Ir direto ao conteúdo

A fala de Bolsonaro na ONU analisada por 4 especialistas

Ao ‘Nexo’, profissionais e pesquisadores de relações internacionais, questões indígenas, ciência política e história comentam o discurso do presidente em Nova York

     

    O discurso do presidente Jair Bolsonaro, na terça-feira (24), durante a abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, nos Estados Unidos, foi carregado de ataques a outros países na questão ambiental e de tons ideológicos do seu grupo político, com investidas contra o socialismo e ao que chama de globalismo.

    Às vésperas do encontro, esperava-se que o presidente adotasse uma postura mais conciliadora, como ocorreu em seu pronunciamento em rede nacional no final de agosto, quando ele tentou reverter a crise internacional gerada pelas queimadas na Amazônia.

    Bolsonaro, porém, buscou marcar com sua fala o que classificou de o “início de uma nova era” para o Brasil. Ao jornal Folha de S.Paulo, um dos auxiliares do presidente que participou da elaboração do texto afirmou que ele tentou imprimir a imagem de um “governo revolucionário”.

    O Nexo pediu para que especialistas em história, questões indígenas,  relações internacionais e ciência política analisassem quatro pontos do discurso do presidente.

    A ameaça do socialismo

    Bolsonaro disse que o Brasil “esteve muito próximo do socialismo” no passado, situação que teria gerado corrupção generalizada, recessão econômica, altas taxas de criminalidade e ataques aos valores familiares e religiosos. Ele associou o Programa Mais Médicos, que levou atendimento de saúde a quase 63 milhões de pessoas em 4.058 municípios, ao “trabalho escravo” de cubanos respaldado pela ONU e por entidades de direitos humanos. Sugeriu que a iniciativa visava a implementar o socialismo no país. “A história nos mostra que, já nos anos 60, agentes cubanos foram enviados a diversos países para colaborar com a implementação de ditaduras”, disse. Também atribuiu ao regime socialista os problemas enfrentados pela Venezuela, onde “todos estão pobres e sem liberdade”. E defendeu que se combata o Foro de São Paulo, organização, segundo ele, criada para “difundir e implementar o socialismo na América Latina”.

     

    “O país não estava à beira do socialismo, mas sim caminhando para uma muito almejada distribuição de renda”

    Maria Aparecida de Aquino

    professor do departamento de história da USP (Universidade de São Paulo)

    “Se ele se refere aos governos anteriores, ele está se referindo especificamente aos governos do PT. O que ele está tentando dizer é que houve uma tentativa muito modesta, na realidade, de distribuição de renda com programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa Família e outros programas do gênero. Talvez ele entenda isso como uma coisa que está nos levando à beira do socialismo. O país não estava à beira do socialismo tradicionalmente conhecido, mas estava, sim, caminhando para uma benfazeja e muito almejada distribuição de renda, num dos países que concentra cada vez mais renda em torno de uma minoria muito pequena dos mais ricos.

    Em outro momento, ele faz uma referência à ditadura militar, dizendo que às vésperas do regime militar nós estávamos caminhando na direção de uma certa socialização, referindo-se ao governo de João Goulart com as chamadas reformas de base, que podem ser consideradas também um caminho para a distribuição de renda.

    Ele está reproduzindo uma visão das Forças Armadas de que o governo de João Goulart estava caminhando para uma república sindicalista. Nunca houve, em nenhuma documentação existente, essa ideia de república sindicalista. Disseram isso para desestabilizar o governo João Goulart e levar ao golpe e, portanto, o golpe de 1964 seria um contragolpe preventivo. É uma interpretação errônea nas Forças Armadas. O país nunca esteve à beira do socialismo. Nem a própria URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) existe há mais de duas décadas.

