As críticas ao novo filme do Coringa. E a cultura incel

Longa que conta a história do icônico vilão dos quadrinhos do Batman é criticado por aproximar protagonista de comunidade relacionada a episódios violentos

     

    Vencedor do Leão de Ouro, troféu máximo do Festival de Veneza, um dos mais importantes eventos cinematográficos do mundo, “Coringa” é uma das apostas para a temporada de prêmios de 2020. Estrelado por Joaquin Phoenix, o filme conta a origem do clássico vilão dos quadrinhos do Batman.

    Com estreia global marcada para 3 de outubro, o longa começou a despertar preocupações após suas primeiras exibições. A trama de “Coringa” gira em torno de Arthur Fleck, um aspirante a comediante residente da fictícia cidade de Gotham. Após ser marginalizado diversas vezes pelos cidadãos do local, Fleck enlouquece aos poucos, no processo que o transforma no psicótico e violento vilão consagrado nas HQs da editora DC Comics.

    Após as primeiras exibições públicas de “Coringa”, surgiram críticas que sugeriram que o longa seria potencialmente perigoso por se aproximar da comunidade “incel”.

    O que é a comunidade incel

    Incel é a abreviação de involuntary celibates, ou celibatos involuntários, termo usado para nomear uma comunidade que se reúne em redes sociais e fóruns online. O grupo é formado quase exclusivamente por homens heterossexuais adultos que têm dificuldade para se relacionar sexualmente com mulheres. Por trás da filosofia da comunidade, há um suposto “direito ao sexo” que lhes foi tolhido que, muitas vezes, é reivindicado de maneira agressiva.

    A comunidade incel tem um histórico de episódios reais de violência. Casos de tiroteios em massa nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo já foram atribuídos a atiradores que participavam dos grupos, muitas vezes anunciando suas ações nessas comunidades online.

    Em março de 2019, dois atiradores invadiram uma escola em Suzano, no interior de São Paulo, e abriram fogo contra os alunos. Dez morreram e 11 ficaram feridos. Durante as investigações, descobriu-se que ambos participavam de uma comunidade incel na internet e que, antes do atentado, pediram dicas para arquitetar o ataque.

    ‘Potencialmente tóxico’

    As críticas a “Coringa” começaram logo após as primeiras exibições do filme. David Ehrlich, crítico de cinema do site Indie Wire, afirmou que o longa é uma “reinvenção ousada” dos filmes de super-heróis. Para ele, no entanto, o filme também é um “choro revoltado de incels que sentem pena de si mesmos”. Ehrlich rotulou o longa como “potencialmente tóxico”.

    Stephanie Zacharek, crítica de cinema da revista Time, afirmou que “Coringa” transforma “um cara triste que não consegue marcar um encontro em um herói assassino” e que o personagem poderia ser eleito o “santo padroeiro dos incels”.

    Para Richard Lawson, crítico de cinema da revista Vanity Fair, o filme pode ser uma “propaganda irresponsável” que valida os tipos de comportamentos que supostamente deveria condenar.

    A relação feita entre “Coringa” e os incels desagradou a Joaquin Phoenix, ator que vive o vilão protagonista do filme. Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, o ator foi questionado se sentia preocupação de o longa possivelmente inspirar pessoas que se identificam com os dramas de Arthur Fleck. Phoenix se recusou a responder e deixou a sala de entrevista.

    Ao site especializado IGN, Phoenix falou sobre a questão. “Eu não acho que seja responsabilidade de um cineasta ensinar a diferença entre o certo e o errado para o público. As pessoas podem interpretar letras de músicas de maneira errada, podem interpretar livros de maneira errada”, afirmou. “Se alguém está nesse nível de distúrbio emocional, qualquer coisa pode ser um gatilho”, acrescentou.

    Apesar das críticas negativas, “Coringa” tem sido avaliado positivamente de forma geral. No site Rotten Tomatoes, que reúne opiniões de críticos dos principais veículos de comunicação do mundo, o longa tem 76% de aprovação. Após sua exibição no Festival de Veneza, o filme recebeu oito minutos de aplausos.

    O apelo por menos armas

    Em 2012, na estreia de “Batman: O cavaleiro das trevas ressurge”, um homem entrou armado em uma sala de cinema na cidade de Aurora, no estado americano do Colorado, matando 12 pessoas e ferindo cerca de 70.

    Familiares das vítimas escreveram uma carta para a Warner Bros. pedindo que o estúdio, que produziu “Coringa”, se posicionasse em relação à questão do acesso às armas nos EUA.

    “Quando soubemos que a Warner Bros. estava lançando um filme chamado ‘Coringa’, que apresenta o personagem como um protagonista de uma história de origem que causa empatia, paramos por algum tempo”, disse o texto enviado ao estúdio.

    “Queremos deixar claro que apoiamos o direito à liberdade de expressão. Mas há algo que qualquer pessoa que viu um filme baseado em quadrinhos pode dizer: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Estamos pedindo que sua gigantesca plataforma de influência se junte a nós em uma luta para uma comunidade com menos armas”, prosseguiu o texto. A Warner não comentou o conteúdo da carta.

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