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O impacto ambiental das hidrelétricas da Amazônia

Estudo examina usinas existentes e em construção na região para determinar quais podem são mais prejudiciais ao meio ambiente. Difundido como uma solução energética limpa, modelo pode ser tão poluente quanto usina movida a carvão

 

Desde os anos 2000, diversos trabalhos científicos chamam atenção para o impacto ambiental de usinas hidrelétricas. Em alguns casos, segundo especialistas, elas podem ser até mais poluentes do que termelétricas.

Uma visão largamente difundida é de que as usinas hidrelétricas são uma fonte de energia limpa, pois não precisam queimar combustíveis como carvão, petróleo ou gás natural para produzir energia, como fazem as termelétricas.

Em 2002, um estudo pioneiro de pesquisadores da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, indicou que as barragens das usinas hidrelétricas eram responsáveis pela produção de quantidades expressivas de metano, gás carbônico e óxido nitroso. De acordo com os cientistas, havia três fatores por trás do surgimento desses gases:

  • a decomposição da vegetação que é inundada pelas águas represadas no processo de construção da usina
  • a produção de CO pelas algas que aparecem nos lagos das hidrelétricas e que decompõem os materiais orgânicos
  • a renovação constante de materiais orgânicos, trazidos por rios e pela chuva.

No ano de 2016, outro trabalho, realizado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, se debruçou sobre o impacto das hidrelétricas. Desenvolvido por cinco pesquisadores, o estudo calculou que 18 novos lagos projetados para a região amazônica poderão liberar, em 100 anos, até 21 milhões toneladas de metano e 310 milhões de dióxido de carbono. O levantamento apontou os mesmos fatores da pesquisa de 2002 como responsáveis por emissões de carbono.

Segundo a pesquisa, como o metano é 32 vezes mais eficiente na retenção de calor que o gás carbônico, as emissões desse gás por essas usinas poderiam equivaler a até 982 milhões de toneladas de gás carbônico, no pior cenário, e 369 milhões de toneladas, no melhor quadro.

Como minimizar esse impacto

Um novo artigo mostra como determinados conjuntos de hidrelétricas na Amazônia podem emitir menos carbono enquanto geram mais energia. Encabeçado por Rafael M. Almeida, brasileiro que pesquisa no Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da universidade de Cornell, nos Estados Unidos, o trabalho ressalta a importância de se coordenar a instalação de usinas na região com o objetivo de minimizar consequências ambientais negativas.

“Se você desenvolver essas barragens, uma de cada vez, sem planejar estrategicamente — e é assim que elas geralmente são desenvolvidas —, há uma chance muito pequena de você ter uma solução ideal”, afirmou o pesquisador ao site Nature Communication.

Por meio de um modelo computacional que usa a inteligência artificial, a equipe analisou diversas configurações de usinas na região para entender em quais condições haveria maior eficiência em termos de emissões de gases que esquentam a atmosfera. Um total de 158 usinas existentes e 351 planejadas foi examinada pelos pesquisadores não só no Brasil, mas também no Peru, Bolívia, Colômbia e Equador.

Uma das conclusões principais do estudo é que usinas hidrelétricas situadas em áreas mais elevadas tendem a ser menos prejudiciais ambientalmente. Já as usinas em áreas mais baixas têm impacto maior. Um dos motivos destacados pelo trabalho é que em localizações mais altas a área de alagamento pode ter uma extensão menor.

Entre os projetos estudados da região Amazônia, os especialistas descobriram que usinas localizadas em áreas mais baixas conseguem produzir até dez vezes mais carbono que uma geradora de energia termelétrica alimentada por carvão. Um exemplo de usina considerada poluidora é a Hidrelétrica de Balbina, inaugurada em Presidente Figueiredo, Amazonas, em 1989.

Segundo o estudo, das 351 usinas propostas nos cinco países da região, 65% estão em áreas baixas, definidas como situadas em alturas de até 500 metros acima do nível do mar, e 35% ficam em regiões mais altas que 500 metros acima do nível do mar.

No Brasil, um número reduzido de projetos fica em áreas elevadas, estando a maior parte no Peru, seguido de Equador e Bolívia. Devido às características topográficas da região, a vasta maioria das usinas propostas na Amazônia brasileira está em áreas de pouca altitude.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão desta matéria apresentava a usina de Jirau, em Rondônia, como exemplo de projeto com altos índices de poluição. Na verdade, Jirau tem eficiência comparável a de uma usina de energia solar, segundo o pesquisador Rafael M. Almedia.

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