    O Programa Mais Médicos foi orquestrado pelo governo brasileiro e o governo de Cuba. Não tinha nada de agente do governo de Cuba, eram simplesmente médicos. A Revolução Cubana aconteceu em 1959 e, a partir de 1961, por um fechamento de todas as possibilidades para o país, se tornou socialista, mas não pode-se dizer que houve penetração de cubanos aqui no Brasil.   

    Sobre o Foro de São Paulo, é uma organização muito pouco expressiva. Se ele [Bolsonaro] não falasse disso, dificilmente se ouviria falar dessa organização. Ele procura dar nome para tentar concretizar as ideias incríveis que ele tem. Se isso existe e está organizado, é muito pouco conhecido e divulgado. 

    Ele tem razão em associar a Venezuela ao socialismo, mas não ao socialismo clássico. Os próprios venezuelanos e principalmente Hugo Chávez (1954-2013) e Nicolás Maduro se associam ao que chamam de bolivarianismo. Quem pensa o regime diz que a tendência é transformar o país numa república bolivarianista, pensando em Simón Bolívar (1783-1830) e sua ideia de reunião dos países da América, que vem desde a época da Independência. A saída seria se tornar países independentes para que se unissem. Mas não há uma marca socialista. Algumas políticas são próximas da socialização.”       

    As ‘mentiras’ sobre a Amazônia e o ataque à França

    Bolsonaro afirmou que seu governo foi alvo de “ataques sensacionalistas” da mídia internacional por causa dos focos de incêndio na Amazônia e que alguns países embarcaram nas “mentiras”, tratando o Brasil de forma “desrespeitosa” e com “espírito colonialista”, numa referência à França. “Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania”, afirmou. Ele elogiou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por não aceitar sanções ao Brasil sugeridas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, durante encontro do G7 no final de agosto. Bolsonaro disse que a ONU não pode aceitar que a mentalidade colonialista regresse.

    “Bolsonaro joga ralo a baixo todo o trabalho de mostrar que o Brasil deve ser ouvido”

    Elaini Silva

    doutora em direito internacional pela USP e professora de relações internacionais da PUC-SP

    “O discurso do Bolsonaro só foi recebido bem pela base dele mais fiel aqui dentro do Brasil. Fora do país, o discurso encontrou uma certa incredulidade no tipo de informação que ele passou, como uma informação descolada da realidade, tanto na Alemanha quando na França e nos Estados Unidos. O discurso não está colado ao tempo em que é feito. Isso gera uma perda de credibilidade muito grande.

    Muita gente está falando em vergonha para o Brasil como se fosse apenas uma questão de moral. Por mais que tenha sido um discurso mais próximo do que o Bolsonaro costuma ser, ele não é um discurso de vergonha, porque ele não mostra apenas informação errada, ele mostra um certo delírio. As informações são descoladas da realidade. É possível constatar por meio de dados que a gente não teve nenhum outro período na história tão coberto por sistemas capitalistas como o atual. O socialismo não é um risco reconhecido pela academia há muito tempo. Essa percepção dele de falar que havia um risco mostra que ou o país está sem governo ou existe um uso amplamente ideológico no pior sentido.

    Qual é o impacto disso? A gente tem esforço como país de periferia. Em 1907, o Barão do Rio Branco e o Ruy Barbosa se deram conta de que o Brasil, apenas pelo seu tamanho, não era considerado um grande país. Era uma periferia. E, desde então, um grande esforço tem sido feito por todo governo brasileiro para se colocar como um país que merece ser ouvido pelo valor daquilo que tem a dizer. O que [Bolsonaro] joga ralo abaixo é todo o trabalho de mostrar que o Brasil deve ser ouvido, ao contrário do que se espera de um país de periferia.

    Existe risco econômico? Estamos vivendo num momento em que qualquer coisa pode ser motivo para justificar sanções. O discurso não seria um fator a mais para gerar repressão econômica, mas episódios como esse vão gerando um atrito que só piora as relações.      

