grosso.

 

Na carta, o grupo reclama das “tentativas de instrumentalizar a questão ambiental ou a política indigenista, em prol de interesses políticos e econômicos externos, em especial os disfarçados de boas intenções”.

 

Embora tenha aparecido em novembro de 2017 segurando uma camiseta com os dizeres “direitos humanos esterco da vagabundagem”, numa foto postada pelo próprio filho, o vereador Carlos Bolsonaro, o presidente disse na ONU que “reafirma seu compromisso intransigente com os mais altos padrões de direitos humanos”.

 

Num momento, Bolsonaro prometeu defender a liberdade de imprensa. Segundos depois, em outro trecho, afirmou que parte da mídia foi comprada por “presidentes socialistas” que o antecederam. Na sequência, mencionou nominalmente o ministro da Justiça, Sergio Moro, que, antes de unir-se ao governo, foi responsável pelos julgamentos da Lava Jato em Curitiba.

 

Ainda sobre direitos humanos, o presidente brasileiro dedicou parte do discurso a condenar ataques a comunidades cristãs, judaicas e islâmicas no mundo, mas não fez referência aos ataques que os adeptos de religiões afro-brasileiras sofrem no Brasil.

“É inadmissível que, em pleno século 21, com tantos instrumentos, tratados e organismos com a finalidade de resguardar direitos de todo tipo e de toda sorte, ainda haja milhões de cristãos e pessoas de outras religiões que perdem sua vida ou sua liberdade em razão de sua fé”

Antiglobalismo

 

Na visão expressa pelo presidente brasileiro, a ONU deveria “ajudar a derrotar o ambiente materialista e ideológico que compromete alguns princípios básicos da dignidade humana”. Ele citou trecho da Bíblia, livro considerado sagrado pelos cristãos, para embasar sua visão sobre qual deveria ser a função das Nações Unidas.

 

“A ideologia se instalou no terreno da cultura, da educação e da mídia, dominando meios de comunicação, universidades e escolas. A ideologia invadiu nossos lares para investir contra a célula mater de qualquer sociedade saudável, a família [...] A ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu.”

 

“Todos os nossos instrumentos, nacionais e internacionais, devem estar direcionados, em última instância, para esse objetivo”, disse em referência à passagem contida em João, capítulo 8 versículo 32: “E conheceis a verdade, e a verdade vos libertará”.

 

Coerente com a visão soberanista expressa sobretudo pelo chanceler Ernesto Araújo e por seu assessor Filipe Martins, Bolsonaro questionou a multilateralidade e a governança global encarnadas pela ONU, frequentemente referida como “globalismo” por membros do atual governo brasileiro.

 

“Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um ‘interesse global’ abstrato. Esta não é a Organização do interesse global”, disse o presidente no encerramento de seus discurso, em trecho que foi replicado por Martins no Twitter, pouco antes do seguinte comentário, escrito em inglês: “Not today, globalists. Not today” (Hoje não, globalistas. Hoje não)

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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