    O discurso é voltado para a própria base, daí o risco. Ele não está voltado a um projeto que considere que mundo o Brasil quer para os brasileiros, e qual a posição do Brasil nesse mundo. Bolsonaro segue a prática de deputado do baixo clero de satisfazer essa necessidade e certos interesses momentâneos sem pesar as consequências. Se olharmos o discurso do presidente americano Donald Trump, [também] é um discurso muito mais voltados para sua base. Mas tem uma diferença qualitativa no peso dos Estados no sistema. Os Estados Unidos são um dos eixos que articulam e fazem funcionar o sistema internacional. O Bolsonaro, não. E perto do discurso do Bolsonaro, o do Trump parece bem razoável.”

    A exploração das riquezas das terras indígenas

    Para Bolsonaro, os povos indígenas “querem e merecem usufruir dos mesmos direitos de que todos nós”. Ele afirmou que não vai aumentar o número de terras demarcadas no seu governo. O presidente criticou o cacique Raoni, que, segundo ele, é “usado como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”. Também criticou as ONGs e defendeu a exploração de territórios indígenas, como as reservas Ianomâmi e Raposa Serra do Sol, por terem ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras.

    “Os povos indígenas são protagonistas, e a mensagem de Bolsonaro visa acirrar mais ainda a violência”

    Antônio Eduardo Cerqueira de Oliveira

    secretário-executivo do Cimi (Conselho Indigenista Missionário)

    “Os povos indígenas a partir de sua luta no Brasil pelos territórios ou pelos seus direitos incluídos na Constituição têm se constituído como protagonistas, não como massa de manobra. A partir dessa luta, eles têm influência em muitas outras lutas no Brasil, de comunidades que estão no entorno e em centros urbanos, pelos seus direitos. As conquistas que obtiveram foram a partir dos próprios esforços. Bolsonaro possui uma concepção atrasada e bastante preconceituosa com relação aos povos indígenas no Brasil.

    Sua mensagem visa acirrar mais ainda a violência contra os povos indígenas, contra os pobres, o que não é uma função do presidente da República. O presidente tem que ter uma visão de uma sociedade de todos e não parcial. É uma visão distorcida que só considera o capital quando diz que o território Ianomâmi e a Raposa Serra do Sol têm que ser explorados porque têm riquezas minerais. Com isso, ele está incitando a violência contra esses povos.  

    Ele vem afirmando que não haverá mais demarcações, desde o período eleitoral. Aí não é mais um discurso, mas uma ação, em que ele esvazia todos os mecanismos e todos os órgãos que têm a responsabilidade de oferecer políticas públicas aos povos indígenas. É preocupante. O direito de demarcação dos territórios está contido na Constituição Federal. Não é uma situação que cabe ao presidente da República dizer que não demarca. Ele deve respeitar a lei.   

    A luta contra o globalismo

    Bolsonaro disse que “sistemas ideológicos” e o “politicamente correto” dominaram a cultura, a educação, a mídia, as universidades e as escolas para investir contra a família e destruir “a inocência de nossas crianças”. Essa ideologia, chamada de globalismo, também ameaçaria “Deus e a dignidade com que nos revestiu”. O presidente citou em sua fala, como exemplo disso, o fato de ter sido esfaqueado por um “militante de esquerda” durante a campanha presidencial de 2018. Para derrotar essa ideologia em questões como o clima, a democracia, os direitos humanos e a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, ele defendeu ser preciso perseguir a “verdade”. “Todos os nossos instrumentos, nacionais e internacionais, devem estar direcionados, em última instância, para esse objetivo”, disse.

    “O Brasil está a caminho de um isolamento, cada vez mais sujeito a boicotes e sanções comerciais e sem aliados”

    Maurício Santoro

    doutor em ciência política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) e professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

    “Havia uma certa expectativa da importância desse discurso e de que era um momento de o presidente vir com uma fala moderada para tentar de algum modo fazer um controle de danos em relação às críticas internacionais recebidas nos últimos meses sobre a questão ambiental. Essa expectativa não era absurda. Algo parecido tinha acontecido naquela noite em que o Bolsonaro fez um discurso em cadeia nacional muito diferente do habitual e disse mais ou menos o que a comunidade internacional queria ouvir: ia combater as queimadas e defender a Amazônia. Ele poderia ter feito um discurso desse tipo, e seria importante. O que nós lemos nos bastidores desse discurso é que ele foi escrito pelo general Augusto Heleno [chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República], pelo Felipe Martins [assessor internacional], trabalhando temas caros à ala antiglobalista do governo brasileiro.

    O governo é uma aliança não heterogênea de forças que não raro estão em confronto. A gente tem uma ala liberal ligada ao Ministério da Economia, da Agricultura; a gente tem uma ala militar mais conservadora e uma ala antiglobalista. É uma ala que está muito mais ligada nessa onda global de movimentos nacionalistas e populistas extremos em vários países. Nos Estados Unidos, o governo tem um diálogo melhor com o Steve Bannon [ex-estrategista-chefe da Casa Branca] do que com o Trump. O discurso do Trump, em comparação com o de Bolsonaro, foi moderado. Essa ala do governo faz parte de um movimento internacional de contestação do liberalismo, de uma visão de soberania como sendo algo que não passa por nenhum tipo de interferência externa. É uma visão insustentável.

    O mundo é de um economia global mais aberta, mais integrada, interdependente, permeado por instituições multilaterais e regimes internacionais que têm um impacto em diversas áreas das políticas públicas. Não dá para voltar o relógio. O preço de dizer não a esse tipo de mundo é um isolamento internacional e econômico. O Brasil quer perder acesso a mercados globais? Ou quer ampliar suas exportações, sua participação internacional? Se a gente quer acesso a mercados globais, a gente tem que seguir as normas internacionais.

    Em nenhum momento isso fica mais claro do que o acordo Mercosul e União Europeia. O governo colocou esse acordo com uma de suas maiores negociações. Mas ele significa um triunfo e expansão das visões de mundo globalista. Ele significa, por exemplo, um nível de supervisão internacional de políticas públicas muito grandes, significa aderir a padrões internacionais, inclusive na preservação do meio ambiente. O que o governo brasileiro de fato quer? Quer aderir, que ele seja assinado e ratificado? O que vai prevalecer em uma ala antiglobalista que diz que não é isso que a gente quer?

    Há pessoas descontentes com essa posição em relação ao meio ambiente. Eram questões que o Brasil vinha construindo há mais de 30 anos, desde a redemocratização, se estabelecendo como um país importante nesse diálogo sobre questões ambientais. Os produtos extraídos da Amazônia são produtos que vão para mercados internacionais. O Brasil está a caminho de um isolamento, cada vez mais sujeito a boicotes e sanções comerciais e sem aliados. Quem sobrou são os Estados Unidos, mas existe um limite até onde os Estados Unidos vão em defesa do Brasil, inclusive porque esse tema é muito relevante nos Estados Unidos.

    A China não tem criticado o Brasil internacionalmente pela questão ambiental, mas também é um país onde o tema se tornou muito importante. Tanto dentro, na política doméstica, quanto na política externa. Para eles, também há um limite. Quem vai defender o Brasil de fato com essas posições que ele tem assumido? Praticamente ninguém.

    O país vai cair num nível de isolamento grande, podendo sofrer todas essas consequências econômicas, perder investimentos, acesso a mercados, num período em que a gente está precisando mais do que nunca disso. O país está lutando para retomar o crescimento depois de anos de recessão profunda. Há um cenário internacional devastador, com fuga de investidores de países emergentes. O presidente fala de supostos interesses internacionais num momento em que os investidores estão deixando a Bolsa de Valores de São Paulo em número recorde. O problema não são os estrangeiros quererem tomar conta do Brasil, o problema é que eles estão indo embora.”

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!